sexta-feira, 19 de maio de 2017

Os Panteras Negras

http://profwladimir.blogspot.com.br/2012/02/panteras-negras-movimento-negro-eua.html



Os Panteras Negras - Parte I

Nós Acreditamos que o Povo Negro não estará livre até não sermos capazes de determinar nosso próprio destino”. Este era um dos lemas dos Panteras Negras, grupo político que revolucionou o Movimento Negro Americano nos Anos 60. 
 

Huey P. Newton juntamente com Bobby Seale


Após assistir inúmeros e sucessivos abusos da força policial de Oakland,Califórnia, Huey P. Newton juntamente com Bobby Seale e demais membros da comunidade local fundam em fins de 1966 o Partido dos Panteras Negras (Black Panther Party). Tratava-se de um grupo político-social que visava proteger e ajudar a comunidade negra. Eles patrulhavam as ruas armados com Berettas,vestiam jaquetas de couro e boinas pretas,amparados por uma lei estadual que dizia que todo cidadão cuja integridade física fosse ameaçada poderia portar uma arma de fogo e empregar o uso da força. Essa lei se encaixava perfeitamente com a proposta dos Panteras de defender os negros do racismo e violência da polícia de Oakland, a qual o grupo confrontava-se de igual para igual sem serem detidos. Paralelamente a isso, os Panteras Negras distribuíam café da manhã para as crianças carentes e comida e roupa para os desabrigados.
 
Os Panteras Negras eram regidos pelos 10 pontos de sua plataforma, 8 pontos de atenção para seus membros,e 3 normas básicas de conduta (todas essas normas veremos posteriormente). Ao contrário de líderes como Malcolm X e Martin Luther King Jr, eles não tinham orientação religiosa, eram esquerdistas da linha Marx-Mao - alguns integrantes do grupo chegavam a distribuir cartilhas de Mao nas entradas das universidades.
Nos anos seguintes os confrontos com a polícia se intensificaram, mas o primeiro grande golpe que os Panteras Negras sofreriam viria de Ronald Reagan na época governador da Califórnia. Ele revogou a lei do porte de arma jogando as atividades de auto-defesa das comunidade na ilegalidade. FBI e CIA também começavam a conspirar contra o grupo num plano sinistro chamado Cointelpro o sobre o qual falaremos mais tarde. 

Porém esse fato não impediu de imediato a expansão dos Panteras Negras que criaram seu próprio jornal o ‘Black Panther’-Community News Service em que Eldridge Cleaver, jornalista e Ministro de Informações do grupo, denunciava os atos infames do governo e da polícia. O jornal chegou a publicar fatos sobre a repressão militar no Brasil (edição de 11 de Julho de 1970) na época sob ditadura. A organização crescia pelos EUA, juntamente com sua exposição aos ataques da polícia além de terem alguns de seus integrantes mortos e presos. Ainda em 1967, em um desses enfrentamentos, Huey Newton, fundador do grupo, num intenso tiroteio com a polícia de Oakland, matou o policial de nome John Frey e feriu gravemente um outro oficial chamado Herbert Heannes. Huey foi alvejado no estômago e preso. O incidente motivou uma inflamada campanha por sua libertação tornou-se um ícone antigovernista em plena Guerra do Vietnã. Sobre sua prisão ele disse: “Você pode encarcerar um revolucionário, mas não pode encarcerar a Revolução”.
 
 



Os Panteras Negras - Parte II

O “Partido das Panteras Negras” foi fundada por Huey P. Newton juntamente com Bobby Seale em meados de 1966 na cidade de Oakland, na Califórnia. Os 10 pontos da plataforma de programa dos Panteras Negras foram estabelecidos em 15 de Outubro de 1966. Os comentários sobre cada ponto são fragmentos do discurso de Bobby Seale realizado em 17 de Fevereiro de 1968 em Oakland.
 

1 - QUEREMOS LIBERDADE, QUEREMOS O PODER PARA DETERMINAR O DESTINO DE NOSSA COMUNIDADE NEGRA.

2 - QUEREMOS EMPREGO PARA NOSSO POVO. “É o que os irmãos e irmãs vivem me dizendo, então eu pergunto o que está acontecendo? Estamos sem emprego é o que está acontecendo! Então eu digo tudo bem vamos trabalhar juntos!”.

3 - PRECISAMOS ACABAR COM A EXPLORAÇÃO DO HOMEM BRANCO NA COMUNIDADE NEGRA. Espere um momento isso não parece certo, nem todos que pilham a comunidade negra são brancos muitos são negros. Pois bem não somos antibrancos, somos a favor do que é justo então vamos revisar a número 3: PRECISAMOS ACABAR COM A EXPLORAÇÃO CAPITALISTA NA COMUNIDADE NEGRA.

4 - NÓS QUEREMOS MORADIA, QUEREMOS UM TETO QUE SIRVA PARA SERES HUMANOS. Muitas pessoas pelas cidades perambulam sem um teto sob suas cabeças, a chuva vem e todos ficam vulneráveis, é um simples direito humano ter um teto sob sua cabeça. To have a roof over your head when the hard rain fall”, como nesta música de Bob Dylan.

5 - “Alguma sugestão? Precisamos de educação, mas que tipo de educação? A que revele a verdadeira natureza da decadente sociedade americana? Isso é o que pensei que você fosse dizer”. PRECISAMOS DE UMA EDUCAÇÃO QUE NOS MOSTRE A VERDADEIRA HISTÓRIA E A NOSSA IMPORTÂNCIA E PAPEL NA ATUAL SOCIEDADE AMERICANA.

6 - “Precisamos entrar em acordo sobre a causa do Vietnã e dizer que”: QUEREMOS TODOS OS NEGROS ISENTOS DO SERVIÇO MILITAR. “Como pode um negro lutar contra um asiático, em nome de um branco que roubou a terra dos índios?”.

7 - E por falar em Vietnã, precisamos entrar em acordo sobre Oakland e o assassinato de negros. PAREM COM OS ASSASSINATOS EM NOSSA COMUNIDADE. Outro dia um porco (policial) teve a audácia de me perguntar o que eu fazia com minha arma, e eu perguntei o que você faz com a sua? Você sabe o porco desta noite é o bacon do Café da Manhã é por isso que eu não posso ser um mulçumano negro-eu adoro bacon.

8 - QUEREMOS TODOS OS NEGROS LIBERTOS DE CADEIAS FEDERAIS, ESTADUAIS, E MUNICIPAIS. É isso mesmo, porque eles tiveram seus direitos constitucionais violados, eles não foram julgados por um júri formado por seus semelhantes, então liberte-os!

9 - Deixe-me elaborar a número nove quando um negro for trazido a julgamento neste País queremos que: TODOS OS NEGROS SEJAM JULGADOS POR UM JÚRI FORMADO POR SEUS PARES. E não na rua por um porco qualquer, que seja julgado conforme a constituição dos EUA é um direito constitucional ser julgado por seus semelhantes.

10 - Vamos fazer um resumo este é o último ponto agora o que queremos? TERRA, MORADIA, EDUCAÇAO, VESTUÁRIO. Eu sei que você quer nossa jaqueta preta de couro; não se preocupe terá a sua. TERRA, MORADIA, EDUCAÇÃO, VESTUÁRIO, JUSTIÇA? Sempre lutar por justiça, mas quando vejo o seu corredor da morte procurar por justiça o que vejo? Somente nós! TERRA, ALIMENTO, MORADIA, EDUCAÇÃO, VESTUÁRIO, JUSTIÇA, E UM POUCO DE PAZ. É eu tenho a sua paz; descanse em paz!

Bobby Seale, Co-fundador dos Panteras Negras.
 

 


Os Panteras Negras - Parte III

Os Documentos Cointelpro. Saiba o que governo americano foi capaz de fazer com a ajuda do FBI, para desmobilizar o ativismo dos Panteras Negras.
 
Cointelpro foi um programa de contra-espionagem estabelecido pelo FBI para neutralizar dissidentes políticos no período de 1956 a 1971 (continuidade do Macarthismo?) usado para investigar grupos políticos “radicais” que poderiam estar envolvidos com inimigos estrangeiros. De acordo com o próprio FBI os propósitos principais do Cointelpro eram neutralizar e desmembrar os nacionalistas negros, e prevenir o crescimento de “novos Messias” como o líder Martin Luther King Jr . Após assassinato do líder em 1968, as atenções se voltaram para Huey P Newton,de fato das 295 ações documentadas e apresentadas pelo Cointelpro 233 eram direcionadas contra os Panteras Negras.
 
Ao todo foram mais de 2.000 ações individuais documentadas onde eram praticados métodos escusos de investigação e espionagem, tais como: correspondência forjada, chamadas telefônicas, roubo, vandalismo (vários escritórios dos Panteras foram atacados), plantio de provas e toda sorte de violências políticas e psicológicas no mais puro “Terrorismo de Estado”, para encurralar os ativistas. Foram forjados pretextos legais para tornar tais ações legítimas, ao mesmo tempo alienaram o restante dos americanos distorcendo e “satanizando” a imagem desses grupos para validar a repressão política de forma franca.
 
Alienar e manipular a opinião pública não era algo difícil de se fazer já que a classe média branca da época ignorava ou tolerava ataques dirigidos às comunidades negras. O FBI temia o poder de organização e militância do ativismo negro que tinham simpatia e apoio internacionais ligadas às causas da pela justiça social e as igualdades raciais e sexuais. Essas lutas roubaram a cena do cenário político mundial, além da própria Guerra do Vietnã. No entanto os Panteras sofreriam ataques cada vez mais violentos do FBI e da força policial, sendo que os únicos objetivos do grupo eram o de prover para o maior número possível de negros educação, saúde, alimentação e controle da violência policial. Suas armas estavam restritas às ações de legítima defesa da comunidade, só que o Terrorismo de Estado praticado pelo FBI levou ao recrudescimento das ações armadas dos Panteras Negras, que por sua vez, foram usadas para justificar a violência e repressão empregados pela doutrina Cointelpro.
 
Ações de contra-espionagem levaram até a uma relação promíscua entre o FBI a Máfia e os cartéis da “droga objetivo” (injetar drogas nos bairros negros para desmotivar e enfraquecer as lideranças que proviam dessas comunidades). Os Panteras combatiam o tráfico de drogas em suas comunidades e um fortalecimento destes traficantes teria como intuito causar baixas no grupo dentro de seu próprio território, porém o consumo de entorpecentes não era uma preocupação ou prioridade das autoridades até atingirem os subúrbios brancos, drogas que tinham baixo custo e fácil acesso e que em parte tinham sido usadas para desmembrar e desestabilizar o engajamento dos negros em geral e dos Panteras em particular. Outro braço das ações do Cointelpro eram grupos ultra-direitistas como a Ku Klux Klan que recebiam apoio financeiro e logístico de tal forma que essas organizações tomaram para si os objetivos do Cointelpro. Ações secretas também se voltaram contra índios-americanos, latinos, filipinos, árabes e outros.
 
Além dos Panteras Negras outros grupos revolucionários foram rechaçados em seis programas de contra-espionagem,são eles: 

-Comunistas (1956-1971) 
-Grupos pela Independência de Porto Rico (1960-1971) 
-Partido Socialista dos Trabalhadores (1961-1971) 
-Grupos de Resistência ao Branco (1964-1971) 
-Grupos Nacionalistas de Resistência Negra (1967-1971) 
-Nova Esquerda (1968-1971)
 
Operações posteriores atingiram também grupos pacifistas, de estudantes e feministas,e paralelamente a estes acontecimentos, J. Edgard Hoover, diretor do FBI na época, sondou muitas atividades de Martin Luther King. Em documentos diziam que King era uma ameaça ao estilo de vida americano. Ele foi acusado de ser comunista e teve sua vida pessoal devastada por rumores infundados envolvendo adultério, Hoover tentou jogar o líder negro no descrédito ao dizer que ele copiava suas teses pacifistas e discursos de outros autores, mas tudo isso não foi capaz de abalar o carisma de Martin Luther King que era admirado, inclusive, por muitos brancos. O fato é que King se inspirava na resistência pacifista de Ghandi e até hoje este americano é lembrado e homenageado na Índia. Ghandi, por sua vez, vivenciou o racismo de perto quando morou alguns anos na África do Sul.
 
Os documentos Cointelpro foram revelados em arquivos secretos em um escritório do FBI em março de 1971 sendo publicados depois pela grande mídia. Houveram inúmeras autorizações para obtenção de informações, processos e confissões públicas de agentes. A missão agora era a de “resgatar” a imagem do governo americano, um tanto quanto arranhada devido a derrota no Vietnã e ao escândalo Watergate, perante o Congresso americano e os tribunais federais. O FBI se comprometeu a revelar parte das ações realizadas do programa Cointelpro com a promessa que não as repetiria novamente.
 
 
Até que ponto as ações do Cointelpro foram capazes de enfraquecer o movimento negro? Difícil mensurar, mas o ativismo colecionou vitórias importantes durante este conturbado período e garantiu aos negros direitos básicos de cidadania e cidadania. No último capítulo falaremos sobre a libertação de Huey P Newton e outros pontos importantes dos Panteras Negras,seu legado e os falsos Panteras Negras Atuais liderados por Khalid Muhammad
 




Os Panteras Negras - Parte IV


Neste último capítulo nos aprofundaremos um pouco mais na história dos Panteras Negras, falaremos sobre alguns de seus integrantes, seu legado para as futuras gerações e Khalid Muhammad, o polêmico líder anti-semita dos falsos novos "Panteras Negras".

Anos 70 Auge e Declínio
 
Após os assassinatos de Malcolm X e Martin Luther King Jr., os negros norte-americanos precisavam de um novo referencial, uma nova força política capaz de assegurar tudo o que havia sido conquistado em termos de cidadania, dar um basta nas convulsões raciais causadas pela violência policial e promover programas sociais dentro das comunidades negras, negligenciadas pelo Estado.
 
Eis, então, que emerge em Oakland "O Partido dos Panteras Negras", cujo ideário marxista visava preencher o fosso social após séculos de escravidão além do impedimento ao voto, a educação e ao ingresso a repartições públicas, que até a década de 60 do século XX (é preciso frisar) eram segregadas. Todas essas formas de repressão impediam o negro de obter sua emancipação social e econômica, depois dos direitos civis os Panteras queriam garantir a população negra uma participação efetiva na sociedade americana, pelo fim da opressão oriunda do Estado e do capitalismo.
 
Na prática, os Panteras empregaram algumas ações sociais como o café da manhã gratuito e diário, que beneficiou milhares de crianças carentes. Tal foi o impacto desse programa que o governo se viu obrigado a implementá-lo em escolas públicas, mas o FBI, por sua vez, dizia que o programa de refeições grátis era um factóide comunista e que o real objetivo do Partido era dar um golpe de Estado, ou seja, a derrubada de Richard Nixon da presidência.
 
A paranóia de J.Edgard Hoover, diretor do FBI na época, resultou em ataques violentos direcionados aos escritórios dos Panteras, além de prisões e assassinatos de integrantes do Partido, ora cometidos pela polícia ora por assassinos pagos pelo FBI. Os programas sociais também se tornaram alvo de ataques nos pontos de distribuição e igrejas, onde os alimentos para o fornecimento eram destruídos. Apesar destas tentativas de eliminação, e todas as ações de contra-espionagem, os Panteras prosseguiram com seu compromisso social que além das refeições realizava também a distribuição de remédios, fabricação e doação de calçados, assistência jurídica, transporte coletivo e gratuito para a terceira idade, entre outros.
 
Em fins de 1970, observou-se um ínicio de dissidência dentro de sua liderança, após a vitoriosa campanha pela libertação de Huey houveram conflitos armados e incidentes que levaram a morte de integrantes e prisões como a da ativista Ângela Davis. Eldridge Cleaver, uma das lideranças dos Panteras e exilado na Argélia, pôs em xeque o programa social empregado até então e propôs uma agenda de atuação mais radical.
 
Cleaver foi expulso do Partido, que continuou com o trabalho de desenvolvimento da comunidade. Em 1974 a fragmentação da liderança se intensificou, Huey P. Newton foi para o exílio em Cuba, David Hilliard, integrante desde o começo do grupo, foi expulso enquanto estava preso, Bobby Seale também foi excluído.Todas as prisões efetuadas, mortes, exílios e divergências nas ações e políticas dos Panteras praticamente destruiram a liderança original,o comando foi passado então para a ativista Elaine Brown.
 
No período 1973-74, Brown fez duas incursões na política concorrendo a cargos eletivos e apoiou a candidatura de Lionel Wilson à prefeitura de Oakland. Wilson se tornou o primeiro prefeito negro da cidade. Como consequência, os Panteras Negras se fortaleceram, obtiveram recursos para construção de projetos residenciais, uma cooperativa para reconstrução do centro de Oakland, gerando milhares de postos de trabalho. Quando Huey voltou de Cuba, em 1977, encontrou o partido ainda atuante e pronto para dar continuidade a sua revolução social.
 
Porém as atividades de contra-espionagem do FBI não cessaram, após a revelação dos documentos Cointelpro as ações tornaram-se mais discretas e insuspeitas. Os conflitos entre os líderes continuaram, já desgastados internamente, não resistiriam a uma segunda onda de ataques do governo, levando o grupo revolucionário a um irremediável fim ao término dos anos 70.

 
Pontos de Atenção e Disciplina
 
Eis aqui algumas normas internas de conduta para os integrantes dos Panteras Negras, sua rígida disciplina proporcionava o fortalecimento do Partido em suas ações e também passava para a comunidade respeito e bom exemplo.Para os incautos; a norma número 8 se aplicava a confrontos em legítima defesa contra policiais violentos e agentes negros do FBI, que por ventura se infiltrassem no grupo.

 
Disciplina:
 
1-Fale educadamente
2-Pague o preço justo do que comprar
3-Devolva tudo que pegar emprestado
4-Pague pelo que danificar
5-Não agrida ou ameace pessoas
6-Não danifique propriedades ou bens das massas oprimidas 
7-Não tome liberdades com mulheres
8-Sempre que precisar fazer prisioneiros não os ameace

Atenção:
 
1-Obedeça as ordens em todas as suas ações
2-Não se aproprie de uma única agulha ou ameace os pobres e as massas oprimidas
3-Transforme-se naquilo que o inimigo usar para te atacar



Khalid Muhammad - O Líder dos falsos Panteras Negras

"Não Permita que o fundamentalismo ideológico e religioso motive a estupidez terrorista."
 
Ao Ler este pensamento de Bobby Seale, comecei a entender o porque de ele e outros ex-Panteras rejeitarem este novo grupo, chamado equivocadamente de "Panteras Negras". Os antigos tinham a imagem satanizada pela mídia, a qual os considerava "radicais" omitindo ao mesmo tempo as repressões e violências sofridas pelo negro e, talvez por isso, tanto naquela época como hoje, surjam oportunistas de dentro da comunidade em busca de alguma promoção pessoal. Neste caso Khalid Muhammad se encaixa perfeitamente. Este polêmico "líder" negro é o mentor dos novos "Panteras Negras" e é conhecido pelos nova-iorquinos pelo seu radicalismo e anti-semitismo, além de atrelar os novos "Panteras" a cartilha religiosa do Islã, o que contraria totalmente os princípios dos Panteras autênticos.
 
Os verdadeiros Panteras Negras NUNCA perseguiram ou combateram crenças religiosas e também preferiram não adotar uma para reger suas atividades, pensamentos ou discursos. Khalid Muhammad em uma de suas infelizes declarações disse que Nova York deveria mudar seu nome de New York City para "Jew York City", sugerindo que a cidade multi-racial e cultural era dominada por judeus. Certa vez foi proibido de marchar com seus "Panteras" em mais um protesto anti-judaico, pelo agora ex-prefeito Rudolph Giuliani. O prefeito disse não permitir em Nova York tais manifestações de ódio.
 
Um bom exemplo da demagogia e hostilidade de Muhammad foi quando ele foi entrevistado por Louis Theroux da BBC, os dois estavam em uma loja de roupas e Theroux comentou que uma jaqueta de couro de pônei que estava a venda causaria indignação em seu País, a Inglaterra. Muhammad então acusou o jornalista e todos os ingleses de gostarem mais de pôneis do que de negros, em alusão ao passado escravista britânico, condensando os ingleses em um único bloco monolítico sem se dar o trabalho de diferenciar racistas de protetores dos direitos dos animais. Assim, mostrou o quanto estava fora da plataforma dos verdadeiros líderes negros do passado. Porém Theroux não entrou em sintonia com Muhammad, dizendo apenas que não queria transformar o material usado na jaqueta em uma questão racial.
 
O radicalismo de Khalid Muhammad não encontra adeptos entre a grande massa de negros americanos, prestando-se apenas em criar um entrave nas relações raciais na já alienada opinião pública americana, causando uma percepção errada a respeito do movimento negro, da religião mulçumana, judaica e mais especificamente da memória dos Panteras Negras verdadeiros. Será que podemos confiar na mídia para fazer a diferenciação de Líderes competentes e bem-intencionados, de oportunistas e demagogos?

 
O Jornal -The Black Community News Service
 
Foi editado pela primeira vez em 25 de Abril de 1967 e trazia como manchete: "Por que Denzil Dowell foi morto?", sobre um jovem negro que foi baleado mortalmente pelas costas, pela polícia de Richimond,Califórnia. O jornal era distribuído por todo os EUA e disponibilizado em outros locais do mundo.
 
Era a voz oficial dos Panteras Negras, uma ferramenta que expunha as ideologias do grupo, as notícias da comunidade, as lutas revolucionárias pelo mundo, etc. Os assuntos cobriam a mais variada gama de interesses, informações sobre o Partido, o sistema judiciário, educação, empregos, moradia, polícia e serviços comunitários. Sua circulação atingia 100.000 cópias semanais, o jornal começou como edição mensal em 1967 e semanal em 1968, foi editado até 1978 vindo a ser recolhido definitivamente em 1980.

 
Os Integrantes que Fizeram História
 
Um breve histórico sobre alguns Panteras que se destacaram na luta pela igualdade.


Ângela Davis (1944-) é a integrante feminina mais famosa dos Panteras Negras. Estudou literatura francesa e depois foi aluna da Universidade Goethe na Alemanha, de volta aos EUA lecionou na Universidade da Califórnia (UCLA), mas foi demitida por sua filiação ao comunismo. Em 1970 tornou-se uma das dez pessoas mais procuradas do FBI, vindo a ser presa e cumprindo cerca de um ano e meio de detenção. Foi julgada e inocentada depois. Chegou a concorrer a vice-presidência dos EUA em 1972.
 
Davis agora é professora do departamento de filosofia da mesma UCLA, que a demitira no passado, atua também com atividades comunitárias orientando as atuais gerações pela defesa dos direitos civis, igualdade racial, social e sexual. Autora de sucesso, lançou algumas publicações entre elas destacam-se: 'If They Come in The Mourning -The Voice of Resistence' que traça uma visão marxista do preconceito racial, 'Race and Class' sobre feminismo e o mais recente 'Blues Legacy and Black Feminism'.
 
Eldridge Cleaver (1935-1998). Jornalista, Ministro de Informações dos Panteras Negras. Pertenceu a liderança original do Partido, no ínicio dos anos 70 foi para o exílio, tendo vivido na Argélia, França e Cuba. Lançou o livro 'Soul on Ice' (Alma no Gelo) no qual faz uma denúncia ao racismo praticado nos EUA. Foi excluído dos Panteras Negras por tentar radicalizar suas ações, voltou do exílio em 1975, abandonou o movimento negro e filiou-se ao Partido republicano. Morreu em maio de 1998 aos 62 anos de causa não revelada.
 
Huey P. Newton (1942-1989). Fundador dos Panteras Negras Huey era o cérebro do grupo até seu desmembramento. Foi preso após matar em legítima defesa o policial John Frey em Outubro de 1967, o que se seguiu depois foi uma inflamada campanha por sua libertação "Free Huey" era o lema dos jovens estudantes. O engajamento por sua liberdade misturou-se aos protestos contra a guerra do Vietnã. Em Setembro de 1968 um júri constituído de 11 brancos e 1 negro sentenciou Huey a uma pena de 2 a 15 anos. Após inúmeros protestos pelos EUA e 21 meses de apelações, seu advogado Charles Garry recorreu a Corte de Apelações da Califórnia baseado no fato do juiz passar instruções incompletas ao júri, conseguindo então a queda da acusação de homicídio. Após pagar uma fiança de US$ 50.000, Huey foi libertado em 5 de agosto de 1970.

 
Em 74 Huey foi para o exílio em Cuba, onde passou cerca de três anos e escreveu dois livros: 'To Die for The People' e 'Revolutionary Suicide'. Quando voltou de Cuba, os Panteras Negras estavam deixando de existir. Ao entrar nos anos 80 percebeu que o movimento negro e os princípios revolucionários estavam "anestesiados" pela "Era Reagan". Huey então se envolveu com drogas tornando-se um dependente. Foi assassinado a tiros em frente a sua casa em 22 de Agosto de 1989.

 
Bobby Seale (1936-). Co-fundador do Partido, Seale foi protagonista de inúmeras manifestações, inclusive a mais famosa ocorrida na convenção Democrata de Chicago em 1968. Porém, era considerado o mais moderado do grupo. Sobre os Panteras ele resumiu certa vez: "Nossa posição era: se vocês (polícia) não nos atacarem, não haverá violência, mas se trouxerem a violência até nós seremos obrigados a nos defender". Em 1974 ele foi expulso do grupo, lançou dois livros: 'Seize The Time', que conta a história do Partido e 'A Lonely Rage', que é auto-biográfico e tem também alguns livros de receitas de churrasco, cuja renda é revertida em obras assistenciais.
Atualmente Seale mantém uma ONG que presta serviços sociais na cidade onde vive, a Filadélfia.
 
Bobby Hutton (1951-1968). Era um dos integrantes mais jovens do grupo tinha 17 anos, cumpria a função de tesoureiro. No dia 6 de Abril de 1968 a polícia de Oakland fez um ataque surpresa a sua casa atirando por cerca de 90 minutos, Hutton estava desarmado e acabou levando 10 tiros. Segundo uma declaração de Eldridge Cleaver, ele não morreu imediatamente e sim sob custódia policial, Hutton foi assassinado apenas 2 dias depois de Martin Luther King. 

 
Fred Hampton (1948-1969). Estava a frente dos programas de refeições e assistência médica. No dia 4 de Dezembro de 1969 o FBI, munido de instruções fornecidas por um informante, ordenou que policiais invadissem o apartamento pertencente aos Panteras e assassinaram Hamptoncom 2 tiros na cabeça, enquanto ele dormia. Mark Clark, que dormia em outro cômodo, chegou a acordar, mas também foi baleado e morto. A esposa de Hampton, que segurava o filho de 8 meses, recebeu alguns tiros, mas sobreviveu. Todos os Panteras sobreviventes ao ataque foram presos e acusados de tentativa de assassinato por autoridades constituídas. Dos 90 tiros disparados, no total apenas 1 veio de um Pantera (Mark Clark), que dormira com a arma na mão. Nenhum policial foi responsabilizado pelas execuções.

 
O Legado
 
Esta é a lista de algumas ações sociais empregadas pelos Panteras Negras no passado e que hoje foram herdadas por ONGs, Organizações comunitárias, como a Própria Fundação Huey P. Newton e até Universidades.
 
-Conselhos de Estudantes Negros
-Centro de Desenvolvimento Infantil
-Programa de Educação de Consumidores
-Assistência a Dependentes do Álcool e Entorpecentes
-Assistência e Transporte gratuito de Deficientes Físicos 
-Serviço gratuito de Ambulâncias
-Café da Manhã gratuito para crianças
-Distribuição gratuita de Vestuário
-Assistência Dentária gratuita
-Serviço de Oftalmologia grátis
-Controle de Pestes gratuito
-Distribuição gratuita de calçados
-Centro de Saúde Geriátrica
-Programa de Tutores Estudantis
-Refeições gratuitas
-Centro de Orientação Juvenil
-Centro de Educação Física e Artes Marciais
-Distribuição gratuita de Móveis 
-Assistência Médica gratuita
-Centro Pediátrico
-Cooperativa de Alimentos
-Oficina Teatral
-Cooperativa para Construção Civil
-Centro de Pesquisa da Anemia
-Programa de Visitação de Enfermeiros
-Programa Empregatício

 
Epílogo
 
A indumentária e a postura eram exclusivas, jamais vistas antes, mas seus ideais não eram muito diferentes de outras lideranças negras. De qualquer forma, é impressionante a quantidade de atividades sociais realizadas pelos Panteras Negras, sem muitos recursos financeiros e sendo caçados pelo governo. Com toda certeza, foram durante pouco mais de uma década um exemplo heróico de organização comunitária, que cresceu e quase se tornou (e digo isso sem exagero) uma terceira opção para os que eram esquecidos por republicanos e democratas. No seu auge a organização chegou a ter 48 células de atuação, distribuídas entre as grandes cidades americanas, totalizando aproximadamente 5.000 integrantes.

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