segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A Síria é aqui

http://midiacoletiva.org/1825-2/


Mídia Coletiva, 30/11/2015


Os terroristas vestem fardas


Por Rafael Daguerre




No última sábado (28/11), policiais militares (do 41º BPM) fuzilaram o carro de cinco jovens negros que voltavam do Parque de Madureira no Morro da Lagartixa, no Complexo da Pedreira, em Costa Barros. Segundo moradores do bairro que chegaram logo após a chacina, os policiais militares tentaram forjar um auto de resistência, impedindo inclusive o socorro às vítimas pelas pessoas que se encontravam no local. “Eles alteraram a cena do crime, pegaram a chave do carro da mão do motorista morto, colocaram lá dentro uma pistola para dizer que aqueles jovens eram bandidos”, disse um morador.

Os amigos de infância Roberto de Souza, 16 anos, Carlos Eduardo da Silva Souza, 16, Cleiton Corrêa de Souza, 18, Wesley Castro, 20, e Wilton Esteves Domingos Junior, 20, são as novas vítimas de mais essa chacina policial.

Os policiais que executaram os jovens foram presos em flagrante – por fraude processual e homicídio doloso – graças a população local que rapidamente denunciou a chacina, tanto pela internet, em redes sociais, com fotos e vídeos, como testemunhando na 39º Delegacia da Pavuna.

Os assassinos são: Thiago Resende Miranda, Márcio Darcy Alves dos Santos, Antônio Carlos Gonçalves e também Fábio Pizza de Oliveira da Silva, este último preso apenas por ter alterado a cena do crime.

“ […] Eles foram comemorar o primeiro salário que um deles tinha recebido, quando soubemos dos tiros, corremos para o local, quando cheguei lá meu sobrinho ainda estava agonizando, tentei socorrer e fui impedida por esses monstros”, relatou a tia de uma das vítimas.

É importante esclarecer o papel da polícia e o que significa mais essa chacina: que não é a primeira e nem será a última. A polícia é uma ferramenta do Estado (classe dominante) para o controle social e defesa da propriedade privada. Que cumpre seu papel de controle social através da aplicação sistemática do terror – terrorismo de Estado – contra a população pobre e negra. A execução de jovens negros em favelas e periferias é parte do cotidiano. Não o contrário. Portanto, não é despreparo ou mero desvio de conduta. A polícia é preparada para matar e reprimir pobre.

Auto de resistência é licença para matar

Outro ponto a se destacar: é mais um caso que por pouco não se enquadrou em auto de resistência. Prática usual da polícia política da época da ditadura e que nunca acabou nas favelas e periferias são as execuções sumárias que se “transformam” em auto de resistência, que na verdade é licença para matar.

[…] “Então liguei a lanterna do telefone e reconheci as vítimas, cai em lágrimas! Inclusive um eu vi criança correndo e pulando comprando doces na venda da esquina.” Morador.

Pai de uma das vítimas, Carlos Henrique do Carmo Souza disse que o filho Carlos Eduardo da Silva Souza tinha acabado de concluir um curso de Petróleo e Gás e se preparava para tentar concurso para a Marinha.Eles chegaram a levantar os braços para fora e gritaram que eram moradores, mas não teve jeito“, inconformado.

Há 18 dias, ele teve outro familiar ferido vítima da violência. “Minha enteada estava na porta de casa brincando quando foi baleada na perna. Ela só tem oito anos e está com a bala alojada na perna. Minha esposa ficou desesperada. Agora isso com meu filho“, disse Carlos, visivelmente emocionado.

Para o padrasto de Cleiton, Jorge Vieira, de 61 anos, os policiais não deram chance aos rapazes sequer de se identificar. “Nossos filhos vinham do Parque de Madureira e esses policiais não deram chance deles se defenderem. Não tenho nem palavras para falar. Minha mulher está em estado de choque“, afirmou. Cleiton estava trabalhando em um lava-jato com os outros dois irmãos.

Foi uma execução! Mataram o meu filho e todos os colegas que estavam com ele. Eu fui ao Parque Madureira com os meninos e passei pelo local dez minutos antes, e pouco depois os policiais fazem uma desgraça dessa“, disse aos prantos, o estudante de direito Jorge Roberto Lima da Penha, pai de Roberto de Souza Penha.

Outros dois irmãos de Wesley e Wilton, que estavam em uma motocicleta acompanhando o carro dos amigos, conseguiram escapar dos tiros, mas caíram e se feriram levemente. Eles informaram as famílias.
Não há saída dentro da burocracia e das instituições do próprio Estado. Denunciar a polícia para a própria polícia não resolverá. Nunca resolveu. Exemplos não faltam: a chacina de Vigário Geral (1993) os policiais continuam livres, a chacina da Maré (2013) os policiais do BOPE sequer foram julgados e tantas outras chacinas policiais. O Estado não julgará a si próprio. O povo precisa cada vez mais se organizar e encontrar suas próprias ferramentas de autodefesa contra esse Estado terrorista.

Vídeo de morador: 
os policiais executaram os cinco jovens e tentaram forjar auto de resistência.
  
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​O rosto do Rio de Janeiro hoje é o de Jorge, pai de Roberto


http://oglobo.globo.com/rio/jovens-assassinados-por-pms-sao-enterrados-no-mesmo-cemiterio-18180436


​OGlobo.com, ​30/11/2015


Jovens assassinados por PMs são enterrados no mesmo cemitério


Por Carina Bacelar


​RIO - ‘A dor é muito grande. Nenhuma mãe do Brasil nem do mundo merece passar pelo que estou passando hoje. A gente tem que ser forte para lutar pelos que estão ficando. O sonho do meu filho foi interrompido.”

A frase da mãe de Wesley Castro, Rosileia Castro Rodrigues, foi dita com dificuldade, encharcada por um choro incontido que comovia a todos.

Era o fim trágico da história de uma turma de amigos que se conheciam desde pequenos. Wesley, de 25 anos, Wilton Esteves Domingos Júnior, de 20, Cleiton Corrêa de Souza, de 18, Carlos Eduardo da Silva Souza e Roberto de Souza, ambos de 16, foram criados na Favela da Lagartixa, em Costa Barros. No sábado à noite, quatro policiais militares do 41º BPM (Irajá) executaram os cinco jovens com mais de 50 tiros, disparados contra o carro onde estavam as vítimas. Eles costumavam dividir as lajes e os campos de futebol da comunidade. Dividiram a própria morte, quando comemoravam o primeiro salário de Roberto em um novo emprego. Nesta segunda-feira, suas vidas, que apenas começavam, acabaram em covas do mesmo cemitério, em Irajá.

Protestos, lágrimas e desespero marcaram o enterro. As mães das vítimas passaram mal, precisaram ser amparadas para aguentar o cortejo até o fim. Nem a dor, nem a indignação podiam ser aplacadas.

Abraçada à Bandeira nacional, a mãe de Cleiton, Mônica Aparecida Santana, tinha no rosto a expressão da dor e falava sobre sonhos destroçados.
— Quando eles botaram a mão fora do carro, foram metralhados. Foram cinco sonhos destruídos — repetia, quase sem forças.

Amigos exibiam placas. Cinco com os nomes das vítimas. Uma outra para chamar a atenção para o que vem acontecendo em Costa Barros, um grito de socorro: “A Síria é aqui”.

A mãe de Wilton, Márcia Ferreira Oliveira, fazia questão de contar como o filho era trabalhador. O Palio branco crivado de balas, que era dirigido pelo rapaz, fora herdado do pai, morto há um ano e três meses por problemas de saúde. Mas, antes, Wilton já havia comprado uma moto com dinheiro que juntara ajudando o velho a cuidar de uma pensão da família, em Fazenda Botafogo. Cada tostão era colocado num pote, até que, aos 18 anos, o jovem conseguiu a quantia para se dar de presente a motocicleta.

Meu filho estava terminando (um curso técnico) de administração e contabilidade. Mês que vem, ia tirar o diploma. Bandido faz curso? Eu pagava com o meu sacrifício — disse Márcia.

Wilton se considerava irmão de Wesley. Márcia teve um relacionamento com o pai dele, o pedreiro Júlio César (que pediu que o sobrenome não fosse publicado). Foi com Júlio que Wesley começou a trabalhar, há mais ou menos um mês, como servente de uma obra em Petrópolis. Viajava na segunda-feira para trabalhar e só voltava na sexta. Sobrava pouco tempo até para o filho, de 2 anos, fruto de uma relação com uma ex-namorada. O jovem criava o menino com a ajuda da mãe, Rosileia, em Duque de Caxias.

Outra vítima, Carlos Eduardo, apesar de ter apenas 16 anos, cuidava da irmã caçula, de 5 anos — era para ele que ela corria quando aconteciam os tiroteios na comunidade, cada vez mais frequentes. Carlos sonhava em fazer curso de inglês, mas, segundo os professores da Escola Estadual Jornalista Rodolfo Fernandes, na Pavuna, já se destacava em português.

Cleiton, aos 18 anos, sonhava em ser marinheiro e se alistaria em janeiro. Enquanto isso, prestava serviços como auxiliar de entregas em caminhões. Dividia a atenção da mãe com mais seis irmãos. Morava com quatro deles na comunidade da Lagartixa.

Já Roberto, também de 16 anos, morava sozinho com o pai, Jorge Roberto Penha. Desde a morte do filho, ele não dorme. Acha que vai encontrá-lo ao computador, um dos vícios do menino. O grupo assassinado saíra justamente para comemorar o primeiro salário de Roberto como funcionário de um mercado por atacado:

— Não estou mais aguentando. Não tenho mais vida, perdi tudo. Não tenho mais esperança em nada. Eu quero que seja feita uma investigação rigorosa — disse Jorge Roberto.

domingo, 29 de novembro de 2015

Ao PT só resta temer o próprio medo

http://cartamaior.com.br/?/Editorial/Ao-PT-so-resta-temer-o-proprio-medo/35068



Carta Maior, 29/11/15




Ao PT só resta temer o próprio medo

Por Saul Leblon




O PT não pode mais assistir ao seu próprio funeral acuado nas amarras da prostração e da perplexidade.

Forças que querem destruí-lo tem tido sucesso nesse intento, graças a um estratagema ardiloso.

Em nome dos erros do partido –que não são poucos— mira-se a desqualificação de suas virtudes e bandeiras


Uma resume todas as demais.

O PT ressuscitou a agenda da justiça social como motor e finalidade do desenvolvimento econômico, em contraposição ao exclusivismo mercadista atribuído às metas de inflação (leia-se juros reais elevados); ao superávit fiscal (leia-se arrocho e estado mínimo) e ao câmbio livre (leia-se, livre mobilidade dos capitais).
 

O partido não trocou uma coisa pela outra: trouxe o antagonismo capitalista para dentro do aparelho de Estado e tentou mediá-lo nos últimos 12 anos.

É esse o ciclo que agora se despede em ruidosa transição.

A dificuldade de se renovar na travessia - e assim reagir ao massacre que o desnorteia - reside menos na incapacidade de enxergar tropeços e equívocos pregressos, do que no fato de que o PT se tornou uma réplica do sistema político que precisa combater para ressuscitar. 

O sistema político brasileiro exige muito pouco dos quadros partidários em termos de identidade programática e coerência de princípios.

Mas premia a densidade dos vínculos com interesses tão ecumênicos quanto os que o poder do dinheiro consegue estabelecer na sociedade.

A naturalidade com o que o senador Delcídio Amaral  transitou nas últimas duas décadas da esfera do PMDB para a filiação ao PSDB e deste para o PT, sem mudar de referências políticas, nem abdicar do seu repertório ecumênico de apoios, é exemplar desse paradoxo.

Sua abrupta derrocada, após flagrante em gravações comprometedoras, reitera a distorção que está despedaçando a democracia e desmoralizando seu espectro partidário – mas sobretudo o PT, pelas razões sabidas.

Delcídio foi diretor de gás e energia da Petrobrás no governo Fernando Henrique, indicado pelo PMDB; filiou-se em seguida ao PSDB onde permaneceu até 2001; por conveniências regionais saltou então para o PT, que lhe facultou a vaga para eleger-se senador da República pelo Mato Grosso, em 2002.

Nesse vaivém de década e meia, manteve-se fiel a um mesmo círculo de interesses integrado entre outros pelos atuais delatores da Lava Jato, Paulo Roberto Costa e Nestor Cerveró.

Não teria sido muito diferente se ainda estivesse no PSDB, ou no PMDB.

É justamente essa indiferenciação que está matando a credibilidade na política como ferramenta de construção do país e do seu desenvolvimento.

Ela impede que a sociedade disponha de alternativas claras e confiáveis para tirar a economia da espiral descendente em que se encontra, empurrada pelo esgotamento de um ciclo de expansão.

O PT, pelas razões que só o juiz Moro pode explicar, foi o elo da corrente escolhido para arrebentar em meio a à geleia geral.

E está sendo arrebentado.

O episódio Delcídio aperta o cerco em torno de uma sigla que encontra dificuldade crescente para atuar em três frentes distintas mantendo algum grau convincente de coerência: 1) resistir à caçada conservadora que age por tentativa e erro na determinação de desossar o partido até alcançar a cabeça de sua principal liderança; 2) defender um governo embarcado numa trajetória recessiva que estreita a margem de manobra social do partido e agrava a crise política; 3) reinventar seu espaço e sua mensagem na disputa pelo poder nas eleições municipais de 2016 e nas presidenciais, em 2018.

A determinação de manter um rigoroso regime de autocrítica caso a caso diante do cerco policial-midiático promovido contra o partido tampouco tem se mostrado eficaz.

A solidariedade negada pela direção do PT ao senador Delcídio, por exemplo, gerou protestos de um pedaço da bancada, que acusou o comando petista de levar água ao moinho que tritura os ossos da sigla.

A  luta pela sobrevivência parece ter atingido aquele grau em que medidas incrementais de resgate da coerência e da identidade já não fazem mais efeito diante do tempo que encurta e do cerco que não cede.

A verdade é que todo o sistema partidário brasileiro  funciona hoje como um biombo do poder econômico que através do financiamento de campanha encabrestou direções, abastardou programas, manietou governos e semeou um arquipélago de fidelidades e acordos espúrios, unilaterais às siglas, que despedaçam sem coesão interna.

A desenvolta atuação de bastidores do banqueiro André Esteves, dono do Pactual, com sugestiva fortuna de US$ 3 bilhões aos 43 anos de idade, ilustra a matéria-prima de que é feita essa retaguarda, onde raízes podres e sadias se entrelaçam.

O dono do Pactual  pagou a viagem de núpcias do amigo Aécio Neves. E prometeu ser tão generoso quanto com a família do delator  Nestor Cerveró – em troca da omissão ao nome do banco na delação premiada do ex-dirigente da Petrobrás.

Da reciprocidade combinada com Aécio não há relatos, tampouco investigações, embora seja presumível.

Estamos diante de uma captura. 

Uma captura do sistema político que reflete a determinação mais geral e conhecida de sequestrar todas as instâncias e recursos do aparelho de Estado para servir a interesses que enxergam em figuras como a de André Esteves e assemelhados não apenas a validação do mito do ‘empresário matador’.

Mas o altar da proficiência capitalista, diante do qual as instituições e a sociedade devem inquestionável subordinação.

É essa a pegajosa narrativa martelada pelo jornalismo isento ao incensar figuras carimbadas como Eike, Agnelli (ex-Vale), Esteves, Staub e outros impolutos ícones, não raro flagrados em operações de sonegação e lavagem, como mostra a máfia do Carf.

A inexistência de uma verdadeira isonomia no sistema de comunicação para enfrentar a centralidade desse debate dificulta sobremaneira a tarefa do PT de contextualizar seus erros e repactuar os vínculos com a sociedade.

Transformar essa dificuldade em necrológio é o propósito dos interesses que não cessam de perfurar e purgar o metabolismo do partido para carimbar na sua pele - e na de suas maiores lideranças - a marca de principal responsável pelo derrocada da economia e da política.

O pesadelo se aproxima perigosamente da fronteira do real.

É cada vez mais palpável o sonho da direita brasileira de matar historicamente o impulso nascido desde as grandes greves operárias do ABC paulista, nos anos 70/80, e que simbolizou a bandeira da luta contra a desigualdade e a injustiça social até os nossos dias.

Cerca de 60 milhões de brasileiros tiveram acesso ao mercado interno e à cidadania graças a esse estirão.
 

Ele esburacou fortemente a receita secular que permitia às elites revezarem-se no poder, mantendo o povo espremido no acostamento, à espera de caronas que nunca vem.

Recapear esse percurso agora pavimentando uma ampla avenida de regressividade social e política é o motor que move o garrote no pescoço do PT.

Supor que esse enfrentamento poderia ter sido evitado por quem ousasse alterar a lógica do capitalismo brasileiro, é acreditar em fábulas.
 

Uma das mais deletérias é essa que hoje se  vende à sociedade na forma de um manual de boas maneiras a seguir para se obter um desenvolvimento elegante, transparente e equilibrado.

Leia a bula: primeiro, você investe em infraestrutura, então fomenta as exportações, depois, com receitas e contas equilibradas, calibra harmoniosamente a demanda com a oferta prevalecente.

Enquanto isso, a senzala hiberna serena, resignada como num postal de lago suíço.

Quanto tempo?

Os séculos que forem necessários.

Até que os avanços incrementais permitidos pelo mercado produzam a boa sociedade, ancorada na mobilidade das meritocracias perfeitas, tutelada pelos sábios dos mercados não menos virtuosos.

As coisas não acontecem exatamente assim no capitalismo.


No caso brasileiro, a pasta de dente escapou do tubo.

A emergência dos excluídos escancarou a incapacidade do sistema econômico e político para realizar a prometida ascensão disciplinada dos desfavorecidos.

Mãos açodadas tentam devolvê-la agora ao frasco, da forma que isso costuma ser feito nas república latino-americanas e com o fair play característico.

Inclua-se nessa determinação de ‘pôr ordem na casa’ jogar no lixo da história tudo e todos que contribuíram para o vazamento precoce e imprevidente.

É aí que entra o ingrediente crucial dedicado a desqualificar, sangra, picar e salgar em praça pública a ferramenta política que favoreceu a heresia: o PT.


Esse é o ponto em que estamos e nele as perguntas reverberam uma urgência de vida ou morte.

Um partido de trabalhadores consegue se despir dos vícios e desvios da política conservadora depois de passar pela experiência do poder no capitalismo?

Consegue sobreviver sem sucumbir aos limites e compromissos inerentes à correlação de forças desfavorável à qual se ajustou?

Pode recuperar o rumo sem o qual descansará sob a lápide dos sonhos perdidos?


Por mais que se martele o oposto, a tragédia do PT consiste justamente no fato de não se tratar aqui de um ‘bando’. Mas de um futuro em disputa.
 

Fosse o PT apenas aquilo que outras siglas se comprazem em personificar não haveria a tragédia.

Não se trata de dissimular decadência em retórica de heroísmo.

Mas de reafirmar que o PT  tem uma - e só uma - finalidade na história brasileira.

Servir de instrumento dos interesses sociais amplos, de cuja vértebra nasceu o impulso que agora  fraqueja.

Quando se mostrar incapaz de renovar esse pacto com a sua origem perderá o seu sentido histórico.


A busca de um chão firme para esse reatamento hoje é a questão crucial sobre a qual dirigentes, intelectuais e núcleos de base devem se debruçar febrilmente.

Com uma ideia  na cabeça uma certeza na ação: ao PT só resta temer o próprio medo de ir além dos limites que o sufocam.

Mais que isso.

É improvável que essa busca tenha êxito se ficar restrita aos limites de uma organização que, como se disse antes, tornou-se uma réplica do sistema político contra o qual terá que se reinventar.

Significa que a repactuação do PT com suas bases terá que nascer de um novo programa para um novo ciclo de lutas, que fatalmente exigirá uma nova estrutura: o partido será uma estaca em um conjunto formado por uma frente ampla de forças progressistas e democráticas da sociedade brasileira. 

Nenhuma prioridade é mais importante que esse reatamento feito de depuração, renovação e abertura desassombrada para fora e para dentro.

Na virada recente que culminou com a eleição de uma presidência de esquerda, o Partido Trabalhista inglês oxigenou sua estrutura liberando a inscrição de eleitores, militantes e não militantes, mediante pequena taxa.

A campanha de filiação eleitoral se enraizou nas periferias e trouxe a juventude pobre maciçamente de volta à política: o marxista Jeremy Corbyn foi eleito.

Não é uma tarefa para aqueles que hoje não se reconhecem devedores desse aggiornamento.

Quem não estiver disposto não conta mais como protagonista do partido.

Portas escancaradas servem para quem quiser entrar e quem quiser sair.

Haverá  turbulência. Mas se for dada uma chance ao ar fresco, ele encontrará o caminho para transformar o medo em esperança e a prostração em luta pela democracia social brasileira.

Delcídio para nós


http://www1.folha.uol.com.br/colunas/janiodefreitas/2015/11/1712497-delcidio-para-nos.shtml



Folha.com, 29/11/15


Delcídio para nós


Por Janio de Freitas



As dúvidas sobre a propriedade da prisão de Delcídio do Amaral, decretada por cinco ministros do Supremo Tribunal Federal, vão perdurar por muito tempo. Assim como a convicção, bastante difundida, de que a decisão se impôs menos por fundamento jurídico e equilíbrio do que por indignação e ressentimento com a crença exposta pelo senador, citando nomes, na flexibilidade decisória de alguns ministros daquele tribunal, se bem conversados por políticos.

Às dúvidas suscitadas desde os primeiros momentos, estando o ato do parlamentar fora dos casos de prisão permitida pela Constituição, continuam tendo acréscimos. O mais recente: Delcídio planejou a obstrução judicial que fundamentou a prisão, mas não a consumou. E entre a pretensão ou tentativa do crime e o crime consumado, a Justiça reconhece a diferença, com diferente tratamento.

A sonhadora reunião de Delcídio até apressou a delação premiada de Nestor Cerveró, buscada sem êxito pela Lava Jato há mais de ano. Ali ficou evidente que seu advogado Edgar Ribeiro estava contra a delação premiada. Isso decidiu o ex-diretor da Petrobras, temeroso, a encerrar aceitá-la, enfim.

Em contraposição às dúvidas sem solução, Delcídio suscitou também temas e expectativas que tocam a preocupação ou a curiosidade de grande parte da população. Sabe-se, por exemplo, que Fernando Soares, o Baiano, ao fim de um ano depositado em uma prisão da Lava Jato, cedeu à delação premiada. O mais esperado, desde de sua prisão, era o que diria sobre Eduardo Cunha e negócios com ele, havendo já informações sobre a divisão, entre os dois, de milhões de dólares provenientes de negócios impostos à Petrobras.

Informado dos depoimentos de Baiano, eis um dos comentários que o senador faz a respeito: ele "segurou para o Eduardo". Há menções feitas por Baiano que não foram levadas adiante pela escassa curiosidade dos interrogadores. Caso, por exemplo, de um outro intermediário de negociatas citado por Baiano só como Jorge, sem que fossem cobradas mais informações sobre o personagem e seus feitos. Mas saber tudo o que há de verdade ou de fantasia em torno do presidente da Câmara é, neste momento, uma necessidade institucional e um direito de todo cidadão.
Se Fernando Baiano "segurou para Eduardo Cunha", a delação e os respectivos prêmios - a liberdade e a preservação de bens - não coincidem com o que interessa às instituições democráticas e à opinião pública. E não se entende que seja assim.

Entre outras delações castigadas de Delcídio, um caso esquisito. Investigadores suíços confirmaram, lá por seu lado, que Nestor Cerveró tinha dinheiro na Suíça. Procedente de suborno feito pela francesa Alstom, na compra de turbinas quando ele trabalhava com Delcídio, então diretor Gás e Energia da Petrobras em 1999-2001, governo Fernando Henrique. A delação do multipremiado Paulo Roberto Costa incluiu o relato desse suborno. Mas a Lava Jato não se dedicou a investigá-lo e o procurador-geral da República o arquivou, há oito meses. Os promotores suíços foram em frente.

Na reunião da fuga, Delcídio soube com surpresa, por Bernardo, que Cerveró entregara o dinheiro do suborno ao governo suíço, em troca de não ser processado lá. É claro que a Lava Jato e o procurador-geral da República estiveram informados da transação. E contribuíram pela passividade. Mas o dinheiro era brasileiro. Era da Petrobras. Foi dela que saiu sob a forma de sobrepreço ou de gasto forçado. Não podia ser doado, fazer parte de acordo algum. Tinha que ser repatriado e devolvido ao cofre legítimo.
 
A Procuradoria Geral da República deve o esclarecimento à opinião pública, se fez repatriar o dinheiro do suborno ou por que não o fez. E, em qualquer caso, por que não investigou para valer esse caso. Foi ato criminoso e os envolvidos estão impunes. Com a suspeita de que o próprio Delcídio seja um deles, como já dito à Lava Jato sem consequência até hoje.

Mas não tenhamos esperanças. Estamos no Brasil e, pior, porque a ministra Cármen Lúcia, no seu discurso de magistrada ferida, terminou com este brado cívico: "Criminosos não passarão!" [toc-toc-toc, esconjuro] Foi o brado eterno de La Passionaria em Madri, que não tardou a ser pisoteada pelos fascistas de Franco. De lá para cá, em matéria de ziquizira, só se lhe compara aquele [ai, valei-me, Senhor] "o povo unido jamais será vencido", campeão universal de derrotas.

Entrevista do Presidente Putin à jornalista norteamericano

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sábado, 28 de novembro de 2015

De quem é a culpa pelos infortúnios de Delcídio, segundo a mulher dele




28/11/2015
 

Mulher de Delcídio alerta: “Eu avisei”

Por Vera Guimarães


​Na noite da prisão de Delcídio, sua mulher, Maika, ligou aos berros para um amigo da família. Descontrolada, vociferava: “Eu avisei aquele fdp. Ele devia ter saído do PT há muito tempo”. E completou,  se referindo a Dilma: “A culpa de tudo é daquela fdp”.





DCM, 28/11/2015



De quem é a culpa pelos infortúnios de Delcídio, segundo a mulher dele



Por Paulo Nogueira



Quero me inteirar sobre o caso Delcídio e digito seu nome no Twitter.

Chego logo a uma nota fabulosa, escrita pela nova titular da coluna Radar, da Veja, a ex-Folha Vera Magalhães.

No mundo do jornalismo de nossos dias, não configura conflito de interesses Vera ser casada com um assessor de Aécio.

Bem, Vera reproduz uma frase atribuída à mulher de Delcídio, Maika.

Segundo Vera, num telefonema Maika revelou de quem é a culpa pelos infortúnios do marido.

É de Dilma, aquela fdp, diz a nota.

Quer dizer: a culpa não é de seu marido, com seu comportamento indecente. Nem é dela mesma, que viu Delcídio gastar dinheiro em proporções épicas, incompatíveis com um homem que deveria viver do salário de senador da República.

Publicamos no DCM, neste sábado, o relato de um cronista social de Campo Grande sobre a festa de debutante de uma filha de Delcídio, em 2011.

Um trecho:

A noite ficará marcada na memória social de Campo Grande e de Mato Grosso do Sul. Não apenas pela natural suntuosidade que sugeria a atmosfera, mas pela singular energia que emanava em cada pedacinho da festa. Parecia mágica. Num estonteante vestido, na parte de cima, inteiro em Cristais Givenchy, com saia em tufos de tule dourado com pastilha de paetês, confeccionado por Júnior Santaella especialmente para ela, Maria Eugênia parecia flutuar.


​Estava em casa, envolvida pela família, recebendo as amigas exatamente do modo como havia imaginado. À irmã, Maria Eduarda, foi entregue a missão de construir o espetáculo da alegria. Ao longo de um mês, a mansão vinha se transformando para ser um espaço dourado de 1,6 mil metros, inteiramente coberto em teto transparente, onde frondosas árvores naturais surgiam iluminadas na lateral do espaço.

Os grandes filósofos do passado coincidiam em dizer que, diante da miséria humana, é mais sábio rir do que chorar.

Riamos, então.

Maika organizou a festa, e sabe quanto foi gasto nela. Ela sabe também qual é o salário de senador do marido.

Mas não: não ocorreu a ela que havia uma fonte misteriosa de dinheiro para bancar a vida faustosa da família.

Ela lembra, neste caso, Claudia Cruz. Claudia levou uma vida de princesa europeia sem, aparentemente, se perguntar como não faltava dinheiro sequer para aulas de tênis numa das academias mais caras do mundo, a de Nick Bolletieri, nos Estados Unidos. Ali foram revelados jogadores como Agassi e Sharapova.

Milton Friedman, o grande economista conservador, disse celebremente que não existe almoço grátis. Alguém sempre paga a conta.

Mas para as mulheres de alguns políticos brasileiros é como se a vida em pleno fausto fosse gratuita.

Maika poderia talvez ter evitado os problemas que seu marido enfrenta hoje se fosse mais rigorosa com as contas domésticas.

Mas não.

Ela não tem culpa, de acordo com a nota de Vera Magalhães.

E nem seu marido.

A culpa, claro, é de Dilma, aquela fdp.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Mídia norte-americana: órgãos de propaganda ou agências de notícias?

http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Midia/Tudo-e-lindo-na-politica-externa-norte-americana/12/35067



Carta Maior, 27/11/2015


Tudo é lindo na política externa norte-americana

 

Por Dave Lindorff - CounterPunch


Seria a mídia corporativa norte-americana notadamente composta por órgãos de propaganda ou agências de notícias?

Aqui estão alguns pontos a se considerar e, então, o leitor pode decidir. Confira algumas perguntas abaixo e verifique como a mídia corporativa dos EUA geralmente produz suas respostas:

1. Se o Estado Islâmico ou a Al Qaeda deliberadamente atacam civis, como no recente episódio em Paris, indiscriminadamente matando dezenas de pessoas, seria isso terrorismo?

Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: Sim


2. Se os EUA deliberadamente atacam civis, como no caso do hospital dos Médicos Sem Fronteiras em Kunduz, Afeganistão, matando indiscriminadamente dezenas de pessoas, seria isso terrorismo?

Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: não


3. Se o governo chinês assume o controle de uma ilha minúscula, reivindicada por outra nação, e ali instala uma base militar, seria esse um exemplo de agressão, uma violação do direito internacional e uma provocação?

Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: Sim


4. Se o governo dos EUA assume o controle e, em seguida, se recusa a renunciar uma porção de uma minúscula ilha, propriedade de outro país, neste caso Cuba, e ali instala uma base militar (como tem feito já por décadas, no caso da Baía de Guantánamo) seria esse um exemplo de agressão, uma violação do direito internacional e uma provocação?

Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: não


5. Se a líder de um partido que ganha a eleição nacional, mas anuncia que, na verdade, é ela que tomara todas as decisões importantes para o governo recém eleito, como Suu Ky anunciou que fará em Mianmar, seria esse um exemplo de comportamento antidemocrático ou de caudilhismo?

Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: Não

6. Se um país estrangeiro coloca mísseis apontados para outra nação no território de um país adjacente ao país-destino, como fez a URSS em Cuba, seria essa uma ameaça para o país de destino, no caso os EUA?

Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: Sim


7. Se os EUA colocam mísseis na Polônia apontados pra Rússia, como fizeram, ou colocam armamento nuclear na Alemanha, também tendo a Rússia como alvo, o que foi feito, seriam essas ameaças para a Rússia?

Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: não


8. Se o Irã proporciona assistência militar aos rebeldes de um país vizinho como Iêmen e tal grupo, os Houthis, com sucesso derrubam um autocrata do poder, seria isso subversão?

Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: Sim


9: Se os EUA financiam organizações dentro de outro país que organizam protestos, marchas e atentados sangrentos que, finalmente, derrubam o governo eleito, como os EUA fizeram na Ucrânia, seria isso subversão?

Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: não


10. Se o Irã, signatário do Tratado de não Proliferação Nuclear, pretende desenvolver capacidade de refino do urânio-235, o que um dia poderia ser usado para fabricar armamento nuclear, mas concorda com inspeções e supervisão internacional, seria essa uma grave ameaça à estabilidade regional no Oriente Médio e à paz mundial?

Resposta objetiva: não, já que existe outra poderosa nação com armamento nuclear no Oriente Médio, com a capacidade de obliterar totalmente o Irã — ou seja, Israel.
Resposta da mídia: Sim

11: Se Israel, que nunca assinou o Tratado de não Proliferação, se recusa a permitir inspeções em suas instalações nucleares, é conhecido por ter centenas de armas nucleares, bem como os aviões e mísseis para enviá-los a qualquer lugar, seria essa uma grave ameaça à estabilidade regional no Oriente Médio e à paz mundial?

Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: não


12: Se uma pessoa revela, por dinheiro, a uma potência estrangeira, o funcionamento interno do sistema de interceptação de sinais da Agência de Segurança Nacional (NSA), bem como as identidades de centenas de agentes da inteligência secreta dos EUA, como fez o espião israelense Jonathan Pollard, seria ele um inimigo dos Estados Unidos?

Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: não


13. Se uma pessoa revela, em ato de princípio e enquanto denunciante, sem compensação financeira, a espionagem ilegal e inconstitucional contra cidadãos americanos da NSA, como fez Edward Snowden, agora exilado, seria ele um inimigo dos Estados Unidos que deve, portanto, ser castigado?

Resposta objetiva: não
Resposta da mídia dos EUA: Sim


14. Se terroristas pró-Estado Islâmico em Paris disparam contra feridos, vítimas de seus atentados de terror, seria esse um exemplo da barbárie e um crime digno da condenação de todo o mundo?

Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: Sim


15: Se vídeos mostram as forças de defesa israelenses atirando na cabeça de um palestino, ferido e deitado na rua, seria esse é um exemplo de barbárie e um crime de guerra digno da condenação de todo o mundo?

Resposta objetiva: Sim
Resposta de mídia dos EUA: Não (não foi sequer noticiado)


Evidentemente que essa lista poderia continuar, mas as evidências tornam óbvio e incontestável que a grande mídia corporativa dos EUA trabalha em sintonia, essencialmente apoiando a política externa dos EUA e apresentando um determinado mundo para público norte-americano, de forma muito distorcida e pró-governo.

Porque isso acontece, uma vez que essas agências de notícias são, majoritariamente, não diretamente financiadas ou controladas pelo governo, como são em países onde se espera que a mídia seja arma de propaganda, é uma história complicada, que vem há muito tempo sendo explicada claramente por especialistas como Noam Chomsky e Edward Herman.

Independente da lermos sobre o assunto, a realidade é clara para qualquer um que preste a mínima atenção: a mídia dos EUA, particularmente quando trata de assuntos externos, mas também quando trata de assuntos como a inteligência e a espionagem doméstica, não pode ter nossa confiança por apresentar a verdade, nem algo que minimamente se aproxime da verdade.
Gostaria de salientar aqui que evidências sólidas em torno desse desrespeito intencional a verdade por parte da mídia corporativa podem ser encontradas aqui em nossa própria e humilde organização de pequenas notícias, ThisCantBeHappening!. Nos últimos quatro anos, nós denunciamos:

* O papel da CIA em orquestrar o caos sectário e terrorista no Paquistão

* O papel central da justiça e da inteligência norte-americanas na coordenação do esmagamento brutal do movimento Occupy nas cidades por todo os EUA.

* O conhecimento prévio e total falta de preocupação ou ação do FBI sobre os planos bem documentados em Houston que tratavam dos grupos conhecidos e não identificados que conspiravam para assassinar líderes do movimento Occupy por meio de "rifles de longo alcance". (O FBI enviou memorandos sobre esta trama para escritórios regionais do FBI e pro quartel-general, mas nunca agiu para impedi-la e nunca prendeu qualquer um dos envolvidos na trama).

* A administração Obama deliberadamente escondendo provas forenses dos médicos legistas turcos que mostravam que membros da força de defesa de Israel executaram brutalmente Furkan Dogan [5], um garoto americano de 19 anos a bordo da embarcação humanitária em Gaza, Mavi Marmara, e não fizeram nada para punir os assassinos.
 

* O assassinato, pelas mãos de um agente do FBI, de um jovem imigrante checheno, Ibragim Todashev, na Flórida, que havia sido interrogado por tal agente e por um policial de Boston em seu próprio apartamento (Todashev pode ter tido provas de que o FBI tinha trabalhado com os irmãos Tsarnaev antes da explosão da maratona de Boston). Série em três partes: perguntas obscuras 1, perguntas obscuras 2 e perguntas obscuras 3.

(Essas e outras histórias, que foram relatadas e publicadas, e que foram amplamente cobertas pelos meios de comunicação alternativos, não foram nem ao menos mencionadas pela mídia corporativa dos EUA. Assim como a maioria dos importantes comunicados são ignorados sem qualquer aviso pela imprensa corporativa. Tais informações, portanto, não chegam a grande parte da população americana que obtém suas informações inteiramente através das fontes corporativas tradicionais.


Tradução por Allan Brum

Como se produz um terrorista

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2015/11/1711458-como-se-produz-um-atentado.shtml



Folha.com, 27/11/2015


Como se produz um terrorista

 

Por Vladimir Safatle




Muito já foi dito a respeito dos terríveis atentados em Paris, mas talvez ainda seja necessário insistir em uma questão que alguns lutam com todas as forças para distorcer: "Como chegamos até aqui?". Pois estamos tão envenenados por teorias rocambolescas de choques de civilização, tão anestesiados pelo medo como motor de coesão social e como força de justificativa para delírios militaristas que ficamos paralisados diante da exigência urgente de reconstruir a sequência de nossos passos até o abismo.
 
Para produzir uma aberração como o Estado Islâmico é preciso um verdadeiro sistema de erros e cegueiras reiterados por anos a fio. É claro que, nessas horas, aparecem os trombeteiros do Apocalipse de sempre, com seus preconceitos rasos a respeito do mundo árabe e de uma religião que eles sequer conhecem. Com suas explicações que mais parecem saídas da era medieval das Cruzadas, e fazem de tudo para não deixar ver como o "arcaísmo" é algo que se constrói a ferro e fogo no presente.

Vejam, por exemplo, a história de Hasna Ait Boulahcen. Francesa "de origem árabe", 26 anos, moradora da periferia pobre de Paris, ela, segundo seus amigos, "adorava festas, namorados e bebidas". Antes dos últimos seis meses, ela preferia chapéus de cowgirls a burcas. Da mesma forma, há até bem pouco tempo, ela não lera nenhuma linha do Corão. No entanto, Hasna participou dos atentados em Paris que mataram barbaramente 130 pessoas.

Ninguém precisa de PhD em psicologia social para compreender como sua conversão a membro de uma organização terrorista que leva o nome de uma religião nada tem a ver com arcaísmos ligados à pretensa resistência de modos de vida tradicionais aos nossos valores liberais. Ou seja, esses jovens urbanos europeus não abraçaram o Estado Islâmico por estarem enraizados em tradições refratárias e sistemas rígidos de hábitos. Ao contrário, eles procuravam arcaísmos exatamente porque não havia mais tradição alguma.
 
Eles adotaram uma tradição fabricada para expressar a violência contra promessas de modernização social que, para eles, não haviam dado a integração prometida. Há de se conhecer a periferia de onde vieram para perceber como a miséria, a falta de horizonte, as batidas policiais diárias, o racismo ordinário travestido de "luta pela defesa de nossos valores" rondam.
 
Presos em um vazio no qual não havia nem tradição nem modernidade, eles acharam uma organização que unia o espírito de gangues de delinquentes que conheciam bem, violência bruta e uma narrativa gloriosa que mistura bricolagens religiosas e redenções de um passado épico capaz de deixar para traz o sentimento de humilhação social. Alguns poderiam ver, com tal explicação, uma tentativa de vitimizar assassinos dementes. Melhor seria lembrar, como Hannah Arendt, que o caráter aterrador de nossa situação está no fato de não ser necessário ser monstro para produzir monstruosidades.

O Estado Islâmico conhece bem os afetos de pessoas como Hasna, seu ressentimento e humilhação, sabe muito bem como vampirizá-los. Afinal, ele é filho de outro vazio, este produzido pela catástrofe político-social resultante das invasões criminosas ao Afeganistão e ao Iraque. Mas o Estado francês e toda a camarilha de loucos por fronteiras, fortalezas, identidades e balas "de autodefesa" que aparecem nessas horas não querem saber de nada disso. Por isso, suas respostas foram todas as que o Estado Islâmico previu e pediu.
 
Quanto mais as respostas forem militares, com direito a repetir alianças coloniais, quanto mais o racismo, ou melhor, esse "conflito de valores que não é racismo", dá o tom dos debates, quanto mais se produzem amálgamas entre acolhimento de refugiados fugindo da destruição de seus países e laxismo com terroristas potenciais, mais o Estado Islâmico pode dizer aos jovens que procura vampirizar: "Vocês não têm lugar nessas sociedades, seu ressentimento justifica tudo".

Por isso, uma invasão militar no Oriente Médio para destruir o EI não significará absolutamente nada. Ninguém estará mais seguro, como ninguém ficou mais seguro depois que Bin Laden foi morto ou que o Afeganistão e o Iraque foram invadidos e destroçados. Depois da desestruturação da Al Qaeda veio algo pior. Depois da destruição do EI virá algo pior. O problema não é "destruir" o Estado Islâmico, mas parar de produzir aquilo que o alimenta, seja no Oriente Médio, seja na Europa.

No entanto, talvez todos esses "erros" cometidos pelos governos ocidentais não sejam um acaso: para eles, melhor do que a árdua tarefa da construção da segurança real é a gestão contínua da insegurança e do medo. Para certos governos, a melhor maneira de governar é gerindo a desordem e criando uma situação de guerra permanente.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

EUA têm mais negros na prisão hoje do que escravos no século XIX

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/30858/sem+tempo+para+sonhar+eua+tem+mais+negros+na+prisao+hoje+do+que+escravos+no+seculo+xix.shtml



Opera Mundi, 24/11/2015



EUA têm mais negros na prisão hoje do que escravos no século XIX


Redação



De acordo com sociólogos e especialistas em estudos das camadas populares na América do Norte, os índices sociais - que incluem emprego, saúde e educação - entre os afrodescendentes norte-americanos são os piores em 25 anos. Por exemplo, um homem negro que não concluiu os estudos tem mais chances de ir para prisão do que conseguir uma vaga no mercado de trabalho. Uma criança negra tem hoje menos chances de ser criada pelos seus pais que um filho de escravos no século XIX. E o dado mais assombroso: há mais negros na prisão atualmente do que escravos nos EUA em 1850, de acordo com estudo da socióloga da Universidade de Ohio, Michelle Alexander.

Negar a cidadania aos negros norte-americanos foi a marca da construção dos EUA. Centenas de anos mais tarde, ainda não temos uma democracia igualitária. Os argumentos e racionalizações que foram pregadas em apoio da exclusão racial e da discriminação em suas várias formas mudaram e evoluíram, mas o resultado se manteve praticamente o mesmo da época da escravidão”, argumenta Alexander em seu livro The New Jim Crow.
No dia em que médicos brasileiros chamaram médicos cubanos de “escravos”, a situação real, comprovada por estudos de institutos como o centro de pesquisas sociais da Universidade de Oxford e o African American Reference Sources, mostra que os EUA têm mais características que lembram uma senzala aos afrodescendentes que qualquer outro país do mundo.

Em entrevista a Opera Mundi, a professora Becky Pettit da Universidade de Washington e autora do livro “Invisible Men: Mass Incarceration and the Myth of Black Progress”, argumenta que os progressos sociais alcançados pelos negros nas últimas décadas são muito pequenos quando comparados à sociedade norte-americana como um todo. É a “estagnação social” que acaba trazendo as comparações com a época da escravidão.

“Quando Obama assumiu a Presidência, alguns jornalistas falaram em “sociedade pós-racial” com a ascensão do primeiro presidente negro. Veja bem, eles falaram na ocasião do sucesso profissional do presidente como exemplo que existem hoje mais afrodescendentes nas universidades e em melhores condições sociais. No entanto, esqueceram de dizer que a maioria esmagadora da população carcerária dos EUA é negra. Quando se realizam pesquisas sobre o aumento do número de jovens negros em melhores condições de vida se esquece que mais que dobrou o número de presos e mortos diariamente. Esses não entram na conta dos centros de pesquisas governamentais, promovendo o “mito do progresso entre nos negros”, argumenta.

Segundo Becky Pettit, não há desde o começo da década de 1990 aumento no índice de negros que conseguem concluir o ensino médio. Além disso, o padrão de vida também despencou. Além do aumento da pobreza, serviços básicos como alimentação, saúde, gasolina (utilidade considerada fundamental para os norte-americanos) e transportes público estão em preços inacessíveis para muitos negros de baixa renda. Mais de 70% dos moradores de rua são afrodescendentes.

Michelle Alexander, por sua vez, critica o sistema judiciário do país e a truculência que envia em massa às prisões os negros. “Em 2013, vimos o fechamento de centenas de escolas de ensino fundamental em bairros majoritariamente negros. Onde essas crianças vão estudar? É um círculo vicioso que promove a pobreza, distribui leis que criminalizam a pobreza e levam as comunidades de cor para prisão”, critica em entrevista ao jornal LA Progresive.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Wikileaks: Macri pediu que EUA fossem 'mais críticos' com Argentina




Opera Mundi, 23/11/2015
 

Wikileaks: Macri pediu que EUA fossem 'mais críticos' com Argentina



Por Vanessa Martina Silva | Buenos Aires
 



O hoje presidente eleito da Argentina, Mauricio Macri, teve conversas suas com a embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires vazadas em 2011. De acordo com o Wikileaks, o novo mandatário, que assume o comando do país em 10 de dezembro, se assumiu, em conversas ao longo de três anos, como abertamente "pró-mercado", se colocou como o mais próximo ao governo norte-americano, falou que o governo de Cristina Kirchner 'duraria mais 60 dias'  e pediu que os EUA fossem mais enfáticos em suas críticas à Argentina.
 
As informações a respeito do presidenciável foram compiladas pelo jornalista argentino Santiago O’Donnell, que recebeu, das mãos de Julian Assange, em 2011, um pendrive com centenas de documentos produzidos pela embaixada norte-americana em Buenos Aires sobre diversas figuras da política nacional. O material foi compilado no livro ArgenLeaks, publicado no país em 2011 (sem versão em português).

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2007: "Pró-mercado" e "pró-negócios"
 
Ainda em 2007, seis meses antes das eleições presidenciais que elegeriam Cristina Kirchner para seu primeiro mandato, Macri se apresentou diante da embaixadora norte-americana Vilma Socorro Martínez da seguinte forma: “somos o primeiro partido pró-mercado e pró-negócios que está pronto para assumir o poder em cerca de 80 anos de história argentina”. Na ocasião, em que o líder do PRO (Proposta Republicana) e o cônsul político da embaixada Mike Matera falavam sobre a conjuntura eleitoral, ele disse que era o candidato mais amigável ao governo norte-americano, à época comandado por George W. Bush (2001-2009).
 
O líder opositor ainda não tinha claro nesse momento se iria concorrer à presidência ou ao governo da cidade de Buenos Aires. Por fim, optou pela segunda opção.
 
Durante o encontro, Macri disse estar pronto para governar e que sua fundação 'Crer e Crescer' estava trabalhando junto com o Instituto Republicano dos Estados Unidos (e também com a fundação Konrad Adenauer da Alemanha) na formação de novas lideranças argentinas. Ainda na ocasião, o empresário do setor de construção e amigo de Macri, Nicolás Caputo, disse que os jovens da ONG estavam “um pouco ansiosos pelos vai e vens da política que não lhes permitia se concentrar no projeto de longo prazo”.
 
Apesar de se classificar como pró mercado, Macri criticou a política exterior do então presidente Néstor Kirchner. “A Argentina não está conseguindo os investimentos que precisa, especialmente no setor energético. [Néstor] Kirchner pensa que pode ir a Nova York, tocar a campainha na Bolsa do Comércio e dizer aos investidores: ‘antes não cumprimos nossas promessas, mas agora podem confiar em nós’. É preciso trabalhar muito para trazer os investidores de volta à Argentina”.
 
Ao fim do informe diplomático, Matera observou que Macri é o líder da oposição que “tem recursos suficientes e é suficientemente jovem para competir [com o kirchnerismo] no longo prazo”.


2008: "Governo Cristina dura mais 60 dias"
 
Em conversas em seu gabinete em 2008, Macri sinalizou que os argentinos ficariam satisfeitos se o governo kirchnerista caísse. Na mesma conversa, um assessor do prefeito portenho afirmou que a gestão de Cristina teria somente mais 60 dias de duração.
 
“Macri falou com franqueza sobre o atual governo dos Kirchner. Disse que os argentinos ficariam ‘contentes’ se os Kirchner caíssem (erguendo um copo d’água, disse: ‘se esse copo de água fosse os Kirchner, todos estariam brigando para derrubá-lo’)”, escreveu Carl Meacham, funcionário sênior do comitê de Relações Exteriores do Senado norte-americano.
 
À época, Macri ressaltou ainda que a principal sustentação do governo Kirchner era “o medo de que um colapso do governo pudesse trazer um retorno ao caos de 2001-2002, quando o país viveu o chamado corralito - congelamento dos depósitos bancários – calote da dívida e abandono do câmbio fixo. Como resultado, o país vivenciou um colapso na produção, altos níveis de desemprego e forte mobilização social. Nessa época, a Argentina teve cinco presidentes diferentes em apenas 10 dias.
 
Durante a conversa, Macri reclamou da postura do governo norte-americano, que, segundo ele, deveria aumentar o tom das críticas, e pediu “que os Estados Unidos voltassem a reconhecer a Argentina independentemente dos vizinhos, ao invés de agrupá-la ao lado de países como Bolívia, Equador e Venezuela”, diz o autor do informe.


2010: "Serra ganharia no Brasil"
 
“Como já havia feito no passado, Macri pressionou sobre o enfoque que dos Estados Unidos com relação aos Kirchner, insistindo em uma crítica mais aberta das medidas que consideramos pouco sábias”, relatou a embaixadora norte-americana Vilma Socorro Martínez após jantar com o prefeito de Buenos Aires, para na sequência ressaltar que “a embaixadora respondeu que continuaremos buscando uma relação de trabalho positiva com o governo da Argentina”.
 
No mesmo documento diplomático, consta que Macri discutira abertamente seus planos para se candidatar à presidência em 2011 – o que não chegou a fazer, optando pela reeleição ao governo da cidade de Buenos Aires.

Na ocasião, Macri considerou haver uma onda à direita na América Latina, após a vitória do conservador Sebastián Piñera no Chile. Para ele, José Serra venceria as eleições em 2010 no Brasil. “Macri crê que há uma tendência regional à direita, começando com a eleição de Sebastián Piñera no Chile. […] Macri acredita que José Serra ganhará a presidência no Brasil e ele espera seguir a tendência em 2011”, diz o informe.

Em outra avaliação, Macri ressaltou que a classe média já não apoiava o governo kirchnerista, disse ter mais votos que Cristina Kirchner e que “até aqueles da classe média baixa (a base política dos Kirchner) estão frustrados e fartos com o governo nacional. Na frente política havia um acordo do perigo que representavam os Kirchner, mas terão que aprender a trabalhar juntos para limitar o dano que eles podem fazer”. Sobre esse trecho, o jornalista O’Donnell ressalta que não está claro de quem é a opinião, se de Macri, ou da embaixadora, ou ainda dos dois.

 
Cristina venceu as eleições presidenciais em 2011 e encerra seu mandato em dezembro deste ano.
 
Consta ainda no documento que Macri teria solicitado ajuda dos Estados Unidos para treinar a polícia municipal, mas a ajuda não veio.


Outro lado
 
Em entrevista concedida em 2011 à rádio La Red, Macri admitiu ter manifestado críticas contra Néstor e Cristina Kirchner em encontros na embaixada dos Estados Unidos, tal como divulgado pelo Wikileaks, mas disse não lembrar de tais conversas por “fazer muito tempo”.
 
“Eu sempre fui muito crítico com o governo dos Kirchner, sempre senti que têm na política exterior um objetivo de fazer política interna, o que é o pior que alguém pode fazer”, afirmou na ocasião. E acrescentou: “a Argentina levando à política exterior a politicagem interna e fazendo shows midiáticos com a relação com outros países, o que consegue é se isolar”.
 
Já a embaixadora dos EUA no país afirmou, também à época, que as revelações do Wikileaks eram “um golpe contra os esforços de seu país de fortalecer as relações com a Argentina”. E ressaltou que levaria tempo “para se recuperar dos efeitos” das revelações.

domingo, 22 de novembro de 2015

O Brasil dos jatos e o Brasil da Lava-Jato

http://www.maurosantayana.com/2015/11/o-brasil-dos-jatos-e-o-brasil-da-lava.html


Blog do Santayana, 22/11/2015



O Brasil dos jatos e o Brasil da Lava-Jato

 

Por Mauro Santayana




Neste singular momento da vida nacional, o país está dividido, cada vez mais, em dois que parecem não compartilhar a mesma realidade ou o mesmo território.


Para o Brasil da Lava Jato, do impeachment, da mídia seletiva e conservadora, o que defende a volta da ditadura, a tortura e a quebra do Estado de Direito, este é um país podre, quebrado, mergulhado até o talo na corrupção, política e economicamente inviável até não poder mais. 


Para o Brasil dos jatos Gripen, cuja transferência de tecnologia a presidenta Dilma Rousseff foi negociar em outubro na Suécia, o Brasil da Força Aérea, da Aeronáutica, do Exército, da engenharia, da indústria bélica, da indústria pesada, da indústria naval, da indústria de energia, do petróleo e do gás, do agronegócio, da mineração, este é o país que, mesmo com todos os seus problemas, depois de anos e anos de abandono e estagnação, pagou a dívida com o FMI; voltou a pavimentar e a duplicar rodovias; retomou obras ferroviárias e hidroviárias; retomou a produção de navios e passou a fabricar plataformas de petróleo, armas, satélites, sistemas eólicos, mergulhando, na última década, em dos maiores programas de desenvolvimento de sua história.
Seria bom se o Brasil da Lava Jato se concentrasse em prender os corruptos, aqueles com milhões de dólares em contas na Suíça, e não em libertá-los – como está fazendo com o Sr. Paulo Roberto Costa, dispensado até mesmo de sua prisão domiciliar –, no lugar de manter aprisionados, arbitrariamente, quase que indefinidamente, dirigentes de partido sem nenhum sinal ou prova de enriquecimento ilícito e executivos de nossas maiores empresas.


A maioria delas ligada, direta ou indiretamente, a um amplo e diversificado programa de rearmamento e infraestrutura que engloba a construção de nossos novos submarinos convencionais e atômicos; de nossos novos (foto) caças Gripen NG BR; do nosso novo avião cargueiro militar multiuso KC-390 – a maior aeronave já fabricada no Brasil; de 1.050 novos tanques blindados Guarani; de nossos novos rifles de assalto IA-2; de nossos novos sistemas de mísseis de saturação e de cruzeiro, como o Astros 2020 e o AVTM-300 da Avibras – com alcance de 300 quilômetros; de nossos novos mísseis ar-ar como o A-Darter; de nossos novos radares como os Saber; de nossos novos e gigantescos complexos petroquímicos e refinarias de petróleo, como Abreu e Lima e Comperj; de nossas novas plataformas de petróleo com capacidade para produção de centenas de milhares de barris de óleo por dia; de nossas novas e gigantescas usinas hidrelétricas, como Jirau, Santo Antônio e Belo Monte – a terceira maior do mundo; de nossa nova frota de navios da Transpetro, do tipo Panamax, com capacidade de transporte de 650 mil barris de combustíveis cada um; de nossas novas embarcações de guerra, que voltamos até mesmo a exportar; de nossos novos satélites de comunicações; ou de portentosas obras de engenharia como a ponte sobre o Rio Negro, em Manaus, e a ponte Anita Garibaldi, em Laguna, Santa Catarina.


Esse é o Brasil da estratégia, do longo prazo, que a mídia conservadora nacional optou, há muito tempo, como fazem os ilusionistas das festas infantis, por esconder com uma mão, enquanto mostra como uma grande novidade, com a outra mão, o Brasil de uma “crise” e de uma “corrupção” seletiva e repetidamente exageradas e multiplicadas ao extremo.


Há um Brasil que deveria estar acima das disputas político-partidárias, que cabe preservar e defender. Quem quiser fazer oposição precisa, se quiser chegar ao poder, mostrar, com um tripé baseado no nacionalismo, na unidade, e no desenvolvimentismo, que estará comprometido com o prosseguimento desses programas, fundamentais para o futuro da Nação. Com todos os seus eventuais problemas, que podem ser solucionados sem dificuldades, eles conformam um projeto de Nação que não pode ser interrompido, cuja sabotagem e destruição só interessa aos nossos inimigos, muitos dos quais, do exterior, se regozijam com o atual quadro de fragmentação e esgarçamento da sociedade, antevendo o momento em que retomarão o controle de nosso destino e o de nossas riquezas.


Seria bom que o Brasil da Lava Jato – considerando-se os que comandam a operação homônima – trabalhasse com responsabilidade e cidadania em sua missão, separando o joio do trigo, prendendo quem tiver de prender, mas evitando, no lugar de incentivar, os danos colaterais para empresas e projetos estratégicos que empregam milhares de pessoas, nos quais já foram investidos bilhões e bilhões de dólares – protegendo e não arrasando, como já está ocorrendo, parte da indústria pesada e da engenharia nacionais.


Seria bom se o Brasil da Lava Jato – considerando-se os que torcem pela “operação” – tratasse a questão da corrupção sem partidarismo e seletividade, preparando-se para o pleito do próximo ano, já que não há melhor lugar do que uma urna para que o desejo e a determinação – e até mesmo a eventual indignação – de um povo livre, civilizado e democrático possam se manifestar.


Seria bom, muito bom, se o Brasil da Lava Jato, o do impeachment, o de quem defende uma guerra civil e o “quanto pior, melhor” permitisse, em benefício do futuro, da soberania e da economia nacional, que o Brasil dos jatos Gripen, da oitava economia do mundo, dos US$ 370 bilhões de reservas internacionais, de uma safra agrícola de 200 milhões de toneladas, o terceiro maior credor individual externo dos Estados Unidos – e que pertence não a um ou a outro partido, mas a todos os brasileiros – pudesse continuar a trabalhar.