sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Aos jovens ricos, benevolênc​ia. Aos pobres, pelourinho e bala





 
 


Blog do Sakamoto, 31/10/2014



Aos jovens ricos, benevolência. Aos pobres, pelourinho e bala



Por Leonardo Sakamoto




 
Um grupo de jovens, em sua maioria da classe média alta carioca, foi preso, nesta quinta (30), pela Polícia Civil acusado de tráfico de drogas e porte ilegal de armas. Também estariam envolvidos em roubo de automóveis, tentativas de homicídios, estupros, enfim, vida honesta.
Segundo a polícia, os jovens atuariam como justiceiros na Zona Sul do Rio de Janeiro. O rapaz negro que foi acorrentado nu e pelo pescoço a um poste, no início do ano, acusado de cometer crimes teria sido vítima desse grupo.
Antes de mais nada, este não é um texto conclamando ao linchamento desses jovens. Isso seria de uma idiotice sem tamanho. Nem é sobre eles, a bem da verdade.
Mas sobre o fato de que a classe média alta, na qual, eu, caviar, me incluo, demonstra reações diferentes dependendo dos envolvidos na história.
Vamos por partes. Os repetidos casos de violência gerados por jovens da classe média alta brasileira e a forma aviltante com a qual têm sido tratados adolescentes negros e pobres nos morros e periferias me deixam incomodado.
Sabemos que é mais fácil uma pessoa que foi acusada de roubar um xampu, um litro de leite ou meia dúzia de coxinhas ir amargar uma temporada no xilindró – como mostram diversos casos que já trouxe aqui – do que um empresário que corrompeu passar uma temporada fora de circulação.
Não que o princípio da insignificância (que pode ser aplicado quando o caso não representa riscos à sociedade e não tenha causado lesão ou ofensa grave) não seja conhecido pelo Judiciário. Insignificante mesmo é quem não tem um bom advogado, muito menos sangue azul ou imunidade política. Ou a benevolência de determinados jornalistas.
Tempos atrás, a seguinte notícia veio a público:
“A empregada doméstica Sirley Dias de Carvalho Pinto, de 32 anos, teve a bolsa roubada e foi espancada por cinco jovens moradores de condomínios de classe média da Barra da Tijuca, na madrugada de sábado. Os golpes foram todos direcionados à sua cabeça. Presos por policiais da 16ª DP (Barra), três dos rapazes (…) confessaram o crime e serão levados para a Polinter. Como justificativa para o que fizeram alegaram ter confundido a vítima com uma prostituta.''
Os rapazes não eram da ralé. Se fossem de classe social mais baixa, certamente o texto seria sutilmente diferente:
“A empregada doméstica Sirley Dias de Carvalho Pinto, de 32 anos, teve a bolsa roubada e foi espancada por cinco moradores da favela da Rocinha, na madrugada de sábado. Os golpes foram todos direcionados à sua cabeça. Presos por policiais da 16ª DP (Barra), três dos bandidos (…) confessaram o crime e estão presos. Como justificativa para o que fizeram alegaram ter confundido a vítima com uma prostituta.''
Rico é jovem, pobre é bandido. Um é criança que fez coisa errada, o outro um monstro que deve ser encarcerado, quando o tratamento deveria ser igual aos dois.
Lembro que o pai de um deles, num momento de desespero, justificou a atitude do filho como sendo perdoável. Da mesma forma, o pai de um dos jovens que agrediram homossexuais com lâmpadas fluorescentes na avenida Paulista, em São Paulo, pediu condescendência. Afinal, isso não condiz com a criação que tiveram. Bem, são pais, é direito deles.
O incrível é como a sociedade encara a situação, com uma diferenciação claramente causada pela origem social e cor de pele.
Tenho minhas dúvidas se a notícia sairia se fosse o segundo caso. Provavelmente, na hora em que o estagiário que faz a checagem das delegacias chegasse com a informação, ouviria algo assim na redação: “Pobre batendo em pobre? Ah, acontece todo dia, não é notícia. Além disso, é coisa deles com eles. Então, deixem que resolvam''.
A estrutura de uma notícia depende, infelizmente, de que classe social pertence os protagonistas. Somos lenientes com os nossos semelhantes, com aqueles que poderiam ser nossos primos e irmãos, e duros com os outros. E como somos nós que controlados a nossa democrática mídia…
Não estou pedindo o nivelamento por baixo, mas por cima. Não é juntar os mais ricos à fogueira da vingança em praça pública, mas tirar os mais pobres dela e garantir-lhes justiça.
Na prática, as pessoas envolvidas nesses casos apenas colocaram em prática o que devem ter ouvido a vida inteira: que eles podem porque nasceram bem. Já putas, bichas, índios, mendigos, pessoas em situação de rua e remelentos em geral são a corja da sociedade e agem para corromper os nossos valores morais e tornar a vida dos “cidadãos de bem'' um inferno. Seres descartáveis, que vivem na penumbra e nos ameaçam com sua existência, que não se encaixa nos padrões estabelecidos. E por que não incluir nesse caldo as empregadas domésticas, que existem para servir? Se eles soubessem a profissão de Sirley, teria feito diferença?
A sociedade tem uma parcela grande de culpa em atos como esse e os dos jovens que se tornam soldados do tráfico por falta de opções e na busca por dignidade, fugindo da violência do Estado e do nosso desprezo.
A diferença é que, para os da classe média alta e alta, a construção da narrativa passa por onde deveria passar: devemos reintegrá-los para que tenham uma vida adulta plena e produtiva. Afinal, são “jovens''.
Para os pobres, os “menores'', é pelourinho e bala.
 

Uma bizarra simbiose / A nau dos insensatos

 
 




 Sexta-feira, 31 de outubro de 2014 




Uma bizarra simbiose / A nau dos insensatos

Por Luciano Martins Costa




Uma bizarra simbiose
 
O pedido de auditoria na eleição presidencial, de iniciativa do PSDB, divide o alto da primeira página do jornal O Estado de S. Paulo, nesta sexta-feira, (31) com a principal notícia de economia.
Globo registra o assunto também na primeira página, mas em uma nota sem grande destaque, e a Folha de S. Paulo deixa o tema sem menção na primeira página e o coloca em posição secundária na editoria Poder.
O fato, incomum na rotina de manchetes compartilhadas pelos jornais que dominam a cena da mídia nacional, chama atenção.
A razão é explicada por um vazamento da redação do Estado: um dirigente do PSDB teria sondado editores sobre qual seria a receptividade do jornal  àquela notícia.
Com a garantia de que a iniciativa poderia sair em manchete, os autores da medida resolveram se arriscar à aventura de questionar o resultado das urnas, sem o risco de serem execrados pela imprensa por sua atitude vexaminosa.
Agora, imagine-se o contrário: se, derrotado na disputa presidencial, o Partido dos Trabalhadores resolvesse pedir uma investigação sobre a lisura do processo eleitoral.
Evidentemente, não apenas as manchetes, mas os editoriais, os colunistas, os analistas econômicos, os filósofos, os psicólogos e outros "especialistas" hospedados na mídia tradicional, e até os astrólogos, estariam mobilizados para condenar a insinuação de que o partido governista colocava em dúvida a justeza da decisão popular.
No mínimo, os descontentes seriam considerados maus perdedores, mas o tom geral seria de condenação a uma suposta tentativa de golpe de Estado.
E tudo motivado por análises técnicas? Não. O que move os reclamantes é uma série de manifestações de correligionários nas redes sociais.
O episódio coloca esta sexta-feira no calendário de horrores criado pela simbiose bizarra entre a imprensa hegemônica e a oposição ao Executivo federal.
Numa escala imaginária de despautérios, fica apenas alguns graus abaixo da manobra consumada no último fim de semana, às vésperas do segundo turno da eleição presidencial, por um panfleto de campanha distribuído sob o logotipo da revista Veja.
Não por acaso, o assunto é explorado pelo carro-chefe da Editora Abril (leia aqui) e justificado por um de seus mais dedicados pitbulls.
 

A nau dos insensatos
 
A iniciativa do PSDB poderia ser considerada uma tolice, não fosse a revelação de que se trata de operação combinada com pelo menos um dos principais jornais do País.
Qual seria o efeito de tal notícia no ambiente das redes sociais digitais?
Evidentemente, essa manobra tende a acirrar o radicalismo na parcela mais aloprada do eleitorado, aquela que prega diariamente o golpe militar e até o assassinato de adversários como ação política legítima.
Sua escalada pode gerar uma crise de governabilidade.
O fato de um dos principais partidos do País buscar apoio nesse substrato da cidadania, onde se aglomeram os mais insensatos entre os analfabetos políticos, demonstra a falta de espírito democrático de seus dirigentes, entre os quais já se alinharam alguns intelectuais respeitados.
O fato de um jornal de influência nacional embarcar na aventura golpista revela o baixio a que se dispõe a mídia tradicional.
Mas a adesão de Veja não surpreende: a revista simboliza há muito tempo a destruição do legado de Victor Civita, processo que pode ser mais bem  analisado à luz da psicologia freudiana do que sob as muitas teorias da comunicação.
Quanto aos observadores da mídia, desponta aqui um tema interessante para ser considerado: carece de fundamento a suposição, bastante difundida a partir da distribuição dos votos na última eleição, de que os mais educados entre os eleitores tendem a votar com mais racionalidade.
A se julgar pelas manifestações de energúmenos que pregam medidas antidemocráticas como reação à decisão soberana das urnas, pode-se afirmar que é nos estratos com mais anos de escolaridade que se expressam a insensatez, o desatino e a irresponsabilidade.
Estudo do instituto americano Pew Research Center sobre a polarização política nos Estados Unidos (ler aqui, em inglês), mostra que conservadores se informam por fontes menos diversificadas - por exemplo, 88% deles confiam na reacionária Fox News - enquanto os cidadãos mais liberais usam uma variedade maior de fontes de informação e opinião.
Aplicada ao Brasil, a pesquisa provavelmente mostraria como a mídia partidarizada contribui para acirrar os ânimos e coloca em risco a própria democracia.


Frei Betto: Impasses dos governos progressistas




http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1735




Le Monde Diplomatique Brasil (Ed. No. 87) Outubro 2014



América Latina
Impasses dos governos progressistas


Por ​Frei Betto​



Na América Latina predominam hoje, em meados da segunda década do século XXI, governos democráticos populares. A maioria foi eleita por forças de esquerda. Dos chefes de Estado, cinco atuaram como guerrilheiros sob ditaduras: Dilma Rousseff, do Brasil; Raúl Castro, de Cuba; José Mujica, do Uruguai; Daniel Ortega, da Nicarágua; e Salvador Sánchez, de El Salvador. Ora, ser de esquerda não é uma questão emocional ou mera adesão a conceitos formulados por Marx, Lenin ou Trotsky. É uma opção ética, com fundamento racional. Opção que visa favorecer, em primeiro lugar, os marginalizados e excluídos. Portanto, ninguém é de esquerda por se declarar como tal ou por encher a boca de chavões ideológicos, e sim pela práxis que desempenha em relação aos segmentos mais empobrecidos da população.
Na América Latina, os chamados governos democráticos populares reúnem concepções diversas e perseguem, em tese, projetos de sociedades alternativas ao capitalismo. Transitam contraditoriamente entre políticas públicas voltadas aos segmentos de baixa renda e o sistema capitalista global regido pelas “mãos invisíveis” do mercado.
Os governos democráticos populares têm produzido, de fato, importantes mudanças para melhorar a qualidade de vida de amplos segmentos sociais. Hoje, 54% da população latino-americana vive em países com governos progressistas. Eis um fato inédito na história do continente. Os outros 46%, cerca de 259 milhões de pessoas, vivem sob governos de direita, aliados aos Estados Unidos e indiferentes ao agravamento da desigualdade social e da violência.
Do ponto de vista histórico, é a primeira vez que tantos governos do continente mantêm distância dos ditames da Casa Branca. E é também a primeira vez que se criam instituições de articulações continentais e regionais (Alba, Celac, Unasul etc.) sem a presença dos Estados Unidos. Isso configura uma redução da influência imperialista na América Latina, entendida como predomínio de um Estado sobre o outro.
No entanto, outra forma de imperialismo prevalece na América Latina: o domínio do capital financeiro, voltado à reprodução e concentração do grande capital, que se apoia no poder de seus países de origem para promover, desde os países-hospedeiros, exportação de capital, mercadorias e tecnologias e apropriar-se das riquezas naturais e da mais-valia.
Houve um deslocamento da submissão política à submissão econômica. A força de penetração e obtenção de lucros do grande capital não se reduziu com os governos progressistas, apesar das medidas regulatórias e dos impostos adotados por alguns desses países. Se de um lado se avança na introdução de políticas públicas favoráveis aos mais pobres, por outro não se reduz o poder de expansão do grande capital.
Outra diferença entre os governos democráticos populares é que uns ousaram promover mudanças constitucionais, enquanto outros permanecem nos marcos institucionais e constitucionais dos governos neoliberais que os precederam, embora se empenhando em conquistas sociais significativas, como a redução da miséria e da desigualdade social.
As forças de esquerda da América Latina seguem se centrando na ocupação do aparelho de Estado. Lutam para que os segmentos marginalizados e excluídos se incorporem aos marcos regulatórios da cidadania (indígenas, sem-terra, sem-teto, mulheres, catadores de material reciclável etc.). Governos e movimentos sociais unem-se, sobretudo em períodos eleitorais, para conter as violentas reações da classe dominante alijada do aparato estatal.
No entanto, é essa classe dominante que mantém o poder econômico. E por mais que os ocupantes do poder político coloquem em prática medidas favoráveis aos mais pobres, há uma pedra intransponível no caminho: todo modelo econômico exige determinado modelo político condizente com seus interesses. A autonomia da esfera política em relação à econômica é sempre limitada.
Essa limitação impõe aos governos democráticos populares um arco de alianças políticas, muitas vezes espúrias, e com os setores que, dentro do país, representam o grande capital nacional e internacional, que corrói os princípios e objetivos das forças de esquerda no poder. E o que é mais grave: essa esquerda não logra reduzir a hegemonia ideológica da direita, que exerce amplo controle sobre a mídia e o sistema simbólico da cultura predominante.
Enquanto os governos democráticos populares se sentem permanentemente acuados pelas ofensivas desestabilizadoras da direita, acusando-a de tentativa de golpe, esta se sente segura por estar respaldada pela grande mídia nacional e global, e pela incapacidade de a esquerda criar mídias alternativas suficientemente atrativas para conquistar corações e mentes da opinião pública.
O modelo econômico predominante, gerenciado pelo grande capital e adotado pelos governos progressistas, visa aproveitar as vantagens da “globalização” para exportar commodities e riquezas naturais, a fim de fazer caixa para financiar, por meio de políticas públicas, o consumo dos segmentos excluídos pela dívida social. Ainda que adotem uma retórica progressista, os governos democráticos populares não logram prescindir do capital transnacional que lhes assegura suporte financeiro, novas tecnologias e acesso aos mercados. E, para isso, o Estado deve participar como forte investidor dos interesses do capital privado, seja pela facilitação de créditos, seja pela desoneração de tributos e adoção de parcerias público-privadas. Esse é o modelo de desenvolvimento pós-neoliberal predominante hoje na América Latina.
Esse processo exportador-extorsivo inclui recursos energéticos, hídricos, minerais e agropecuários, com progressiva devastação da biodiversidade e do equilíbrio ambiental, e a entrega da terra aos monocultivos anabolizados por agrotóxicos e transgênicos. O Estado investe em ampla construção de infraestrutura para favorecer o escoamento de bens naturais mercantilizados, cujo faturamento, em divisas estrangeiras, raramente retorna ao país. Grande parcela dessa fortuna aloja-se em paraísos fiscais.
Eis a contradição desse modelo neodesenvolvimentista, que, no frigir dos ovos, anula as diferenças estruturais entre os governos de esquerda e de direita. Adotar tal modelo é, pois, aceitar tacitamente a hegemonia capitalista, ainda que sob o pretexto de mudanças “graduais”, “realismo” ou “humanização” do capitalismo. De fato, é mera retórica de quem se rende ao modelo capitalista.
Se os governos democráticos populares pretendem reduzir o poder do grande capital, não há outra via senão a intensa mobilização dos movimentos sociais, uma vez que, na atual conjuntura, a via revolucionária está descartada e, aliás, só interessaria a dois setores: extrema direita e fabricantes de armas.
Se o que se pretende, porém, é assegurar o desempenho do grande capital, então os governos progressistas terão de se adequar para, cada vez mais, cooptar, controlar ou criminalizar e reprimir os movimentos sociais. Toda tentativa de equilíbrio entre os dois polos seria, de fato, contrair núpcias com o capital e, ao mesmo tempo, flertar com os movimentos sociais no intento de apenas seduzi-los e neutralizá-los.
Como os governos democráticos populares tratam os segmentos da população beneficiados pelas políticas sociais? É inegável que o nível de exclusão e miséria causado pelo neoliberalismo exige medidas urgentes que não fujam ao mero assistencialismo. Tal assistencialismo, porém, restringe-se ao acesso a benefícios pessoais (bônus financeiro, escola, atendimento médico, crédito facilitado, desoneração de produtos básicos etc.), sem que haja complementação com processos pedagógicos de formação e organização políticas. Criam-se, assim, redutos eleitorais, sem adesão a um projeto político alternativo ao capitalismo. Dão-se benefícios sem suscitar esperança. Promove-se o acesso ao consumo sem propiciar o surgimento de novos protagonistas sociais e políticos, e o que é mais grave: sem perceber que, no bojo do atual sistema consumista, cujas mercadorias recicláveis estão impregnadas de fetiche, valorizando o consumidor e não o cidadão, o capitalismo pós-neoliberal introduz “valores” – como a competitividade e a mercantilização de todos os aspectos da vida e da natureza –, reforçando o individualismo e o conservadorismo.
O símbolo dessa modalidade pós-neoliberal de consumismo é o telefone celular. Ele traz em seu bojo a falsa ideia de democratização pelo consumo e de incorporação à classe média. Assim, segmentos excluídos sentem-se menos ameaçados quando acreditam que está ao alcance deles, mais facilmente, atualizar o modelo do celular do que obter saneamento onde moram. O celular é a senha para sentir-se incluído no mercado... E sabemos todos que as formas de existência social condicionam o nível de consciência. Em outras palavras, a cabeça pensa onde os pés pisam (ou imaginam que pisam).
Nossos governos progressistas, em suas múltiplas contradições, criticam o capitalismo financeiro e, ao mesmo tempo, promovem a bancarização dos segmentos mais pobres, por meio de cartões de acesso ao benefício monetário, a pensões e salários, e da facilidade de crédito, apesar da dificuldade de arcar com os juros e a quitação das dívidas.
Em suma, o modelo neodesenvolvimentista monitorado pela esquerda empenha-se em fazer da América Latina um oásis de estabilidade do capitalismo em crise. E não consegue fugir da equação que associa qualidade de vida e crescimento econômico segundo a lógica do capital. Enquanto não se socializa culturalmente a proposta indígena do bem viver, para a grande maioria viver bem será sempre sinônimo de viver melhor em termos materiais.
O grande perigo de tudo isso é fortalecer, no imaginário social, a ideia de que o capitalismo é perene (“A história acabou”, proclamou Francis Fukuyama) e que sem ele não pode haver processo verdadeiramente democrático e civilizatório, o que significa demonizar e excluir, ainda que pela força, todos que não aceitam essa “obviedade”, então considerados terroristas, inimigos da democracia, subversivos ou fundamentalistas.
Essa lógica é reforçada quando, em campanhas eleitorais, os candidatos de esquerda acenam, enfaticamente, com a confiança do mercado, a atração de investimentos estrangeiros, a garantia de que os empresários e banqueiros terão maiores ganhos etc.
Por um século a lógica da esquerda latino-americana jamais deparou com a ideia de superar o capitalismo por etapas. Esse é um dado novo, que exige muita análise para pôr em prática políticas que impeçam que os atuais processos democráticos populares sejam revertidos pelo grande capital e por seus representantes políticos de direita.
Esse desafio não pode depender apenas dos governos. Ele se estende aos movimentos sociais e aos partidos progressistas, que, o quanto antes, precisam atuar como “intelectuais orgânicos”, socializando o debate sobre avanços e contradições, dificuldades e propostas, de modo a alargar sempre mais o imaginário centrado na libertação do povo e na conquista de um modelo de sociedade pós-capitalista verdadeiramente emancipatório. 

Frei Betto é escritor, autor de Calendário do Poder (Rocco), entre outros livros.​

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Kill the messenger: o filme que desmente o mito da mídia livre




 



Carta Maior, 30/10/2014



Kill the messenger: o filme que desmente o mito da mídia livre



Chris Hedges, originalmente publicado em Truthdig.com
 
 
 
 
 
Há muito mais verdades sobre o jornalismo norte-americano no filme Kill the Messenger, que descortina o que se passa na grande mídia, a partir da campanha nacional de difamação contra o trabalho do jornalista investigativo Gary Webb do que no filme All the President’s Men, uma celebração ao trabalho dos repórteres que cobriram o escândalo Watergate. Os meios de comunicação apoiam cegamente a ideologia do capitalismo corporativo. Louvam e promovem o mito da democracia estadunidense. Deste modo são suprimidas liberdades civis da maioria e o dinheiro substitui o voto. Os meios de comunicação prestam deferência aos líderes de Wall Street e de Washington não importa o quanto os seus crimes possam ser perversos. De modo servil, os meios de comunicação veneram os militares e a aplicação de leis em nome do patriotismo.

Os meios de comunicação selecionam especialistas e peritos, quase sempre indicados e sugeridos a partir dos centros de poder, para interpretar a realidade e explicar a política. Em geral divulgam press releases oficiais redigidos pelas corporações para preencher o seu noticiário. E para distrair os leitores, recheiam os furos de notícias com fofocas da vida de celebridades, com notícias triviais ou esportivas e com futilidades. O papel da grande mídia é promover o entretenimento ou se fazer de papagaios repetindo a propaganda oficial para as massas. As corporações, que contratam jornalistas dispostos a serem cortesãos e são proprietárias da imprensa, alugam profissionais para serem benevolentes com as elites e, em contrapartida, os promovem a celebridades. Estes jornalistas cortesãos, que ganham milhares de dólares, são convidados a frequentarem a intimidade dos círculos do poder. Como diz John Ralston Saul, romancista canadense, são hedonistas do poder.

Quando Webb publicou, em 1996, uma série de reportagens no jornal San José Mercury News denunciando a Agência Central de Inteligência (CIA) como cúmplice no contrabando de toneladas de cocaína a ser vendida nos Estados Unidos para financiar a sua operação na luta dos contra da Nicaragua, a mídia se voltou contra ele que passou a ser visto como se fosse um leproso. Ao longo do tempo e das várias gerações de jornalistas, é longa a lista de profissionais leprosos que vai de Ida B. Wells a I.F. Stone e a Julian Assange. Os ataques contra Webb foram renovados agora, em jornais como o The Washington Post, assim que o filme estreiou, há uma semana, em Nova Iorque. Estes ataques são como uma autojustificativa. Uma tentativa da grande mídia de mascarar a sua colaboração com as elites do poder. A grande mídia, assim como todo o stablishment liberal, pretende apresentar o verniz de quem, destemidamente, busca a verdade e a justiça. Mas para sustentar este mito precisa destruir a credibilidade de jornalistas como Webb e Assange que procuram jogar uma luz no trabalho sinistro e criminoso do império que é mais preocupado com (esconder) a verdade do que com a notícia. 

Os maiores jornais do país, inclusive o The New York Times, escreveram que a história levantada por Webb apresentava “provas escassas”. Funcionaram como cães de guarda para a CIA. Em 1996, assim que a denúncia surgiu, The Washington Post dedicou imediatamente duas páginas inteiras para atacar a argumentação e as provas de Webb. O Los Angeles Times publicou três artigos enlameando a reputação de Webb e procurando destruir a credibilidade da sua história. Foi um repugnante, deplorável, vergonhoso capítulo do jornalismo norte-americano. Não foi o único. Alexander Cockburn e Jeffrey St. Clair, em um artigo publicado em 2004, How the press and the CIA killed Gary Webb’s career (Como a imprensa e a CIA mataram a carreira de Webb) detalharam a dinâmica da campanha nacional de difamação.

O jornal de Webb, depois de publicar um mea culpa sobre a série de matérias publicadas, demitiu-o. Webb nunca mais conseguiu trabalho como jornalista. Ele expôs a CIA como um bando de marginais contrabandeando armas e traficando drogas. E expôs os meios de comunicação, que dependem de fontes oficiais para a maioria de suas notícias e, portanto, são reféns de tais fontes, como servas covardes de poder. É de conhecimento público, em parte devido a uma investigação do Senado conduzida pelo senador John Kerry, que Webb estava certo. Mas a verdade nunca foi assunto para aqueles que denunciaram o jornalista. Webb tinha cruzado a linha. E ele pagou por isto. Desorientado e apavorado com o risco de perder a sua casa oficialmente diz-se que cometeu suicídio em 2004. Há quem diga que a CIA o matou.

O filme Kill the Messenger (O mensageiro) é dirigido por Michael Cuesta e estreia no Brasil no próximo dia 11 de dezembro. O ator Jeremy Renner (de Guerra ao terror) faz o papel de Gary Webb, o jornalista que sofreu implacável campanha nacional de difamação depois de publicar a cumplicidade da CIA no contrabando de cocaína para financiar os contra da Nicarágua. Antes, Brad Pitt e Tom Cruise foram sondados para o papel assim como Spike Lee foi convidado para dirigir a produção. 

Sobre o filme, o economista Paul Krugman escreveu, em coluna recente, com o tema da redução de impostos e a propaganda ideológica que substituiu o jornalismo. Ele reforça a percepção de que a grande mídia hoje faz política; não jornalismo - ao contrário do fervor de suas recentes juras oficiais. Abaixo, Krugman:

“... dizer aos eleitores, com frequência e bem alto, que o fato de sobrecarregar os ricos e ajudar os pobres provocará um desastre econômico, enquanto que reduzir os impostos dos “criadores de emprego” nos trará prosperidade a todos. Há uma razão por que a fé conservadora na magia das reduções de impostos se mantém, por mais que essas profecias não se cumpram (...): há um setor, magnificamente financiado, de fundações e organizações de meios de comunicação que se dedica a promover e preservar essa fé. Há mais verdade sobre jornalismo americano no filme Kill the Messenger, que narra o descrédito da mídia mainstream do trabalho do jornalista investigativo Gary Webb, do que há no filme Todos os Homens do Presidente, que celebra as façanhas dos jornalistas que descobriram o escândalo Watergate.”


A tradução é de Léa Maria Aarão Reis.

O capital construindo um ser adequado a ele

Budapeste (1885 — 1971)
 


http://operamundi.uol.com.br/conteudo/entrevistas/38362/capitalismo+criou+ser+humano+adequado+ao+consumo+diz+filosofa+sobre+burguesia.shtml


Opera Mundi, 30/10/2014


'Capitalismo criou ser humano adequado ao consumo', diz filósofa sobre burguesia


 
Por Dodô Calixto e Rodolfo Machado | São Paulo


        Ester Vaisman, professora de filosofia da UFMG


O ano de 1848 marca, na Europa, a emergência de um novo sujeito histórico: a classe trabalhadora. A partir daí, o pensamento da direita, enraizado no capital, entra em declínio, no que é considerada a decadência ideológica burguesa. Essa é a análise de Ester Vaisman, professora de filosofia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Organizadora do livro Lukács: Estética e Ontologia, ela cita o filósofo húngaro György Lukács para exemplificar como o capital mostrou no decorrer dos últimos séculos “uma sobrevida, uma capacidade de autoperpetuação e reprodução inimagináveis”.




A decadência ideológica se manifesta, primeiro, na afirmação de uma impotência do ser humano, não só de conhecer a realidade, mas de mudar e transformar o mundo. Portanto, qualquer ideia de libertação ou emancipação é considerada como uma utopia, ou uma recaída tardia às tendências socialistas, de constituição de um mundo onde todas as pessoas possam viver bem em todos os níveis, não só no material, mas também no cultural”, analisa. “O capital não é algo material. Pelo contrário, é uma relação social. Porém, ele ganha uma autonomia, como se tivesse uma vontade própria, construindo um ser humano adequado a ele. Portanto, o fato de um shopping center se tornar um lugar de lazer no fim de semana é um símbolo maior dessa alienação que se dá no nível do consumo. Logo, a alienação não se dá apenas na fábrica, na indústria: ela atinge a todos, mesmo os que não atuam, no chão de uma fábrica”, analisa.

Ao superar a concepção do capitalismo apenas na relação de trabalho, Vaisman argumenta que, atualmente, sofremos um processo de manipulação em um nível mais amplo, não só como consumidores, mas na família, nas relações de amizades e amorosas. Nesse cenário, o pensamento de direita se prolifera.

A manipulação [do capital] é um processo que atravessa todas as relações humanas. Por isso, o pensamento de direita tem galvanizado tantas atenções e tem obtido tanto apoio ao redor do mundo. Com a derrota soviética no leste europeu, não se vê uma perspectiva à esquerda. E a única alternativa que está posta para muitas pessoas é ditadura, é a direita.  [...] O culpado é sempre o imigrante, o culpado é o ocidente, o islã. Sempre uma busca por um bode expiatório. É impressionante como essa faceta da história se repete”, conclui.



Lukács: Estética e Ontologia
Editora: Alameda
Número de Páginas:376

Carta de Satanás ao Lobão

 

 

CARTA DE SATANÁS AO LOBÃO


 

Autor: Reácio Onário



Inferno, corte das trevas

Meu caro amigo Lobão,

Lhe escrevo essa missiva

Com muita satisfação

Pois já soube dos seus planos

Que nos próximos quatro anos

Queres mudar de nação.


No inferno, caro amigo,

Eu entendo o seu protesto

Venha que estou lhe esperando

Não se preocupe com o resto

Que rancho e boia eu garanto

E você vai ver o quanto

Ao PT também detesto.


Eu não gosto de Petralhas

Pois deu direito à pobreza

De comer todos os dias

De ter fartura na mesa

E igualmente qual você

Sou fã de FHC

Esse, sim, é uma beleza!


Vendeu a Vale de graça

Traiu a sua nação

Deixou o pobre com fome

Cumpriu bem sua missão

Enganou o operário

Deu arrocho no salário

Pra toda a população.


E xingou de vagabundo

A quem era aposentado

Com a ação de FHC

Me senti realizado

Achei seu plano engenhoso

Pois quem maltrata o idoso

Merece ser apoiado.


Esse governo de pobre

É pior do que saúva

FHC era bom

Igual ki-suco de uva

Comprou porque era vivo

Com o cartão corporativo

Um consolo de viúva.


Com esse governo a elite

Perdeu a satisfação

De arrotar sua soberba

Com a mais cara profissão

Luiz Inácio é um bicho

Pois fez catador de lixo

Ter direito a educação.


Tenho nojo desse cara

Que deu ao pobre o direito

De andar de carro novo

Comprar casa, ter respeito

Coisas que a Deus agrada

Deus me livre, camarada

Eu morro, mas não aceito.


Esse tal Bolsa Família

Eu odeio esse projeto

Pobre é pra morrer de fome

Viver na rua, sem teto

Quem ajuda essa gentalha

Para mim é um canalha

Ou um ser mais abjeto.


Esse Lula deu direito

Ao pobre sem instrução

Se educar, crescer na vida

E andar de avião

Aeroportos lotados

De pobre e de favelados

Isso, sim, é um mundo cão.


Um rico não pode mais

Ir ao shopping com a família

Que tem que topar com pobre

Comprando roupa e mobília

Seu partido errou o plano

E a culpa é do povo insano

Que pôs o PT em Brasília.


Dilma é uma mulher honesta

E eu detesto honestidade

Aécio, sim, era o quente

Um político de verdade

Desde pequeno que é torto

Fez até aeroporto

Na sua propriedade.


Que negócio de carinho

Mulher ele trata é na porrada

Já quebrou até as fuças

De uma linda namorada

E com Dilma no debate

Lutando pra dá empate

Armava ardil e cilada.


Eu que sou sócio da Veja

Sempre procuro ajudar

O Mensalão dos Tucanos

Não deixei ninguém julgar

Nisso garanto a você

Ponho a culpa no PT

Antes de investigar.


Se por acaso os tucanos

Fizerem um propinoduto

Eu apoio, pois eu acho

Que o poder absoluto

Só o rico é quem merece

Toda vez que um pobre cresce

O inferno fica de luto.


Meu nobre amigo Lobão

Sei que está no ostracismo

Pois esse povo canalha

Quer lhe jogar no abismo

Não curte suas canções

Não solfeja seus refrões

Isso, sim, é um comunismo!


Venha aqui para o inferno

Que eu garanto a você

Que todo ano produzo

Uma bonita turnê

Nossa turma é da pesada

E até diaba recatada

Também curte um fuzuê.


Nessa vida, louca vida

Verá o quanto aqui ferve

E se eu não vou nessa porra

Quero que você me leve

No helicóptero dos Perrela

Cheire pó numa tigela

Mostre o quanto a vida é breve.


Eu detesto socialistas

Pois sou um velho reaça

Criança morrendo à míngua

Eu aprecio, acho graça

Polícia batendo em pobre

É a atitude mais nobre

Que eu vejo numa praça.


FHC é meu ídolo

Lógico, depois de você.

Pobre só comia calango

Quando o nosso FHC

Governava esse Brasil

Mas rico entra no funil

Com esse tal de PT.


Odeio esse tal de Lula,

Frei Boff e o tal do Frei Beto

Que mostra a força do povo

Deixando a povo inquieto

Se o filho de pobre estuda

No Brasil a coisa muda

E não terá analfabeto.


Se a coisa seguir assim

Escravos e serviçais

Serão coisa do passado

E o rico não goza mais

Até Aécio sem ama

Terá que fazer a cama

Entre suspiros e ais.


Aliás, do nome Aécio

Eu sei o significado

É uma Ave de Rapina

Li no grego, estou lembrado

Tenho anel e formatura

O nosso inferno é cultura

Tá pensando o que, barbado?


Não diga que desistiu

Não fique me embromando

Pois um diabo me informou

Que você tava chegando

Vindo acompanhado ou só

Vais dormir com minha avó

Ela já tá lhe esperando.


Minha avó é uma gata

De 10 mil anos de idade

E me disse que você

É um reaça de verdade

Só digo o que é exato

Quando ela viu seu retrato

Relembrou da mocidade.


Já comprou uma camisola

Transparente nesse ano

Você vai dormir na frente

E ela vai cuTUCANO

Na sua cauda de lobo

Você como não é bobo

Verá que foi um bom plano.


No aeroporto de Claudio

Mando amanhã lhe buscar

Num confortável urubu

Meu astro vai decolar

Anote no seu caderno

Hora do seu voo pro inferno

E a hora de chegar.


Eu agora me despeço

Mas deixo aqui um abraço

Ao Roger do Ultrage

Que nunca mostrou cansaço

Pra falar mal do PT

É igualzinho a você

Tem a alma de ricaço.


Gentilli é gente da gente

Reacionário demais

Muito preconceituoso

Não deixa o Nordeste em paz

Mora no meu coração

Golpe é revolução

Na boca desse rapaz.


E a galera da Veja

É toda avessa a verdade

Jornalismo criminoso

É sua especialidade

Para acusar um sem prova

Sempre sai edição nova

Recheada de maldade.


Tem o Arnaldo Jabor,

E William Bonner em ação

Lá na Venus Prateada

Tem também Míriam Leitão

Pra derrubar o Brasil

Cada um é mais sutil

Com garra e disposição.


Quando morrerem o inferno

Estará escancarado

Pra essa gente bacana

Que transmite o meu recado

Vamos vender o Brasil

a Petrobrax, que sutil

Fico até arrepiado.


Lembranças a FHC,

Pense num velho profundo!

No tempo de seu governo

Vivia cheirando o fundo

No FMI falado

Deixou até penhorado

O Brasil no terceiro mundo.


Mas o PT tranformou

O Brasil numa potência

Pagou a tal Dívida Externa

Isso, sim, é incompetência

Do Fundo não são fregueses

Mas FHC três vezes

Quebrou o Brasil, que ciência!


O inferno te espera

Meu coleguinha Lobão

Judas lhe quer num amplexo

Caim lhe chama de irmão

Hitler manda um abraço amigo

E da mãe do Calor de Figo

Um beijo no coração.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O ministério da correlação de forças




http://www.cartamaior.com.br/?/Editorial/O-ministerio-da-correlacao-de-forcas/32130




Carta Maior, 29/10/2014 


O ministério da correlação de forças



Por Saul Leblon





A presidenta Dilma fará de seu novo ministério uma trincheira de competência técnica, mas também um instrumento de ação política para abortar cercos e superar flancos revelados antes e depois das urnas.

O PT, partidos aliados e movimentos sociais naturalmente serão contemplados: foi deles a responsabilidade pela candidatura vitoriosa em outubro.

Mas o setor empresarial também será incorporado.

A concessão de um governante vitorioso é uma lâmina de dois gumes.

Um deles fatia um pedaço do seu mandato para o mercado; o outro fatia um pedaço do mercado que os inconsoláveis pelotões do revanchismo querem perfilar na ordem unida do terceiro turno contra Dilma.

Quem serão os anfíbios nessa composição?


Aqueles com os quais é possível dialogar porque tem um grau de compreensão mais amplo do significado de um processo de desenvolvimento.

Ou seja, enxergam em um mercado interno pujante, com empregos, salários e direitos sociais a contrapartida indissociável de vendas, lucros e investimentos.

Um exemplo aleatório?

Luiza Trajano – dona da rede Magazine Luiza, a maior do Brasil.


Em janeiro deste ano a empresária soterrou em estatísticas um gabola representante da secessão conservadora em debate na Globo News. ‘Poupe-me Luiza’, grunhiu o rapaz, Diogo Mainardi, já nas cordas, quase exangue, depois que a empresária ainda pediu seu email  para entupi-lo com mais informações opostas à ignorância exclamativa do interlocutor sobre a situação econômica do país
 
Quando outros integrantes da mesa balbuciaram o risco de ‘bolhas’ em socorro ao nocauteado, a convidada ainda retrucou: “Como é possível falar em bolha? Nós precisaremos construir 23 milhões de moradias nos próximos anos do Minha Casa Minha Vida para que a população atinja um nível habitacional próximo ao dos países desenvolvidos. Como se pode falar em bolha? São 23 milhões de casas para 23 milhões de pessoas. (Gente) que mora hoje com o sogro, a sogra ou pagando 400 reais de aluguel por um cômodo. (Em habitação) não se pode esquecer que nós tivemos três décadas  perdidas (como bolha?)

Não foi necessário contar até dez: o telespectador atestou o nocaute técnico com fraturas espalhadas por toda a credibilidade da bancada do Brasil aos cacos.

Exemplos como os de Luiza Trajano ou o do aventado  Luiz Trabuco Cappi – presidente de banco que pensa como a empresária, não por benemerência, mas de olho no avanço do crédito no país, podem ser acomodados em um governo de composição acossado pelo terceiro turno golpista, associado aos rentistas que preferem lucrar sem produzir.

Acercar-se de anteparos não antagônicos à construção de um desenvolvimento convergente é o que qualquer governante progressista sempre fez e fará, após renhida batalha eleitoral.

A pretensão conservadora de isolar Dilma em uma Guantánamo institucional, e impedi-la de governar, não é uma miragem.

As operações de assalto estão explícitas nas manchetes ressentidas das horas que correm, nos perdigotos expelidos de colunas sulfurosas e na rejeição da Câmara ao projeto que institui conselhos populares - organismos consultivos para o aperfeiçoamento dos programas sociais do governo.

São sinais do tipo: às favas as urnas!
Reverter a escalada dos liberais que não se libertam jamais da UDN embutida nas veias, não se resolve com um ministério puro sangue.

É mais difícil que isso.

E é dessa dificuldade que deveriam cuidar prioritariamente o PT e os movimentos sociais.

Em vez de serem desmobilizados os recursos, as lideranças, as caravanas e as estruturas de coordenação destinadas à vitória nas urnas –como sempre se fez - chegou a hora de fincar um divisor de águas.

Voltar às bases; organizar a sociedade; reatar o diálogo no campo da esquerda.

Para fazer diferente do que a frente única do conservadorismo apregoa para o Brasil nesse momento não basta lutar por nomes no ministério do novo governo.

Quanto vale um general sem exércitos?

O ministério mais importante hoje é aquele capaz de coordenar as linhas de passagem para um novo ciclo econômico repactuando metas, concessões, prazos, avanços e salvaguardas com o conjunto das forças sociais.

Esse ministério não fica em Brasília. Seu endereço: metabolismo do movimento social brasileiro, sem número, sem sede, sem articulação intersetorial, sem mídia abrangente, sem canais com a opinião pública, sem...

Se o campo progressista não  dispõe de força sequer para aprovar conselhos populares de natureza consultiva, que chance existe de vingar uma regulação da mídia, prevista aliás desde a Constituição de 1988 e nunca posta em prática? (Leia a análise de Venício Lima; nesta pág).

Mais que isso.

Quem adiciona coerência à macroeconomia do desenvolvimento é correlação de forças da sociedade em cada época.

O colapso neoliberal trouxe para o colo do governo uma crise da qual a Nação é vítima e não sócia; as forças progressistas são adversárias, não coautoras.

O nome da crise não é PT, não é Petrobrás, não é intervencionismo.

O nome da crise é a desenfreada ferocidade com que capitais especulativos impuseram um padrão global de taxa de retorno irreproduzível na economia sem níveis asiáticos de exploração da mão de obra.


O nome da crise é a ausência de instituições internacionais com poder de coordenação sobre essas matilhas – e de contrapartidas locais de contenção na forma de controles efetivos sobre os fluxos de capitais.

É tudo isso que subtrai o chão firme de governos progressistas nas diferentes  latitudes econômicas.

No Brasil com uma agravante, como mostram os acontecimentos nas horas que urgem.

O cerco conservador derrotado nas urnas sentiu o cheiro das feridas abertas no adversário. E decidiu emendar um terceiro turno de golpismo paraguaio, corroendo a vontade das urnas por dentro das instituições.

Nas páginas de economia martela-se a contrapartida macroeconômica do putsch branco: o dirigismo (leia-se o pré-sal) e a gastança fiscal (leia-se o salário mínimo e os programas sociais) são incompatíveis com a necessária redução do juro para a retomada do investimento.

Em miúdos: para voltar a crescer o país precisa de algo que o governo reeleito é incapaz de propiciar, a menos que se renda incondicionalmente ao programa derrotado.

Um xeque-mate?

Não, pelo pequeno detalhe de que as urnas não sufragaram o que seria a pá de cal no projeto de construção de uma democracia social no Brasil.

Ao contrário, dobraram a aposta no caminho.

Não iludidas, não anestesiadas pela propaganda petista, como se dizia antes.

Mas amadurecidas após 12 anos e três sufrágios presidenciais na mesma direção, a ponto de 54,5 milhões resistirem à avalanche de criminalização e demonização do partido portador desse projeto.

É isso que impede o destape final do aluvião de arrocho armazenado no dique do conservadorismo.

Não é café pequeno, portanto, o confronto em marcha batida no país.

Tampouco é negligenciável o fato de que a negociação do quarto ciclo de governo progressista se dá sob a determinação de uma realidade mundial  pior  que a vigente em 2002, 2006 e mesmo em 2010.
A tese de que o Brasil é uma ilha de crise petista cercada de prosperidade neoliberal por todos os lados - da qual inadvertidamente o ‘intervencionismo apartou o país’, faz parte da fabulação criada para engessar o novo governo.

O desempenho das exportações, por exemplo, tem sido decepcionante urbi et orbi. Da Alemanha de Merkel, aos EUA de Obama. E a Organização Mundial do Comércio (OMC) prevê que o oxigênio externo ficará ainda mais rarefeito.

A expansão prevista para o comércio mundial em 2015 recuou de 5,3% para 4%, sujeita a novos recortes; bancos brasileiros já trabalham com 3%, para menos.

A ideia genial dos armínios globais de arrochar o consumo interno e deslocar a oferta de cada economia para a demanda do vizinho colidiu com as leis da física.

Na medida em que todos pularam de cabeça no cocho alheio, a busca da  ração transformou-se em anemia coletiva.

Nesse ambiente entupido de produção sem demanda, com elevada capacidade ociosa na indústria, o mercado popular criado no Brasil nos últimos 10 anos (53 milhões de pessoas, que formam a 16ª economia do mundo, com credenciais para o G 20) representa um trunfo inestimável. 
Mas a moeda valorizada há duas décadas fragiliza essa conquista, transformando-a em um aspirador de importações, com os efeitos depressivos na produção, no emprego e no investimento industrial.

Reverter esse flanco é crucial.

Não tanto para redimir as exportações, pelas razões expostas acima. Mas para preservar principal usina de produtividade da economia, sem a qual não haverá excedente econômico a negociar em uma sociedade que reclama novos saltos de qualidade de vida, renda e direitos.

A defesa da industrialização, portanto, é indissociável do projeto vitorioso nas urnas de outubro, que pressupõe a repactuação de uma matriz de crescimento ordenada pela justiça social.

Não será um processo isento de algum sacrifício programado, alerte-se. Negociado democraticamente, porém, disporá de salvaguardas associadas a um calendário de ganhos progressivos.

A composição do novo ministério da Presidenta Dilma é um pedaço dessa negociação.

Mas é só uma das múltiplas rodadas que vão se estender pelos próximos quatro anos, com uma peculiaridade: e Karl Marx redivivo sucedesse ao keynesiano Guido Mantega pouco espaço teria para colocar em prática suas convicções, diante da correlação de forças interna e internacional.

Modificá-las implica organizar a sociedade para que o resultado da urna se traduza em um poder efetivo de pressão nos embates à vista.

O estiolamento dessa referência organizada nos últimos anos talvez explique um pedaço significativo dos 48 milhões de votos obtidos pelo conservadorismo na disputa presidencial.

O ciclo progressista iniciado em 2003 libertou 60 milhões de brasileiros da calcificação  social .

Supunha-se que isso teria mudado a geografia política do país de forma irreversível nos marcos da legalidade. A quase derrota eleitoral em diferentes momentos da disputa presidencial de 2014 mostrou que essa mutação ademais de inconclusa no campo social é volátil na sua  inexistente organização política.

O que mais o PT tem a dizer a esse universo que ascendeu ao consumo e, sobretudo, como pretende que ele assuma o comando efetivo de seu destino rumo a uma cidadania plena?

Esse é o ministério que o campo progressista precisa ocupar com infatigável determinação no mais breve espaço de tempo: o ministério da mudança na correlação de forças e da hegemonia histórica na sociedade brasileira.

As urnas lhe deram quatro anos para isso.

Se falhar de novo, dificilmente haverá uma chance tão cedo outra vez.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

As lições da vitória de Dilma




http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/As-licoes-da-vitoria-de-Dilma/4/32115




Carta Maior, ​28/10/2014
 


As lições da vitória de Dilma



Por Francisco Fonseca




​A reeleição da presidente Dilma, por pouco mais de 3% dos votos, necessita ser refletida profundamente, uma vez que encerra muitas lições. Este artigo focará em alguns aspectos fundamentais, a começar pelo sentido da polarização social/eleitoral verificada.

A grande polarização social, referente a classes sociais, no país (revestida por elementos geográficos), revela um fenômeno curioso: embora os Governos Lula e Dilma, até aqui, tenham feito alianças de classes e políticas incrementais, sem qualquer enfrentamento às elites e aos grandes interesses (capital financeiro, bancos, dívida interna, agronegócio, mídia, sistema político e tributário etc), as classes médias e superiores e parte dos ascendentes têm no PT seu inimigo de morte. Em outras palavras, parece que estamos na Venezuela, sem que haja Chaves nem chavismo! Lá os detentores históricos do poder e de privilégios têm de fato razões – à luz de suas perspectivas – para odiar o chavismo. Afinal, foram feitas inúmeras reformas, inclusive constitucionais, que alteraram fortemente a relação entre as classes sociais e levaram à polarização radical entre essas e os partidos políticos.

No Brasil, ao contrário, o “pacto de classes de todos com todos” permitiu a convivência, embora contraditória, entre agronegócio e sem-terra, lucros bancários exorbitantes e ampliação do crédito, apoio simultâneo a grandes empresas (via BNDES, por exemplo) e ao “pequeno empreendedor”, coalizão conservadora de partidos e participação popular, entre inúmeras outras.

Apesar desse modelo assentado no pacto – conservador por excelência –, que enquadra as reformas ao incrementalismo, possibilitando avanços apenas nas “franjas”, houve inúmeros e inéditos avanços. Avanços esses que, contudo, poderiam ser muito mais significativos. Ainda assim as manchas eleitorais mostram precisamente os locais onde Dilma e Aécio venceram, opondo claramente ricos e pobres. Mais ainda, a violência verbal e simbólica, desferida pela campanha do PSDB aos apoiadores de Dilma, expressa o vigor e a latência do “ódio de classe” vigente no Brasil. Mal comparando, da mesma forma que Hitler não inventou o antisemitismo, também o PSDB não inventou o “ódio” das classes médias e superiores aos pobres: em ambos os casos eram latentes, mas foram organizados – no sentido gramsciano –, enquadrados e vocalizados respectivamente por lideranças e partidos. No caso brasileiro, Aécio se parece com Capriles – o líder venezuelano opositor do chavismo – e o PSDB é cada vez mais um partido de direita, cujo apego ao poder, independentemente dos votos, o aproxima da UDN. Esse livre “passeio histórico” se concatena na tentativa de compreensão do fenômeno que dividiu o país quase ao meio.

Afinal, o aparato ideológico/midiático – representado pela esmagadora maioria de rádios e tvs (que são concessões públicas), jornais e revistas (na quase totalidade), portais (vinculados à grande mídia) e mundo virtual como um todo (no caso, vinculado a essa direita), que tentou golpear ostensivamente a democracia, cujo ápice foi a farsa grotesca da “revista” Veja, em parceria com a Rede Globo – atuou em estreita articulação com o PSDB. Para sorte do Brasil, e particularmente dos pobres e dos democratas, foram derrotados!

De toda forma, a primeira grande lição é que “pactos de união” com esses grupos sociais não garantem absolutamente nada, uma vez que, mesmo sem grandes interesses contestados, quiseram golpear a democracia até o último minuto... e não pararão se não se reformar o sistema político e o sistema midiático e se não se ampliar a participação popular.

A “Venezuela brasileira” deu-se mesmo sem o “radicalismo” chavista. E está e estará pronta para novos golpes. Tais elites não aceitarão a derrota (não por acaso já falam em impeachment da presidente Dilma!), tal como Carlos Lacerda e a UDN o fizeram de forma contumaz.

Portanto, para além dos inúmeros erros do PT, a começar pelo sua tímida capacidade de enfrentar poderes grandiosos e por sua lógica de “jogar o jogo, sem alterá-lo”, que claramente chegou ao fim, a direita raivosa ganhou músculos e considera que poderá vencer daqui para frente – pelo volto e/ou pelo golpe –, ancorada no bastião do atraso: o estado de São Paulo.

Nesse cenário, e com um Congresso mais fragmentado e mais conservador, somente a intensa participação popular e social poderá forçar a realização de reformas: do sistema político, da mídia, tributária, entre outras.

De fato, um “novo governo” precisará emergir: mais popular e participativo, mais à esquerda e mais ousado para enfrentar grandes interesses constituídos. Mas que atue de forma inteligente, articulando-se tática e estratégia com vistas a promover mudanças políticas e sociais.

As mudanças políticas passam pela desprivatização da vida pública, cuja âncora a ser alterada é o financiamento privado, notadamente empresarial, das campanhas e partidos, e pela maior representação dos partidos políticos, diminuindo o peso dos “partidos de aluguel”; pela aprovação da Política Nacional de Participação Social; pela regulamentação da Constituição quanto à mídia, pela aprovação do marco legal da mídia e pelo impedimento do oligopólio que, por seu turno, passa pela revisão da maneira como as concessões e renovações das concessões são feitas. A Lei de Meios é um exemplo exitoso a ser pensado.

Quanto à reforma tributária, o grande objetivo é não apenas taxar as grandes fortunas, mas também reverter a trágica situação de serem os pobres os que mais pagam impostos.

Do ponto de vista social (e trabalhista), o impedimento à derrogação da CLT, intentado fortemente, e parcialmente ocorrido com a introdução da PJ (Pessoa Jurídica), ao lado da garantia do emprego e renda e do gasto social – que deve ser ampliado –, são tarefas fundamentais.

A lista é longa e os compromissos assumidos em campanha são fundamentais para tanto.

Por fim, o grande vitorioso dessa campanha foi a militância: os milhares de apoiadores, militantes, simpatizantes e pessoas comuns que se empenharam cotidianamente para discutir política. Sentiram o que tinham a perder com a dupla Aécio/Armínio e se mobilizaram. Foi, portanto, o cidadão comum o grande agente da vitória de Dilma. A eles, e particularmente aos pobres, é que o segundo Governo Dilma deve se voltar de maneira efetiva.

Reitere-se que algumas tarefas saltam aos olhos: enfrentar a lógica do sistema político, isto é, mudar as regras do jogo; enfrentar o oligopólio oligárquico da mídia, cujo golpismo não tem limites; inverter as premissas do sistema tributário; manter o mercado interno, o emprego, o salário, a renda e os direitos sociais, ampliando-os (por exemplo, por meio do aumento do gasto social referente ao PIB); consolidar a política exterior plural, para além do eixo norte/sul, reforçando os Brics; enfrentar os aspectos perversos do agronegócio, a começar pela dotação orçamentária; rever a dívida interna e avançar rumo a novas formas de desenvolvimento; estabelecer um ciclo virtuoso de crescimento produtivo, impedindo a liberdade dos capitais especulativos; entre inúmeros outros pontos de uma agenda de desenvolvimento econômico/social/ambiental. Em outras palavras, “radicalizar” a democracia, num contexto de crescimento e distribuição de renda.

Sem isso, o golpismo lacerdista, travestido pelo PSDB, permanecerá atuando, em parceria com a mídia e com outros aparatos ideológicos e econômicos, aprofundando o “ódio” de classe.

Adotar políticas específicas às classes médias, notadamente as ascendentes, será fundamental, mas não na perspectiva carcomida do “pacto de todos com todos”, que apenas produz reformas incrementais e nas margens e protegem os interesses essenciais das elites!

O segundo governo Dilma será essencial e estratégico não apenas para os próximos 4 anos, mas para um projeto político de mais longo prazo, e que claramente não se completa em 16 anos.​