domingo, 11 de junho de 2017

Jogo fátuo

O fogo fátuo (Foto: Fernando M. Peixoto)



Jogo fátuo (Jeu follet)


Por Fernando Moura Peixoto



“Só há progresso, descoberta, na direção da morte.”

Jacques Rigaut (1898 – 1929)




Outro ano se passa
em nossa vida vazia,
improdutiva.
Mais velhos ficamos
na existência oca,
sem realizações.
Esvaindo-nos vamos,
por entre os dedos,
sem nada reter.

Lutando contra a corrente,
nos debatemos,
levados pela enchente.
Nesse imenso caudal
inúteis, estéreis
soam os esforços.

A angústia gradativa,
a instabilidade,
nos dominam
no presente penoso,
no futuro incógnito
e no abandono.

O desemprego amoral,
da confusão reinante
aos paliativos do momento.
A impotência de sermos
na luta atroz
contra nós mesmos.

A insegurança,
o definhamento,
físico e mental,
a proximidade do fim.
A derrota,
a partida iminente.
Nada mais nos resta,
tudo está perdido:
“Jogo feito!”

Fernando Moura Peixoto (1946-), ‘O Jogo Fátuo’ (‘Jeu Follet’), 1977.



Escrito em 1977 – quando tinha 31 anos incompletos – o texto mereceu o Prêmio de Edição em concurso promovido em 1992 pelo jornal O Povo na Rua e a Litteris Editora, sendo publicado em 1993 na antologia poética 'O Povo na Literatura'.

“Aqui, a marca bastante clara e viva do que o POVO sente e vive no seu dia a dia”. São “histórias reais e fictícias que se fundem de tal forma que talvez nem seus autores consigam discernir onde começa o real e onde termina o irreal”.


Poema com a temática influenciada pelo clássico filme ‘Trinta Anos Esta Noite’ (‘Le Feu Follet’ em francês, “Fogo-Fátuo”), do consagrado diretor Louis Malle (1932 – 1995), realizado em 1963. E que foi adaptado do romance do mesmo nome, do escritor e ensaísta Pierre Drieu la Rochelle (1893 – 1945).


Este último, por sua vez, inspirou-se na vida de Jacques Rigaut (1898 – 1929), poeta surrealista ligado ao dadaísmo, que cometeu suicídio com um disparo no coração.


Densa, profunda, intimista, a película sintetiza as reflexões principais do movimento existencialista e era a favorita do cineasta, embalada por primorosa fotografia em preto e branco, a cargo de Ghislain Cloquet (1924 – 1981), e música de Erik Satie (1866 – 1925), interpretada pelo pianista Claude Helffer (1922 – 2004).


Um resumo do filme

São dois dias (os últimos) na vida de Alain Leroy, um atormentado alcoólatra interpretado por Maurice Ronet (1927 – 1985), recém-saído de uma clínica de saúde em Versalhes, e que empreende um périplo final entre os amigos, em Paris, buscando em vão reconstituir o passado. “Estou partindo”, avisa, sem ser compreendido.

Ex-combatente na Guerra da Argélia (1954 – 1962), casamento em frangalhos e dinheiro escasso, deprimido, angustiado e sem esperanças, Alain se recusa a aceitar a chegada da meia idade, a fase adulta – os 30 anos do título em português –, findando sua jornada com uma bala de nove milímetros no peito, em 23 de julho – “a vida passa tão devagar para mim, então eu a acelero. Eu a corrijo... Amanhã me matarei”.

“Eu sou paciente. Nunca fiz nada além de esperar”, diz, entediado. “Toda minha vida. Esperando... que algo acontecesse. O quê? Não sei”. E ainda: “Não são sensações de ansiedade, é uma ansiedade única, uma angústia perpétua”. 

Mais adiante: “A questão é... não posso alcançar com minhas mãos. Não consigo tocar as coisas. E quando eu consigo tocar, não sinto nada”. E lamenta: “Partir, sem ter tocado nada. Beleza. Bondade. Sempre mentiras... Eu sou bruto, inepto. A sensibilidade estava em meu coração, não em minhas mãos.”


Maurice Ronet (Gaumont/internet) 

“Eu não as amo; nunca pude amá-las. Não posso tocar, não posso pegar, tem de vir do coração. Eu gostaria de ter cativado as pessoas, retê-las, mantê-las próximas. Para que nada mais se movesse ao meu redor, mas tudo deu sempre errado. Queria tanto ter sido amado por quem eu amo.” 

Alain Leroy (1933 – 1963), protagonista de ‘Le Feu Follet’.



Havia uma cópia perfeita de ‘Le Feu Follet’, no idioma original e multi-legendada, no You Tube, exibida no ‘Wagner Sanford Channel’, mas ela foi bloqueada “com base nos direitos autorais” de conteúdo da Gaumont. Uma versão condensada e estilizada do filme pode ser vista em quatro links no ‘Ira Musik Love’, titulada em espanhol e com trilha sonora diferente da primitiva:



''Morrer é fácil, difícil é conviver com nossos fantasmas até o fim da vida. ''
 
Carlos Lamarca (1937 – 1971)

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