terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A arte milenar de esconder elefantes

 





Folha.com, 20/01/2015



Juntando os pontos


Por Vladimir Safatle



São Paulo é um Estado em vias de degradação. Há momentos em que você deve olhar para as coisas que ama e deixar de se iludir sobre sua situação. Quando a população acompanha ansiosa as notícias do dia para saber até quando os reservatórios de água terão algo para ser bombeado, quando moradores de um bairro da capital sequestram um funcionário da companhia de eletricidade como condição desesperada para que, depois de três dias sem luz, eles sejam enfim atendidos pela companhia que foi privatizada, há anos envolta em promessas de choque de gestão e eficiência, quando as únicas notícias sobre a universidade mais importante do Estado estão nas páginas policiais e na página de falência, é porque está na hora de juntar os pontos e dizer que há algo em degradação.

Claro que, diante de tudo isto, alguns podem exercitar a arte milenar de esconder elefantes. Ela consiste em, diante de um elefante, descrever suas patas, depois o rabo, depois a tromba, depois as orelhas, como se elas fossem algo em si, e não partes de um todo. O que temos aqui em frente? Ah, temos umas patas de elefante, um rabo de elefante, uma tromba de elefante. Assim, o elefante passa incólume. O que temos aqui em frente? Ah, temos uma gestão catastrófica de recursos hídricos, privatizações muito boas para os investidores e péssimas para os usuários, um sistema educacional subfinanciado e mal gerido. Ok, agora junte os pontos.

Ou melhor, antes de juntar os pontos, acrescente a polícia que mata mais do que toda a polícia dos EUA. Uma polícia capaz de prender durante semanas manifestantes portando artefatos altamente periculosos como garrafa de Nescau e vinagre e achar que estava agindo de forma correta.

Acrescente também casos internacionais, nunca alvo de uma reles CPI na Assembleia Legislativa, de corrupção milionária no metrô de expansão mais lenta e patética da galáxia. Acrescente a despoluição de rio mais farsesca que se tem notícia. Então, que figura temos?

Bem, temos a figura de um Estado em degradação, que não quer olhar para seus próprios fracassos e fazer uma autocrítica profunda de seu "modelo" de desenvolvimento, com seus espasmos liberais de privatização e terceirização. Assim como não quer olhar o fracasso de quem pretensamente o administra (se é que há algo para administrar).

São Paulo teve toda a continuidade administrativa que os políticos sonham. O mesmo grupo há mais de duas décadas, com as mesmas palavras de ordem e o mesmo penteado. E o que acontece quando se junta os pontos? Muito pouco se comparado ao que o povo de São Paulo é capaz de criar e merece.
 

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