segunda-feira, 22 de maio de 2017

O rato pariu uma montanha





Extra, 22/05/17




O rato pariu uma montanha



Por Felipe Pena



Tem que manter isso aí, viu?

São onze horas da noite e um presidente da república está comprando o silêncio de um ex-deputado. O encontro acontece no porão do palácio, após o interlocutor ultrapassar a cancela de segurança usando um nome falso como senha. O interlocutor é um dos maiores empresários do país e carrega um gravador no bolso.

Tem que manter isso aí, viu?

O empresário informa ao presidente que faz pagamentos mensais ao ex-deputado e a um doleiro responsável por suas operações financeiras, ambos presos em uma carceragem de Curitiba. Também conta que comprou dois juízes e conseguiu infiltrar um procurador na equipe do ministério público que o investiga.

Ótimo! – responde o presidente.

O empresário precisa resolver pendências junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica, onde trava batalha contra uma estatal sobre o preço do gás que é fornecido à sua empresa. Está disposto a pagar 5% de propina. Pergunta quem pode ajudá-lo. O presidente indica um deputado cujo gabinete funciona no Palácio do Planalto.

Posso falar tudo com ele? – pergunta o empresário.

Pode. Ele é da minha estrita confiança. – responde o presidente.

O empresário deixa o palácio após conversar 36 minutos com o presidente. O gravador registra o começo e o fim do diálogo marcando o horário da rádio CBN. Não há cortes, não há edições.

Joesley Batista, dono do grupo JBS, sabe o poder do material que tem nas mãos. Nos próximos dias, ele negociará o acordo de delação premiada que acabará com o governo golpista de Michel Temer. Também levará à lona o senador Aécio Neves, articulador dos primeiros movimentos do golpe, logo após perder as eleições presidenciais de 2014; e o deputado Rodrigo Rocha Loures, o tal homem da estrita confiança do presidente.

Agentes da polícia federal seguirão o deputado pelas ruas de São Paulo, onde ele receberá uma mala com 500 mil reais de propina cujas notas estão marcadas. Rocha Loures será filmado durante o trajeto.

Outra equipe seguirá o primo de Aécio Neves, Frederico Medeiros, que também recebe 500 mil reais. O senador tem um motivo claro para a escolha de Frederico: "tem que ser um que a gente mata eles antes dele fazer delação".

Frederico continua vivo.

A carreira de Aécio vira pó.

No dia 17 de maio de 2017, às sete e meia da noite, o jornalista Lauro Jardim revela toda a história. Faz exatamente um ano que Temer demitiu o copeiro do Palácio do Planalto, José da Silva Catalão. Agora é o próprio Michel que assina o aviso prévio.

Na cadeia, o ex-deputado Eduardo Cunha olha para a imagem de Temer na TV e lembra-se da frase de Danton quando ia para guilhotina: "O que me consola, Robespierre, é que atrás de mim virá você".

No dia seguinte, 18 de maio, o presidente convoca a imprensa para dizer que não vai renunciar. Inconscientemente, repete o gesto de Richard Nixon, quatro décadas antes. Está nervoso, tenso. Não contesta as informações, apenas parte para o ataque.

Ao ouvir a gravação, Temer minimiza seu conteúdo e diz que a montanha pariu um rato. Mas parece o contrário.

O rato pariu a montanha. E é uma imensa montanha de crimes.

O Sindicato dos Jornalistas de MG decreta o dia 18 de maio como "dia da liberdade de imprensa em Minas Gerais" por causa da prisão da irmã de Aécio, Andréa Neves, que perseguiu diversos profissionais durante os governos da famiglia no estado. Frederico, o primo, também é preso. O senador é suspenso do cargo.

Vejo isentões e coxinhas envergonhados em todos os lugares. Fotos de artistas e jogadores de futebol ao lado de Aécio desaparecem das redes sociais. Lembro-me dos motivos que os levaram às ruas para pedir o golpe.

Nunca foi pela corrupção.

Foi ódio de classe mesmo. Com pitadas de misoginia.

As pedaladas serviram apenas como pretexto para derrubar Dilma. Nunca serviram para condenar Temer, que fez o mesmo. Talvez porque a presidenta fosse vista constantemente numa bicicleta e Temer nunca tenha andado em outro veículo que não fosse um carro importado.



Mas agora é diferente. O crime existe e foi gravado. Os ratos começam a abandonar a montanha. Leio o 'Discurso sobre a servidão voluntária', de Étienne La Boétie, escrito na primeira metade do século XVI. O jovem Étienne diz que o tirano só governa porque há pessoas que aceitam ser governadas por ele, mas quando esta obediência voluntária cessa, cessa também o poder do tirano.

Os coxinhas se cansaram do tirano.

Não tenho a mesma certeza sobre Sérgio Moro.

Nos três anos em que a operação lava jato foi comandada por Moro e a república de Curitiba, nenhum tucano foi atingido. E, entre os caciques do PMDB, apenas Eduardo Cunha foi preso. No final do ano passado, Cunha fez 21 perguntas a Michel Temer. Elas antecipariam em muitos meses a sua queda, mas Sérgio Moro barrou todas. O dono da JBS procurou o MP de Brasília porque talvez acreditasse que Moro, mais uma vez, blindaria Aécio e Temer. E, principalmente, não deixaria que o primo e a irmã do senador, que não têm foro privilegiado, fossem presos.

Na quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal julga o recurso do presidente para suspender o processo. Logo saberemos o que mudou no grande acordo nacional. Podemos apostar na queda do tirano que alterou o currículo do ensino médio por decreto, sem consulta à população? Podemos apostar na queda dos que defendem o neofascismo do projeto Escola Sem Partido? Podemos apostar no fim das contrarreformas que retiram direitos dos trabalhadores?

Sim e não.

O tirano cai, mas o golpe continua.

Este é o país que liberta um branco milionário condenado por corrupção e mantém preso um negro pobre condenado por porte ilegal de pinho sol.

Este é o país que usa uma projeção de PowerPoint como prova.

Este é o país do rato que pariu a montanha.

E só há uma maneira de escalar:

Diretas já!

Diretas!

Já!


*Jornalista e escritor. Doutor em Literatura pela PUC, com pós-doutorado pela Sorbonne, é autor de 15 livros.



"Para que as coisas permaneçam iguais, 
é preciso que tudo mude.”





Folha.com, 19/05/17



Devemos obedecer a um governo ilegítimo?



Por Vladimir Safatle



Devemos obedecer a um governo ilegítimo? Devemos aceitar ordens de quem, de forma explícita, se mostra capaz de servir-se do governo para impedir o funcionamento da Justiça ou para fazer passar leis que contrariam abertamente a vontade da maioria? Essas perguntas devem ser lembradas neste momento. Pois a adesão pontual do povo a seu governo não se dá devido à exigência da lei, mas devido à capacidade dos membros do governo de respeitarem a vontade geral.

Essa capacidade está definitivamente quebrada. Não. Na verdade, ela nunca existiu. Se quisermos ser mais precisos, devemos dizer que apenas se quebrou a última de todas as aparências. O desgoverno Temer não consegue nem sequer sustentar uma aparência de legitimidade. Cada dia a mais desse "governo" é uma afronta ao povo brasileiro. O que nos resta é a desobediência sistemática a todas as ações governamentais até que o "governo" caia.

Temer entrará para a história brasileira não apenas como o primeiro vice-presidente a ter conspirado abertamente contra sua própria presidenta até sua queda final. Ele será lembrado como o primeiro presidente a ser pego operando diretamente casos de tráfico de influência (o caso de seu antigo ministro da Cultura sendo obrigado a liberar uma licença para viabilizar o apartamento de Geddel Vieira) e de pagamento para silenciar presos.

Exatamente no mesmo momento em que esse senhor exigia do povo brasileiro "sacrifícios" ligados à destruição de condições mínimas de trabalho e garantia previdenciária ele pedia ao dono da Friboi que continuasse a dar mesada para presos ficarem calados. O mesmo que entregará o país com 14 milhões de desempregados e mais 3,6 milhões de pobres garantiu lucros recordes para os bancos brasileiros no último trimestre.

Agora, alguns acham que o Brasil deve seguir então "os procedimentos legais" e empossar o investigado Rodrigo Maia para que convoque uma eleição indireta para presidente.

De todos os disparates nesta República oligárquica, este seria o maior de todos. Em um momento como o atual, o país não deve recorrer a leis claramente inaceitáveis, ainda mais se levarmos em conta a situação em que vivemos. Afinal, como admitir que um presidente seja escolhido por um Congresso Nacional de indiciados e réus, fruto de um sistema incestuoso de relações entre casta política e empresariado que agora vem à tona?

Uma das bases da democracia é não submeter a soberania popular nem a decisões equivocadas feitas no passado, nem a instituições aberrantes. O povo não é prisioneiro dos erros do passado, mas sua vontade é sempre atual e soberana. Ele pode desfazer as leis que ele mesmo fez e destituir instituições que se mostram corrompidas.

Por essa razão, o único passo na direção correta seria a convocação extraordinária de eleições gerais, com a possibilidade de apresentação de candidaturas independentes, para que aqueles que não se sentem mais representados por partidos possam também ter presença política.

Que o Brasil entenda de um vez por todas: em situações de crise, não há outra coisa a fazer do que caminhar em direção ao grau zero da representação, convocar diretamente o povo e deixá-lo encontrar suas próprias soluções. Toda democracia é um "kratos" do "demos", ou seja, o exercício de uma força ("kratos") própria ao povo em assembleia. Essa é a única força que pode abrir novos horizontes neste momento.

Pois que não se enganem. Como já dissera anteriormente neste espaço, Temer não existe. Esse operador dos escaninhos do poder, acostumado à sombras e aos negócios escusos, sempre foi politicamente ninguém.

Quem governa efetivamente é uma junta financeira que procura reduzir o Estado brasileiro a mero instrumento de rentabilização de ativos da elite patrimonialista e rentista. A mesma junta que impõe ao país "reformas" que visam destruir até mesmo a possibilidade de se aposentar com uma renda minimamente digna. Ela tentará continuar no governo independentemente de quem seja o manobrista no Palácio do Planalto. Ela tentará o velho mote: "Tudo mudar para que nada mude". Mas, para isso, precisará deixar o povo afastado de toda decisão política.


*Professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo).

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Duas torres por um rei





Blog do Santayana, 18/05/17



O alvo final é Lula


Por Mauro Santayana



Aqueles que estão soltando foguetes que nos desculpem, mas não nos colocamos entre os que comemoram, efusivamente, as últimas notícias.

Moralmente e por uma questão de princípios, em defesa da democracia, quem está contra os casuísmos e arbitrariedades jurídico-investigativas da Operação Lava Jato no caso de Lula, tem que se manter contra eles também quando atingem o campo adversário.

Até mesmo porque partem, e fazem parte da estratégia, de quem tem apenas um interesse: o seu próprio lado.

Não vemos como solução para o país um impeachment de Temer, a ser conduzido pela figura nefasta da Janaína Paschoal, que já defende essa hipótese para aparecer nos jornais, nem a convocação de eleições indiretas para a Presidência da República para as quais a mídia já especula, significativamente, citando o nome de Sérgio Moro, se "magistrado poderá ser candidato".

Isso, em um processo a ser conduzido por um congresso majoritariamente golpista, em grande parte também investigado por uma operação cuja autoridade máxima é o próprio "chefe" da República de Curitiba.

A ideia de uma nova campanha pelas Diretas Já é correta, do ponto de vista da lógica democrática.

Mas se formosobjetivos e pragmáticos, considerando a atual situação política, retira tempo precioso da oposição, que poderia ser utilizado, caso as eleições se fizessem normalmente em 2018, para que Lula se recuperasse e refizesse - aproveitando a crescente impopularidade do governo Temer e denunciando e esclarecendo as mentiras de que tem sido alvo - sua relação com a opinião pública e seu caminho para a Presidência da República.

Uma eleição agora, mesmo que direta, pode jogar o poder no colo de Jair Bolsonaro, apoiado pela sensação de caos institucional, pela condição de não estar sendo processado pela Lava Jato, e, caso chegue ao segundo turno, como as pesquisas indicam, por uma aliança que abrangeria da extrema-direita a setores mais oportunistas do próprio PMDB e do PSDB, passando pelo "centro" fisiológico dos partidos nanicos conservadores, unida pelo objetivo comum de evitar, a qualquer custo, que o PT e sua "jararaca" voltem à Presidência da República. 

Finalmente, a leitura mais correta é de que os principais alvos das mais recentes manobras da "justiça" não sejam nem Temer nem Aécio, por mais implacáveis que sejam, contra ele, os juízes e procuradores. 

As acusações contra os dois foram forjadas - já que se tratam claramente de arapucas propositadamente montadas - como forma de abrir caminho, definitivamente, para a condenação de Lula. 

A percepção da população de que a Justiça e o Ministério Público estavam sendo totalmente seletivos e parciais no trato dos gregos com relação aos troianos vinha crescendo a olhos vistos nas últimas semanas, e aumentava, na mesma proporção, a popularidade e as intenções de voto do ex-presidente da República, especialmente depois de seu depoimento em Curitiba e da absurda proibição de funcionamento do seu instituto. 

Com as acusações contra Temer e Aécio, o anti-petismo entrega duas torres para capturar e eliminar o Rei que odeia e persegue, sem êxito, há tanto tempo. 

A partir de agora, ninguém pode mais dizer que a Operação Lava Jato só atinge o PT, enquanto afaga seus adversários. 

E Lula poderá então, ser condenado "exemplarmente" por Moro, aproveitando-se o caos político que tomará conta do país nas próximas semanas, sendo definitivamente impedido de voltar por via eleitoral ao Palácio do Planalto, tanto agora, em eventuais "Diretas Já", como em 2018.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Dono da JBS grava Temer dando aval para comprar silêncio de Eduardo Cunha



https://oglobo.globo.com/brasil/dono-da-jbs-grava-temer-dando-aval-para-compra-de-silencio-de-cunha-21353935



​O Globo.com, 17/05/17

Dono da JBS grava Temer dando aval para compra de silêncio de Cunha



Por Lauro Jardim




RIO — Na tarde de quarta-feira passada, Joesley Batista e o seu irmão Wesley entraram apressados no Supremo Tribunal Federal (STF) e seguiram direto para o gabinete do ministro Edson Fachin. Os donos da JBS, a maior produtora de proteína animal do planeta, estavam acompanhados de mais cinco pessoas, todas da empresa. Foram lá para o ato final de uma bomba atômica que explodirá sobre o país — a delação premiada que fizeram, com poder de destruição igual ou maior que a da Odebrecht. Diante de Fachin, a quem cabe homologar a delação, os sete presentes ao encontro confirmaram: tudo o que contaram à Procuradoria-Geral da República (PGR) em abril foi por livre e espontânea vontade, sem coação.

É uma delação como jamais foi feita na Lava-Jato: Nela, o presidente Michel Temer foi gravado em um diálogo embaraçoso. Diante de Joesley, Temer indicou o deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) para resolver um assunto da J&F (holding que controla a JBS). Posteriormente, Rocha Loures foi filmado recebendo uma mala com R$ 500 mil enviados por Joesley. Temer também ouviu do empresário que estava dando a Eduardo Cunha e ao operador Lúcio Funaro uma mesada na prisão para ficarem calados. Diante da informação, Temer incentivou: "Tem que manter isso, viu?".

Em nota, Temer disse que "jamais" solicitou pagamentos para obter o silêncio de Cunha e negou ter participado ou autorizado "qualquer movimento" para evitar delação do correligionário.

A assessoria do deputado Rodrigo Rocha Loures informou que ele que vai "esclarecer os fatos divulgados" sobre a delação.


Aécio Neves foi gravado pedindo R$ 2 milhões a Joesley. O dinheiro foi entregue a um primo do presidente do PSDB, numa cena devidamente filmada pela Polícia Federal. A PF rastreou o caminho dos reais. Descobriu que eles foram depositados numa empresa do senador Zeze Perrella (PSDB-MG).

Joesley relatou também que Guido Mantega era o seu contato com o PT. Era com o ex-ministro da Fazenda de Lula e Dilma Rousseff que o dinheiro de propina era negociado para ser distribuído aos petistas e aliados. Mantega também operava os interesses da JBS no BNDES.

Joesley revelou também que pagou R$ 5 milhões para Eduardo Cunha após sua prisão, valor referente a um saldo de propina que o peemedebista tinha com ele. Disse ainda que devia R$ 20 milhões pela tramitação de lei sobre a desoneração tributária do setor de frango.

Pela primeira vez na Lava-Jato foram feitas "ações controladas", num total de sete. Ou seja, um meio de obtenção de prova em flagrante, mas em que a ação da polícia é adiada para o momento mais oportuno para a investigação. Significa que os diálogos e as entregas de malas (ou mochilas) com dinheiro foram filmadas pela PF. As cédulas tinham seus números de série informados aos procuradores. Como se fosse pouco, as malas ou mochilas estavam com chips para que se pudesse rastrear o caminho dos reais. Nessas ações controladas foram distribuídos cerca de R$ 3 milhões em propinas carimbadas durante todo o mês de abril.

Se a delação da Odebrecht foi negociada durante dez meses e a da OAS se arrasta por mais de um ano, a da JBS foi feita em tempo recorde. No final de março, se iniciaram as conversas. Os depoimentos começaram em abril e na primeira semana de maio já haviam terminado. As tratativas foram feitas pelo diretor jurídico da JBS, Francisco Assis e Silva. Num caso único, aliás, Assis e Silva acabou virando também delator. Nunca antes na história das colaborações um negociador virara delator.

A velocidade supersônica para que a PGR tenha topado a delação tem uma explicação cristalina. O que a turma da JBS (Joesley sobretudo) tinha nas mãos era algo nunca visto pelos procuradores: conversas comprometedoras gravadas pelo próprio Joesley com Temer e Aécio — além de todo um histórico de propinas distribuídas a políticos nos últimos dez anos. Em duas oportunidades em março, o dono da JBS conversou com o presidente e com o senador tucano levando um gravador escondido — arma que já se revelara certeira sob o bolso do paletó de Sérgio Machado, delator que inaugurou a leva de áudios comprometedores. Ressalte-se que essas conversas, delicadas em qualquer época, ocorreram no período mais agudo da Lava-Jato. Nem que fosse por medo, é de se perguntar: como alguém ainda tinha coragem de tratar desses assuntos de forma tão descarada?

Para que as conversas não vazassem, a PGR adotou um procedimento incomum. Joesley, por exemplo, entrava na garagem da sede da procuradoria dirigindo o próprio carro e subia para a sala de depoimentos sem ser identificado. Assim como os outros delatores.
Ao mesmo tempo em que delatava no Brasil, a JBS contratou o escritório de advocacia Trench, Rossi e Watanabe para tentar um acordo de leniência com o Departamento de Justiça dos EUA (DoJ). Fechá-lo é fundamental para o futuro do grupo dos irmãos Batista. A JBS tem 56 fábricas nos EUA, onde lidera o mercado de suínos, frangos e o de bovinos. Precisa também fazer um IPO (abertura de capital) da JBS Foods na Bolsa de Nova York.

Pelo que foi homologado por Fachin, os sete delatores não serão presos e nem usarão tornozeleiras eletrônicas. Será paga uma multa de R$ 225 milhões para livrá-los das operações Greenfield e Lava-Jato que investigam a JBS há dois anos. Essa conta pode aumentar quando (e se) a leniência com o DoJ for assinada.

(Colaborou Guilherme Amado)


Análise do jornalista Luis Nassif

As verdadeiras causas do último ciberataque global: militarismo e ganância





The Intercept, 17/05/17


As verdadeiras causas do último ciberataque global: militarismo e ganância



Por Sam Biddle



Na sexta-feira, uma espécie devastadora de malware contaminou computadores com Windows. O vírus continuou a se disseminar durante o fim de semana, deixando centenas de milhares de dispositivos praticamente inutilizáveis. A grande surpresa da história é que o vírus deve sua existência a hackers do governo norte-americano que trabalham na Agência de Segurança Nacional (NSA). Mas a caça às bruxas não termina aí – e nem deveria.

Agora que o vírus, que ficou conhecido como WannaCry, foi barrado, temos tempo de sobra para discutir e apontar mais culpados, além dos hackers anônimos que usaram códigos roubados da NSA para criar o vírus e de quem quer que tenha decidido transformá-lo num ransonware, um tipo de malware que sequestra dados do computador e cobra dinheiro pelo resgate.

A Microsoft não está nem preocupada em medir palavras. Em um comunicado mais audacioso e franco que o normal, o presidente Brad Smith acusou diretamente a NSA não só de criar e “armazenar” as falhas que viabilizaram o WannaCry, mas também de perder totalmente o controle sobre elas, como um Frankenstein cibernético:

“Ações como essa estão se tornando padrão em 2017. Já vimos vulnerabilidades identificadas pela CIA aparecendo no Wikileaks. Agora, uma falha que estava sendo armazenada pela NSA afetou consumidores do mundo inteiro. Brechas de segurança descobertas por órgãos do governo vazaram para o domínio público, causando danos em larga escala. Para fazer um paralelo com armas convencionais, é como se roubassem mísseis Tomahawk do Exército americano. O ataque mais recente sugere ainda um elo desconcertante, mesmo que involuntário, entre os dois tipos mais graves de ameaça à segurança digital: as ameaças que partem de um país e as que partem do crime organizado.

Quando a NSA (ou a CIA, ou o FBI) detecta uma falha em um software e decide usá-la em benefício próprio sob total sigilo, empresas como a Microsoft obviamente não ficam sabendo. Do contrário, elas poderiam lançar uma atualização para manter seus clientes seguros. [Há quem considere isso uma coisa boa e necessária, há quem ache o contrário. Essas opiniões têm muito a ver com a forma como cada um enxerga a NSA: a agência prioriza demais seu potencial ofensivo em detrimento da privacidade e da segurança de cidadãos americanos e das pessoas em geral?]

A decisão de segurar ou divulgar a descoberta de uma falha é determinada por um procedimento chamado Vulnerabilities Equity Process (VEP), cujos princípios são bem pouco conhecidos. A função do VEP é pesar, de um lado, as vantagens do sigilo e, de outro, os potenciais riscos para o resto do mundo.

Quando a NSA adiciona ao seu arsenal de ataques uma falha do tipo “dia zero”, até então desconhecida, e não notifica o desenvolvedor do software, qualquer cibercriminoso que consiga descobri-la sozinho estará livre para explorar essa brecha na segurança como bem entender – às vezes, por anos a fio. Em muitos casos, as coisas até acontecem dentro do planejado pela NSA, mas o fato é que essa política de armazenamento de falhas prioriza o potencial ofensivo das áreas militar e de inteligência em detrimento da segurança digital de… bem, literalmente, do resto do mundo – e isso, claro, é bastante polêmico.

Só que, de acordo com a Microsoft, as coisas não têm saído conforme planejadas e o pessoal que guarda os segredos tem tido muita dificuldade em manter suas armas cibernéticas longe dos Shadow Brokers, Wikileaks e companhia. O argumento de Smith é válido e contundente: seja por conta de vazamentos internos ou de invasores externos, alguns dos melhores instrumentos de combate de duas das melhores agências secretas do mundo foram não só revelados como usados como armas contra hospitais britânicos, universidades chinesas e até contra a FedEx. O deputado Ted Lieu, um dos raros membros do Legislativo com algum conhecimento em ciência da computação, considera o WannaCry como uma oportunidade para reformular o VEP em prol de uma maior transparência: “Atualmente, o VEP não é transparente. Muito pouca gente entende como o governo toma decisões tão delicadas”, afirmou o deputado democrata da Califórnia num comunicado divulgado no dia em o WannaCry assolou o mundo. “O ataque global de hoje mostra o que acontece quando a NSA ou a CIA preferem desenvolver malware em vez de alertar o fabricante do software”.

A NSA não criou o WannaCry. O que a agência fez foi descobrir falhas em várias versões do Windows e, a partir disso, desenvolver programas para que agentes norte-americanos pudessem invadir computadores que rodassem o Windows. Um desses programas, batizado de ETERNALBLUE, foi adulterado por hackers ainda não identificados, permitindo que o WannaCry se espalhasse de maneira rápida e incontrolável. Você pode ou não achar que a NSA tem algum tipo de responsabilidade moral nisso tudo, mas o que é certo é que sem o trabalho da agência, não existiria ETERNALBLUE; e sem ETERNALBLUE, não existiria a crise do WannaCry de maio de 2017. Desse ponto de vista, a Microsoft está certa – mas não para por aí.

A Microsoft também não criou o WannaCry. Mas criou algo quase tão ruim quanto: o Windows Vista, um sistema operacional tão inchado, defeituoso e irritante que muitos usuários pararam de vez de atualizá-lo, optando por manter o antigo Windows XP. Até hoje, muita gente continua usando o sistema desenvolvido uma década e meia atrás, para o qual a Microsoft não oferece mais atualizações.

A Microsoft respondeu às primeiras notícias sobre o vazamento do ETERNALBLUE dizendo que o Windows já estava protegido contra esse tipo de ameaça graças a um patch, um programa para consertar imperfeições de um software. Mas a empresa esqueceu de mencionar que os usuários do XP ficaram de fora. Continuar a usar um sistema operacional após a data de expiração é imprudente – mas, para ser justo com milhões de pessoas que ainda utilizam versões antigas do Windows, esperar que os consumidores comprem periodicamente um software caro e de qualidade duvidosa também é. Só recentemente que a Microsoft começou a dar uma melhorada no Vista (e no confuso Windows 8).

Os defensores da NSA sempre se apressam em culpar os donos dos computadores e os administradores de sistema por não manterem o software atualizado. Mas não costumam apontar o dedo para a Microsoft por escrever códigos poucos seguros, alienar clientes com sistemas operacionais fajutos e obsolescência planejada ou abandonar os muitos consumidores que ainda usam sistemas antigos. [Por sinal, o fato de a Microsoft ter lançado um patch específico para Windows XP no fim de semana do ataque WannaCry prova que é totalmente possível manter seguros os antigos softwares] É importante frisar que deixar as versões mais antigas do Windows num estado de permanente insegurança é uma estratégia de negócios e uma decisão de engenharia, uma opção por abandonar os clientes à própria sorte quando algo como o WannaCry surge. Para grandes organizações com grandes responsabilidades, como hospitais ou usinas, atualizar o Windows não é só uma questão de esperar a barra completar 100%. É um emaranhado aterrorizante de problemas de compatibilidade, hardware altamente especializado e softwares terceirizados. Manter uma rede de computadores no Windows XP pode até ser negligência, mas não tanto quanto perder uma arma cibernética ou abandonar clientes à própria sorte com seus computadores funcionando razoavelmente bem.

Claro que a NSA quer atuar em total sigilo, sem compromisso com mais nada ou mais ninguém – esse é o trabalho deles. E claro que a Microsoft quer continuar a vender versões sucessivas de Windows de tantos em tantos anos, esquecendo pouco a pouco as tentativas anteriores – é o trabalho deles, também. Mas esses dois propósitos (o sigilo militar absoluto e a maximização do lucro no mercado de softwares) criam um ambiente favorável à propagação de fenômenos como o WannaCry, que derrubam hospitais e estações de trem.


Tradução: Carla Camargo Fanha

terça-feira, 16 de maio de 2017

Um ano de Mendonça Filho à frente do MEC





Jornal GGN, 16/05/17



Um ano de Mendonça Filho à frente do MEC



Por Sérgio Miguel Buarque




Quer captar a essência de como foram os primeiros doze meses da atual gestão do MEC e como ela pretende conduzir os rumos da educação no Brasil? Quem topar o desafio não precisa ir muito longe. Para isso, basta analisar uma portaria e um decreto publicados no final do mês passado e a nota oficial divulgada logo em seguida pelo órgão para justificar as medidas tomadas. Muitos dos elementos que caracterizam e norteiam a atuação do ministro Mendonça Filho à frente do Ministério da Educação estão, uns mais outros menos, explicitados nas três peças. Mas vamos por partes.

No dia 26 de abril, o Diário Oficial da União editou um decreto convocando a 3ª Conferência Nacional de Educação (Conae). A Conae, para que não está familiarizado com o assunto, é (ou deveria ser) um espaço democrático aberto pelo Poder Público e articulado com a sociedade para que todos possam participar do desenvolvimento da Educação Nacional, debatendo propostas que vão desde a educação infantil até a pós-graduação.

O problema é que o texto publicado no dia 26 de abril, de aparência meramente burocrática, revogava um decreto anterior com a mesma finalidade e alterava deliberações colegiadas tomadas pelo Pleno do Fórum Nacional de Educação (FNE). Na prática, foram retiradas atribuições que antes eram do FNE, ou seja, de entidades representativas da sociedade civil, e repassadas para Secretaria-Executiva do Ministério da Educação.

Além disso, o calendário das várias etapas da Conae também foi alterado, com as conferências municipais agora previstas para o segundo semestre de 2017 e as estaduais e distrital para até o segundo semestre de 2018, sem previsão e dotação orçamentária para a nacional.

No dia seguinte, em outra decisão unilateral, o ministro Mendonça Filho publicou a Portaria nº 577 de 27 de abril de 2017. Em sete artigos, o texto altera significativamente a composição do Fórum Nacional de Educação, excluindo entidades representativas de segmentos como o campo, a pesquisa em educação e o ensino superior. Em contrapartida, a Portaria nº 577 aumentou a participação de representantes do empresariado e de entidades afinadas ou mesmo controladas pelo governo.

Como era de se esperar, várias entidades ligadas à educação se posicionaram contrárias à portaria. Em uma nota de repúdio, assinada por 21 delas, Mendonça Filho foi acusado de agir de “forma autoritária e centralizada, tomando para si a responsabilidade de ‘arbitrar’ quem entra e quem sai do FNE, passando por cima dos regulamentos e procedimentos que dispõem sobre ingresso de entidades, sob a exclusiva avaliação do Colegiado do Pleno do FNE”.
O Ministério da Educação, questionado sobre as mudanças na Conae e no FNE, também respondeu através de uma nota oficial. No texto (veja aqui a nota na íntegra), o MEC diz que o FNE e a Conae estavam “sendo usado como propósito político-partidário”. Segundo a nota, “com essas medidas, o MEC traz à luz a importância do debate técnico, plural e democrático para a Educação evitando que discussões político-partidárias interferiram na política educacional do país”.

Tanto no caso da convocação da Conae quanto nas mudanças feitas na composição do FNE ou mesmo na nota oficial, ficam evidenciadas pelo menos cinco das principais características da atual gestão do MEC:
  • Tomada de decisões de forma unilateral (sem a participação do conjunto das entidades do FNE);
  • Transferência de poder, cada vez maior, das entidades representativas para o ministério;
  • Maior influência do empresariado;
  • Supervalorização do debate técnico, sugerindo que ele só pode ser travado por gestores do MEC e que qualquer discussão fora do corpo técnico do ministério é “partidária” (leia-se, do PT);
  • Incorporação do discurso da “Escola sem partido”.

Resgatamos outros quatro episódios simbólicos para retratar os doze meses de Mendonça Filho à frente do MEC e o modelo de educação que o governo Temer, mesmo sem o respaldo das urnas, quer implantar no Brasil.


Episódio I: Para o MEC, homofobia não é preconceito

No dia 6 de abril de 2017, uma notícia passou praticamente invisível pelo noticiário da mídia tradicional. Naquele dia, o Ministério da Educação entregava ao Conselho Nacional de Educação (CNE) o documento da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). No texto, foi retirada a parte que dizia que os estudantes teriam de respeitar a orientação sexual dos demais.

No mesmo documento, o MEC também suprimiu a palavra “gênero” em alguns trechos.
O portal ‘The Intercept’, que teve acesso ao documento antes e depois da retirada dos trechos, publicou reportagem explicando detalhadamente as mudanças feitas pelo MEC:

Episódio II: O fim do Ciências sem Fronteiras

Abril de 2017 começou com o ministro da Educação, Mendonça Filho, anunciando o fim do Ciência sem Fronteiras. Para o ministro, o programa que concede bolsas para alunos de graduação e pós-graduação realizarem um período do curso no exterior, não obteve o resultado esperado nos últimos anos.

O programa foi criado pela presidenta Dilma Rousseff em 2011. Desde então, beneficiou 73,3 mil estudantes de graduação. Vale ressaltar, que deste total, 26,4% são negros e um quarto deles são de famílias com renda mensal de até três salários mínimos. Os dados mostram ainda que mais da metade dos beneficiados pelo Ciência sem Fronteiras vêm de famílias com renda de até seis salários mínimos por mês. Os números, não levados em conta pelo MEC, mostram que com o fim do Ciência sem Fronteiras quem mais irá perder são os mais pobres e vulneráveis.

Episódio III: A reforma do ensino médio

Na noite de 8 de fevereiro o Senado aprovou a reforma do ensino médio, que havia sido enviada pelo governo federal ao Congresso Nacional, quatro meses antes, através de Medida Provisória. A reforma defendida por Mendonça Filho apresenta um conjunto de novas diretrizes para o ensino médio. Algumas delas bem polêmicas como, por exemplo, a permissão para que professores sem diploma específico possam dar aulas no ensino técnico e profissional.

A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) divulgaram um manifesto contra a MP do Ensino Médio. O documento repudia a iniciativa do governo federal de promover, por meio de medida provisória, uma reforma sem debate ou consulta à sociedade.

Episódio IV : Mendonça recebe Alexandre Frota

Neste episódio, ocorrido no dia 25 de maio de 2016, portanto 13 dias após a posse de Mendonça Filho, a imagem vale mais do que as palavras. Só para contextualizar, na foto estão o ator Alexandre Frota e o ex-pastor Marcello Reis, fundador dos “Revoltados Online”. Ambos foram ao MEC defender as propostas do projeto “Escola sem partido”, buscando evitar a “doutrinação ou assédio ideológico” nos estudantes.

Um ano depois, analisando os rumos tomados pelo Ministério da Educação, a inusitada reunião continua fazendo sentido.

Blá-blá-rina, a imperdoável




Brasil 247, 16/05/17

 

Os tropeços imperdoáveis de Marina



Por Guilherme Coutinho



Marina Silva tem uma biografia digna dos grandes líderes políticos. A acreana, filha de um seringueiro e de uma dona de casa, conheceu de perto a pobreza, trabalhou como doméstica e foi alfabetizada apenas aos 16 anos. Foi eleita Senadora, nomeada Ministra de Lula e foi candidata à Presidência. No entanto, Marina tem cometido um grave erro: fala quando deveria se calar e se cala quando deveria se pronunciar. Se omitiu sobre Mariana, mas declarou apoio público ao impeachment e às reformas de Temer. Não há história que sobreviva com um final tão melancólico.

Marina militou ao lado de Chico Mendes e foi candidata pelo PT ao seu lado em 1986. Ela sempre fez questão de adotar a causa ambiental como seu principal lema político. No entanto, quando o rompimento da barragem em Mariana/MG causou danos irreversíveis à natureza e à população local, sendo o maior desastre ambiental da história, Marina emitiu um silêncio ensurdecedor. Só se pronunciou após sofrer muita pressão da mídia e de seus eleitores. Marina não podia militar contra a Samarco pois devia estar muito ocupada cuidando de seu partido recém-criado. Ironicamente, um partido ambientalista.

Foi atuando justamente como líder do Rede Sustentabilidade, que Marina cometeu um de seus mais decepcionantes discursos. Ela defendeu que seu partido votasse a favor da deposição de Dilma Rousseff. Grave, muito grave. Como pode Marina discursar sobre uma nova política, se aliando ao que há de pior e mais retrógrado nela? Marina foi apenas mais uma que defendeu, publicamente, o rompimento da ordem democrática e um golpe no Brasil.

Após um discurso tão contundente, era de se esperar que Marina passasse por um tempo de incubação. Desaparecesse. Marina não foi vista criticando o governo que ajudou a chegar ao poder, nem os casos de corrupção do PSDB. Marina saiu da toca, pasmem, para defender as reformas trabalhista e previdenciária de Temer. O que a Marina, ainda adolescente, trabalhadora braçal, ou, anos mais tarde, quando foi uma das fundadoras da CUT no Acre, pensaria dessas declarações? Teria Marina decepcionado a si mesma?

Marina já foi candidata a cargos públicos por ao menos três partidos: PT, PV e PSB. Hoje é Persona non grata nas três agremiações. Tentará novamente chegar ao cargo mais alto da República nas próximas eleições, dessa vez por um partido que ela mesma fundou. Seu lema é romper com o modelo atual e fazer o que ela denomina de "nova política". Mas essa política está desgastada demais para ser original. Infelizmente, foi a própria Marina que nos mostrou isso.