terça-feira, 30 de setembro de 2014

Com a bíblia numa mão e uma arma na outra




http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Cultura/-Viemos-em-paz-com-uma-biblia-numa-mao-e-uma-arma-na-outra/39/31906




Carta Maior, 30/09/2014


"Viemos em paz": com uma bíblia numa mão e uma arma na outra



Por Léa Maria Aarão Reis



"Eles dizem: ‘viemos em paz’. Com uma Bíblia numa mão e com uma arma na outra," diz, sardônico, um velho africano se referindo à neocolonização do Sudão do Sul por um dos inúmeros grupos predadores do seu país e desse continente rico em hidrocarbonetos, água e recursos naturais que está sendo dilapidado.

Os grupos são uma triste vitrine de um dos piores aspectos da globalização: agências internacionais – inclusive ONGs, algumas de duvidosa fama -; frios funcionários da ONU e da Usaid; poderosas corporações chinesas; mercenários treinando exércitos locais; especialistas na localização de campos de milhares de minas a serem desenterradas (deixadas por levas  anteriores de colonizadores); mercadores de armas pesadas que desembarcam sem pudores e sem cessar, nos portos e em pistas semi-clandestinas sua letal mercadoria; senhores da guerra; políticos corruptos que se venderam aos estrangeiros amealhando as fortunas depois gastas nos hoteis cinco estrelas de Paris; e, naturalmente, missionários norte-americanos firmemente dispostos a implantar um “novo Texas” no Sudão do Sul. "O clima aqui é ótimo; até parece com o nosso”, diz a missionária ao chegar na África, companheira de outra catequista tentando vestir os rapazes com jeans e calçar meias e sapatos no garotinho africano apavorado, chorando convulsivamente.

Ou o professor da escola que proíbe as meninas de assistirem aulas usando seus belos ornamentos, brincos, colares, pulseiras.

Num monitor de televisão, vê-se Hillary Clinton, ainda no seu reinado como secretária de estado do governo do presidente afroamericano Barack Obama dirigindo-se à população, candidamente, três anos atrás, quando do plebiscito que fatiou o Sudão em dois: "A África pode ser o celeiro (de alimentos) do mundo," diz a ex-secretária. Hoje, um terço da população do Sudão do Sul sofre de "insegurança alimentar". Eufemismo técnico de organismos das Nações Unidas para pessoas que sentem fome e engrossam as estatísticas dos que morrem pele e osso.
O filme do belga Hubert Sauper, We come as friends (seu título é uma irônica alusão aos herois da ficção cientítica que se apresentam aos alienígenas – “nós viemos como amigos” portando temível metralhadora para garantir a tal paz porque ninguém é de ferro) ganhou o Peace Film Prize do Festival de Berlim deste ano e sacudiu o primeiro fim de semana do Festival do Rio.

Viemos em paz (produção da França e da Áustria deste ano) é demolidor. Não é panfletário. Tem estilo, é seguro, trabalho de profissional talentoso que usa uma câmera viva, uma montagem esperta e segura o tema espinhoso em sua mais de uma hora e meia de duração, musicado pela bela trilha de tristes e lânguidas canções. Deixa, no fim, uma plateia sem voz.
Espera-se que o filme de Sauper, resultado de sua viagem em avião monomotor voando a 4000 metros e a 120 quilômetros de velocidade sobre o Sudão seja adquirido para exibição no Brasil ou disponibilizado no youtube para consumo gratuito.

Ele é um dos 130 documentários exibidos na mostra do Rio. São mais de 20 dos filmes, alguns denunciando o que se passa no nosso mundo cão. Relembra pretensões coloniais decisivas. A França, indo em paz até as região ricas em petróleo para expandir um império do Índico ao Atlântico, num movimento horizontal, e a Grã Bretanha chegando em paz para dominar o continente num movimento vertical, do delta do Nilo ao Cabo.

O filme alude à bizarra figura do presidente do Sudão do Sul, Salva Kiir, cujo inseparável chapéu de cauboi é presente de seu amigo George W. Bush. (Talvez de então a obsessão de fundar um “novo Texas” no pobre rico Sudão do Sul cristão e canibalizado.)

Dividir para governar melhor – o velho bordão dos colonizadores ingleses deu certo na região. Tudo começou quando eles chegaram, décadas atrás, nos dando armas para matarmos elefantes, diz um personagem entrevistado. Outro, um engenheiro chinês entrevistado dentro do conteiner à prova de bala construído para a hora de recreio dos funcionários, na gigantesca refinaria onde trabalha. Todos profissionais chineses, é claro, porque os sudaneses são faxineiros. Outros trabalham para terem o que comer à noite. Entre um jogo e outro de pingue-pongue o chinês ri e comenta, provocador: quem era mesmo aquele presidente americano que dizia ‘eu tenho um sonho’?

Dez por cento das terras do Sudão do Sul pertencem hoje a grandes corporações. No celeiro de alimentos do mundo as pessoas enlouquecem (como se vê no filme) e morrem de fome.

É instrutivo ver o filme de Sauper, 48 anos, autor também de outro premiado documentário, O pesadelo de Darwin (2004), sobre a extinção de espécies de peixes do lago Victoria, na Tanzânia, a alimentação primordial dos povos da região pelos colonizadores da década dos anos 60.

Com Viemos em paz nos é dado relembrar que o Brasil, há pouco, acabou de sair do chamado mapa da fome fugindo assim definitivamente ao destino de espoliado reservado aos países com instituições mais frágeis, porém ricos em cobiçadas reservas de petróleo.

EUA intensificam renovação do arsenal de armas nucleares




http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/09/1524209-eua-intensificam-renovacao-do-arsenal-de-armas-nucleares.shtml


Folha.com, 30/09/2014

EUA intensificam renovação do arsenal de armas nucleares



WILLIAM J. BROAD
DO "NEW YORK TIMES", EM KANSAS CITY
DAVID E. SANGER
DO "NEW YORK TIMES", EM WASHINGTON




Uma nova e ampla fábrica em Kansas City, no Missouri, produz as entranhas mecânicas das ogivas atômicas dos Estados Unidos.
Maior que o Pentágono, cheia de equipamentos futuristas e milhares de trabalhadores, a fábrica, inaugurada em agosto, moderniza as armas envelhecidas que o país pode disparar de mísseis, bombardeiros e submarinos. 


National Nuclear Security Administration/The New York Times





Obama expandiu instalações para produção de armas nucleares, como o Complexo Y-12, no Tennessee



Ela faz parte de uma onda nacional de revitalização atômica que inclui planos de uma nova geração de veículos para transporte de armamentos. Um recente estudo federal calculou o preço total em US$ 1 trilhão (R$ 2,4 trilhões) nas próximas três décadas.
Essa expansão ocorre sob um presidente que fez do desarmamento um dos principais objetivos da política de defesa americana.
A ideia era que uma reconstrução modesta do complexo nuclear decadente do país acelerasse a reposição de armas, aumentando a confiabilidade do arsenal e abrindo caminho para tratados que reduziriam de maneira significativa o número de ogivas nucleares.
Em vez disso, por causa de acordos políticos e de crises geopolíticas, o governo Obama está se envolvendo em uma extensa reconstrução atômica, enquanto consegue apenas uma modesta redução de armamentos.
Com a Rússia no rumo bélico, a China pressionando com suas reivindicações territoriais e o Paquistão expandindo seu arsenal, as chances gerais para o legado de desarmamento do presidente Obama parecem cada vez mais tênues, segundo analistas.
O Congresso manifestou menos interesse nas reduções atômicas do que em parecer firme no confronto crescente entre os governos de Washington e Moscou.
"O modificador de jogo mais fundamental é a invasão da Ucrânia por Putin", disse Gary Samore, principal assessor nuclear de Obama em seu primeiro mandato e hoje professor em Harvard. "Ela tornou politicamente impossível qualquer medida para uma redução unilateral do arsenal."
Isso é ótimo para os "falcões". Eles creem que os investimentos colocam os EUA em posição mais forte em caso de uma nova corrida armamentista. Na verdade, as fábricas que Obama aprovou para uma força menor de armas mais precisas e confiáveis poderia, sob outro presidente, permitir a rápida expansão do arsenal.
No final, porém, a realidade orçamentária pode ter mais força que as filosofias nucleares para conter a escalada atômica. "Não há dinheiro suficiente", disse Jeffrey Lewis, do Instituto de Estudos Internacionais em Monterey, especialista no esforço de modernização. "Será um fracasso."
Em relatórios abertos e secretos para o Congresso, Obama expôs seus planos de renovação atômica, cujo custo o Departamento de Orçamento do Congresso estimou em US$ 355 bilhões (R$ 852 bilhões) nos próximos dez anos. Mas esse é apenas o início.
O preço vai disparar depois de dez anos, quando mísseis, bombardeiros e submarinos feitos no século passado chegarem ao fim de suas vidas úteis e forem construídos substitutos.
O principal trabalho na fábrica de Kansas City, que substitui uma instalação mais antiga que era constantemente inundada, é prolongar a vida de uma ogiva de submarino chamada W-76, que já tem 40 anos. Aproveitando milhares de peças, os trabalhadores tentam fazê-la durar 60 anos - o triplo do planejado originalmente.
Mas, se a fábrica de Kansas City é a joia da coroa no esforço de modernização, outros projetos são o lembrete de que muitos bilhões ainda deverão ser gastos.
No Laboratório Nacional Los Alamos, no Novo México, berço da bomba atômica, planos de um novo complexo para produzir combustível de plutônio surgiram há uma década, com orçamento de US$ 660 milhões (R$ 1,58 bilhão).
Mas grupos antinucleares divulgaram detalhes embaraçosos, como a descoberta de uma falha geológica no local. O custo estimado disparou para US$ 5,8 bilhões (R$ 13,9 bilhões), e em 2012 o Obama suspendeu o projeto.
E o custo de um projeto de atualização do Complexo de Segurança Nacional Y-12 em Oak Ridge, no Tennessee, subiu de US$ 6,5 bilhões (R$ 15,6 bilhões) para US$ 19 bilhões (R$ 45,6 bilhões). O governo Obama suspendeu o projeto, e o laboratório está lutando para modificá-lo.
A diferença gritante entre planos de trilhões de dólares e orçamentos apertados começa a chamar a atenção de Washington.
Uma nova geração de mísseis, bombardeiros e submarinos "é impraticável", declarou em julho um painel independente bipartidário encomendado pelo Congresso e o Departamento da Defesa. O investimento total, segundo o painel, "provavelmente sairia às custas de melhoramentos necessários nas forças convencionais".
Em agosto, a Casa Branca anunciou que revisaria os planos de gastos atômicos, preparando-se para o pedido de orçamento do ano que vem ao Congresso, que definirá os gastos federais para o ano fiscal de 2016.
"Este é o orçamento do legado de Obama", disse uma autoridade graduada, sob a condição do anonimato por causa da delicadeza política do tema. "É sua última chance de fazer as opções difíceis e definir prioridades."

Tradução de LUIZ ROBERTO GONÇALVES


http://prof-adjr.blogspot.com.br/2012/02/arsenal-nuclear-cabe-as-nacoes-mais.html




Arsenal Nuclear
Cabe às nações mais armadas do mundo zelar pela paz na Terra. Pode parecer estranho, mas os 5 países com direito a veto no Conselho de Segurança da ONU são exatamente os únicos capazes de atingir qualquer parte com suas armas nucleares. EUA, China e Rússia têm mísseis intercontinentais, os temidos ICBMs. França e Reino Unido reúnem a força em submarinos, capazes de se deslocar pelo mar em busca de alvos. O clube, porém, tem outros sócios. Israel, Paquistão e Índia já têm suas bombas.Coréia do Norte e Irã fazem pesquisas e podem estar chegando lá. Tudo em nome da paz mundial, é claro.
 
EUA
Ninguém investe mais em armas nucleares: são US$ 6,4 bilhões por ano.
Ogivas operacionais:5 235
Principal míssil: Minuteman 3
Poder de destruição:3 ogivas de 335 quilotons
Lançamento: Em 1 min
Velocidade: 24 000 km/h
Alcance: 10 000 km
Tempo para impacto: Pequim: 23 min / Moscou: 20 min
 
Rússia
Tem o melhor míssil do mundo, impossível de ser interceptado.
Ogivas operacionais:3 500
Principal míssil: Topol-M
Poder de destruição:1 ogiva de 550 quilotons
Lançamento: Em 2 min
Velocidade: 24 000 km/h
Alcance: 10 500 km
Tempo para impacto: Nova York: 20 min / Los Angeles: 26 mm
 
China
Sem bases no exterior, o país teve de construir o míssil com maior alcance.
Ogivas operacionais: 130
Principal míssil: DF-5A
Poder de destruição: 1 ogiva de 4 000 quilotons
Lançamento: 45 a 60 min
Velocidade: 24 000 km/h
Alcance: 13 000 km
Tempo para impacto: Washington: 31 min / Los Angeles: 28 min
 
França
83% de seu arsenal está em submarinos, que se aproximam dos alvos pelo mar.
Ogivas operacionais: 350
Principal míssil: M45
Poder de destruição: 6 ogivas de 100 quilotons
Lançamento: Em até 15 min
Velocidade: 12 000 km/h
Alcance: 6 000 km
Tempo para impacto: Depende da localização do submarino.
 
Reino Unido
Os 4 submarinos Vanguard são as únicas bases de lançamento britânicas.
Ogivas operacionais: 200
Principal míssil: Trident 2 D5
Poder de destruição: 3 ogivas de 100 quilotons
Lançamento: Em até 15 min
Velocidade: 21 000 km/h
Alcance: 7 400 km
Tempo para impacto: Depende da localização do submarino.
 
Índia
Sabe-se pouco sobre seu arsenal, mas já fez testes nucleares bem-sucedidos.
Ogivas operacionais: Entre 40 e 50
Principal míssil: Agni 2
Poder de destruição: Testes mostram potência de até 25 quilotons.
Lançamento: Em 15 min
Velocidade: 11 000 km/h
Alcance: 2 500 km
Tempo para impacto: Islamabad: 4 min / Chongqing: 10 min
 
Paquistão
A fronteira com a Índia é um dos mais possíveis cenários de guerra nuclear.
Ogivas operacionais: Entre 30 e 50
Principal míssil: Shaheen 2
Poder de destruição: Testes mostram potência de até 12 quilotons.
Lançamento: Em 7 min
Velocidade: 12 240 km/h
Alcance: 2 500 km
Tempo para impacto: Nova Délhi: 3 min / Dhaka: 10 min
 
Israel
A política oficial é não negar nem confirmar a posse de armas nucleares.
Ogivas operacionais: 200
Principal míssil: Jericho 2
Poder de destruição: Não se sabe
Lançamento: Não se sabe
Velocidade: 10 800 km/h
Alcance: 1 500 km
Tempo para impacto: Teerã: 9 min / Cairo: 3 min

 
Coréia do Norte
Seu arsenal nuclear é um mistério.
Ogivas operacionais: Não se sabe
Principal míssil: Taepo Dong 1
Poder de destruição: Não se sabe
Lançamento: Não se sabe
Velocidade: 18 000 km/h
Alcance: 2 000 km
Tempo para impacto: Tóquio: 3,5 min / Okinawa: 5 min

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Por que Levy Fidelix fala o que quer e nada acontece



http://www.cartacapital.com.br/politica/por-que-levy-fidelix-fala-o-que-quer-e-nada-acontece-3609.html




Carta Capital, 29/09/2014


Por que Levy Fidelix fala o que quer e nada acontece



Por Jean Wyllys




O "combate contra essa minoria" que o candidato Levy Fidelix propôs ontem na TV Record já começou a dar frutos: num comentário publicado na web da Folha de São Paulo, um sujeito chamado Alan Whitney (esse é o nome que ele usa na rede social, não sei se é verdadeiro ou um alias) me ameaça de morte: "Temos que destruir isso na raíz e matar Jean Wyllys", ele disse, fazendo referência à apelação de Fidelix. Não é a primeira vez que eu sou ameaçado e já teve um caso de um criminoso fascista e homofóbico com um plano para me matar que foi desarticulado pela Polícia Federal, que o apreendeu.
Mas agora eu peço a vocês que fechem os olhos e imaginem a seguinte cena: durante o debate presidencial, ao vivo, um dos candidatos diz, referindo-se aos judeus: "Nós somos a maioria e vamos combater essa minoria". Ou então, referindo-se aos negros, alude ao excremento: "Aparato excretor não reproduz". Em rede nacional! Qual teria sido a reação do moderador do debate? E a dos outros candidatos? A platéia teria rido, como riu ontem quando o candidato Levy Fidelix usou essas expressões para se referir aos homossexuais, como se fosse engraçado? Qual seria a manchete dos jornais de hoje? O Ministério Público teria feito alguma coisa? E a justiça eleitoral? Ele seria convidado ao próximo debate?
A história tem exemplos práticos que mostram as consequências dessa prédica. Adolf Hitler também achava que os judeus eram uma minoria nojenta que devia ser "combatida" e isso custou uma guerra mundial e mais de seis milhões de mortos — tanto judeus quanto homossexuais, ciganos, comunistas, deficientes e outros grupos que o nazismo escolheu como inimigos públicos do povo alemão. Não aprendemos nada?
A naturalização do discurso de ódio e da incitação à violência contra a população LGBT é assustadora. E ainda tem gente que acha que tudo isso é liberdade de expressão ou opinião. Enquanto isso, assistimos ao recrudescimento da violência letal contra gays, lésbicas, travestis e transexuais. Nas últimas semanas, foram vários casos. Um candidato gay do PSOL do Amapá recebeu ameaças homofóbicas e, dias depois, uma pedrada na cabeça, e acabou no hospital. Um menino gay de 19 anos foi sequestrado, torturado e queimado vivo durante um "ritual de purificação" em Betim, Belo Horizonte. Sobreviveu, foi socorrido por amigos que o levaram ao hospital e acharam ao lado dele, que estava inconsciente, uma nota que dizia que o grupo que o atacou faria "uma limpeza em Betim (para) trazer o fogo da purificação a cada um que andar nas ruas declarando seu ‘amor’ bestial". Outro jovem gay de 19 anos, em Interlagos, São Paulo, foi espancado e sofreu uma tentativa de estupro. “Você quer ser mulher? Então agora vai apanhar como mulher”, falaram para ele. Tudo isso em uma semana.
O "combate" que Levy Fidelix propôs durante o debate presidencial não é, como ele diz, da "maioria heterossexual" contra a "minoria homossexual", porque a maioria dos heterossexuais não tem o pensamento doentio desse canalha. Quem agride, espanca, mata e espalha ódio é uma minoria fundamentalista e fascista — minoria, felizmente, mas altamente perigosa — que se sente legitimada pelo discurso de ódio de pessoas como Levy, Feliciano, Bolsonaro, Malafaia e outras figuras caricatas como eles.
O problema não é a estupidez deles, mas a omissão daqueles que deveriam reagir desde o governo, o parlamento e a justiça. Se o discurso de Levy Fidelix  consegue ser pronunciado em rede nacional sem causar as reações que deveria numa sociedade civilizada, é porque o Brasil não tem políticas públicas de promoção da igualdade, afirmação dos direitos civis da população LGBT e combate ao preconceito que se abate sobre ela.
É porque o governo federal cancelou o programa "Escola sem homofobia", é porque o Congresso ainda se omite da sua responsabilidade na aprovação das leis de casamento igualitário e identidade de gênero (ambos os projetos de minha autoria junto com a deputada Érika Kokay), é porque a candidata Marina jogou no lixo o programa que seu partido tinha elaborado com excelentes propostas para a comunidade LGBT, é porque o candidato Aécio não se posiciona diante dos escandalosos projetos homofóbicos de deputados do PSDB, como o projeto de "cura gay" de João Campos, é porque os grandes partidos fazem alianças com os fundamentalistas em troca de apoio eleitoral, palanques e tempo de TV. A maioria da classe política brasileira não tem coragem de enfrentar o discurso de ódio e continua refém da chantagem dos vendilhões do templo.
Com relação a Levy Fidelix, meu mandato vai entrar na justiça, junto com a candidata Luciana Genro, para que seja punido de acordo com a legislação eleitoral. A prédica de ódio não cabe na democracia. Mas não podemos reduzir o problema a essa figura caricata e estúpida. Toda a dirigência política democrática do Brasil deveria fazer já, agora mesmo, um pacto nacional contra o preconceito e a favor da cidadania da população LGBT, com uma agenda positiva de afirmação de direitos e políticas públicas que comprometa o próximo governo e a próxima legislatura, independentemente de quem resultar vencedor das eleições de 5 de outubro. É urgente e não dá mais para tolerar a omissão de quem tem responsabilidades e poder para acabar com esta loucura.





http://eleicoes.uol.com.br/2014/noticias/2014/09/29/oab-pede-cassacao-da-candidatura-de-fidelix-por-declaracoes-homofobicas.htm



UOL, 29/09/2014


OAB pede cassação da candidatura de Fidelix por declarações homofóbicas


James Cimino

Do UOL, em São Paulo



A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) pediu ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) a cassação da candidatura de Levy Fidelix (PRTB) e direito de resposta às declarações homofóbicas ditas pelo candidato durante debate ocorrido na "TV Record" na noite deste domingo (29).
O deputado Renato Simões (PT-SP) também acionou o candidato. A primeira representação foi feita à Procuradoria Regional Eleitoral do Ministério Público Federal, instituição cujo procurador-geral, Rodrigo Janot, recentemente se pronunciou pela adoção do crime de discriminação previsto na legislação contra o racismo para embasar processos por homofobia.
Outra junto à comissão especial da lei 10.948, que pune a homofobia no Estado de São Paulo, de autoria do próprio Renato quando deputado estadual, que funciona junto à Secretaria de Justiça e Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo.
"Esperamos que a impunidade não alcance Fidelix, pois seu comportamento como candidato à Presidência da República não pode estimular o preconceito, a discriminação e a violência contra LGBTs em todo o país", disse o deputado.
Segundo ele, Fidelix incentivou uma reação da sociedade contra os LGBTs. Como a lei 10.948 é estadual, o candidato não será imputado criminalmente, mas poderá ter de pagar multa ou sofrer outras sanções.
O candidato do PV à presidência, Eduardo Jorge, também fez solicitação semelhante ao Ministério Público. A representação pede que se instaure inquérito/processo crime pelo desrespeito à dignidade humana e igualdade de direitos.
"Hoje cedo já mobilizei o Jurídico do Partido Verde e o PV Diversidade, na figura de André Pomba, e entramos hoje no Ministério Público, em São Paulo, com uma representação contra Levy Fidélix pelas declarações homofóbicas no debate de ontem. Para nós, mesmo sem essa legislação explicitamente aprovada no congresso, julgamos que cabe o processo por incitação à violência e preconceito. O Jurídico do PV também está estudando para amanhã uma ação no TSE".
Luciana Genro e o deputado federal Jean Wyllys, ambos do PSOL, também fizeram o mesmo pedido.
No Facebook, um grupo formado por mais de 6.100 pessoas está coletando dados pessoais para formalizar uma denúncia coletiva à Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos do governo federal.
E a coordenadoria de Políticas para a Diversidade Sexual da Secretaria de Justiça do Estado de São Paulo também vai representar contra Fidelix com base na lei estadual 10.948.
Além disso, diversos usuários de redes sociais têm denunciado o candidato no site do Ministério Público Federal por ferir o artigo 5º da Constituição Federal, inciso XLI, que diz que "a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais", especialmente por ter sido feito em uma emissora de televisão de concessão pública.

A polêmica

Em debate realizado na noite deste domingo (28)pela TV Record, Levy Fidelix associou a homossexualidade com pedofilia e afirmou que gays precisam de atendimento psicológico "bem longe daqui".
As declarações foram dadas após pergunta da candidata Luciana Genro (PSOL), que citou a violência a que a população LGBT é submetida e indagou Levy sobre os motivos pelos quais os que "defendem a família se recusam a reconhecer como família um casal do mesmo sexo."
"Aparelho excretor não reproduz (...) Como é que pode um pai de família, um avô ficar aqui escorado porque tem medo de perder voto? Prefiro não ter esses votos, mas ser um pai, um avô que tem vergonha na cara, que instrua seu filho, que instrua seu neto. Vamos acabar com essa historinha. Eu vi agora o santo padre, o papa, expurgar, fez muito bem, do Vaticano, um pedófilo. Está certo! Nós tratamos a vida toda com a religiosidade para que nossos filhos possam encontrar realmente um bom caminho familiar", afirmou.
Na réplica, Luciana defendeu o casamento igualitário como forma de reduzir a violência contra a população LGBT. Na tréplica, entretanto, Levy subiu o tom e deu a entender que caso fossem dados direitos ao grupo, metade da população sairia do armário.
"Luciana, você já imaginou? O Brasil tem 200 milhões de habitantes, daqui a pouquinho vai reduzir para 100 [milhões]. Vai para a avenida Paulista, anda lá e vê. É feio o negócio, né? Então, gente, vamos ter coragem, nós somos maioria, vamos enfrentar essa minoria. Vamos enfrentá-los. Não tenha medo de dizer que sou pai, uma mãe, vovô, e o mais importante, é que esses que têm esses problemas realmente sejam atendidos no plano psicológico e afetivo, mas bem longe da gente, bem longe mesmo porque aqui não dá", disse.

Saco vazio não para em pé




http://blogs.estadao.com.br/dener-giovanini/marina-silva-se-apequena-ou-melhor-volta-ao-seu-tamanho-original/




Estadão.com, 29/09/2014


Volta ao seu tamanho original

 
 
Por Dener Giovanini



Faltando poucos dias para a derradeira escolha dos eleitores brasileiros, uma tendência se consolida a cada divulgação de novos números das pesquisas: Marina Silva cai, despenca, rola ladeira abaixo. E o motivo para tanto desencanto dos eleitores não são as críticas de seus adversários ou a orquestração de uma “campanha de desconstrução” como bradam seus aliados. Marina Silva cai por uma única razão: saco vazio não para em pé.

A candidata do PSB não subiu nas pesquisas por que tinha propostas interessantes ou por que tinha poder de mobilizar grandes massas de seguidores entusiasmados. Marina só subiu porque o avião caiu. Se não fosse o triste acidente que ceifou a vida de Eduardo Campos, hoje Marina Silva estaria em casa costurando a barra de suas saias, como mostrou a imagem vazada por sua campanha, na tentativa de maquiá-la como uma mulher simples e humilde.

Humildade e simplicidade nunca fizeram parte da personalidade de Marina Silva. E o eleitor percebeu isso ao longo dessa campanha. Nem a sua tentativa de se mostrar como “a ungida” funcionou. Seus xales messiânicos, usados como adereço de fantasia de escola de samba, não conseguiram cumprir o seu papel de capa da mulher maravilha.

Marina Silva despenca porque, na sua tentativa de agradar a gregos e troianos, só conseguiu semear desconfiança, contradições e falsidades. Nessa campanha todos sabem o que exatamente pensam Luciana Genro, Aécio, Dilma, Eduardo Jorge, Pastor Everaldo e até o infame Levy Fidelix. Marina segue sendo uma incógnita.

A desconstrução da candidata do PSB é real e é capitaneada pela própria Marina Silva. Em seus “disse e não disse”, em suas contradições, em suas idas e vindas, em suas mentiras (vide o caso da votação da CPMF no Senado) e, principalmente, em suas constantes submissões a grupos que antes dizia combater, mostraram-na como realmente é: um saco vazio.

Ela se diz vítima da falta de tempo na TV. Os dois minutos a que tem direito pela legislação eleitoral não a impediram de crescer nas pesquisas. Crescer ela cresceu, só não se sustentou. E não se manteve em ascensão por que seus pés de barro ruíram.

A história de vida de Marina Silva lembra o roteiro do filme “A mão do macaco”, onde essa parte da anatomia dos símios era dada de presente às pessoas com o objetivo de realizar seus desejos. E toda vez que alguém recebia a tal “mão” e desejava algo, ele se concretizava. Só que de forma trágica. Lembro-me de uma cena em que um empresário falido e desesperado “pediu” à mão que o ajudasse a conseguir um milhão de dólares. No mesmo instante, o avião em que viajava a mãe do empresário caiu e ele recebeu exatamente um milhão de dólares do seguro de vida da pobre senhora.

Marina Silva é como um tsunami. Eles surgem do desequilíbrio na harmonia natural da vida e deixam marcas de destruição por onde passam. Assim foi sua passagem pelo PT, pelo PV, está sendo agora no PSB e assim será em qualquer outra agremiação partidária que se deixar iludir. E também assim como todos os Tsunamis, sempre acabará na praia, em meio aos entulhos e o desespero daqueles que conseguiram sobreviver.

E o saco vazio continuará seguindo a esmo.

Três armações midiáticas e uma análise



http://www.jornalggn.com.br/noticia/tres-armacoes-midiaticas-e-uma-analise



GGN, 28/09/2014


Três armações midiáticas e uma análise



Armações ilimitadas. Prepare-se para as armações ilimitadas da mídia contra o PT, nesta última semana. Seja forte. Isso vem desde de 1989 quando Lula concorreu pela primeira vez. Retrospectiva: 
 
Rede Brasil Atual
Em 1989, sequestro de Abílio Diniz foi relacionado ao PT e desmentido logo após eleições, mostra pesquisa
Investigação apontou que não houve envolvimento do Partido dos Trabalhadores no sequestro de Diniz. Envolvidos acusaram polícia de obrigá-los a vestir camisa da campanha de Lula. Clique aqui.
 
Teoria e Debate 
2002: Lula derrota a velha mídia
Apesar de simular neutralidade, como mostramos no artigo anterior, depois de ajudar a eliminar Roseana Sarney e afastar Ciro Gomes, o partido midiático coloca toda a sua artilharia contra o inimigo principal, Lula, até porque sua possibilidade de vitória era real, e esse risco a mídia não queria correr. Mas Lula, no segundo turno, no dia 27 de outubro, obteve mais de 61% dos votos válidos, contra pouco mais de 38% para Serra. Clique aqui.
 
Carta Capital
Aloprados e aloprados
Em 2006, jornalista contou a araponga de Cachoeira como escândalo da mala de dinheiro foi usado para prejudicar campanha petista. Clique aqui.
 

 
 

Por Venício A. de Lima 
 


Tão logo as pesquisas revelaram que uma das candidatas à presidência da República havia atingido índices de intenção de voto difíceis de serem revertidos, e que os resultados indicavam a possibilidade de decisão ainda no primeiro turno, a grande mídia e seus "formadores de opinião" reagiram prontamente. Insistiram eles que fatos novos poderiam ocorrer e que ainda era muito cedo para cantar vitória.
 
Um exemplo: sob o título "Festa na véspera", a principal colunista de economia do jornal O Globo escreveu em sua coluna "Panorama Econômico" do dia 31 de agosto:
 
"Então é isso? Uma eleição cuja campanha começou antes da hora acabou antes que os votos sejam depositados na urna? (...) Fala-se do futuro como inexorável. O quadro está amplamente favorável a Dilma Rousseff, mas é preciso ter respeito pelo processo eleitoral. Se pesquisa fosse voto, era bem mais simples e barato escolher o governante."
 
Simultaneamente, a poucas semanas do primeiro turno das eleições, os jornalões, a principal revista semanal e a principal rede de televisão abriram fartos espaços para a divulgação de "escândalos" com a óbvia intenção de atingir a reputação pública da candidata favorita.
 
O primeiro, diz respeito a vazamento de informações sigilosas da Receita Federal ocorridos em setembro de 2009 [antes, portanto, da escolha oficial dos candidatos e do início da campanha eleitoral]. O "escândalo" foi imediatamente comparado com o caso Watergate, que levou à renúncia o presidente dos EUA Richard Nixon, em 1974, e também à prisão de integrantes do PT em hotel de São Paulo, em 2006. A narrativa midiática logo passou a referir-se a ele como "Aloprados II" e/ou "Receitagate".
 
O segundo, que surge tão logo o primeiro parece não ter atingido os objetivos esperados, faz um incrível malabarismo ao tentar incriminar a candidata favorita através de ações de lobby e tráfico de influência atribuídos ao filho de sua ex-auxiliar. Um exemplo: a manchete de primeira página da Folha de S.Paulo de domingo (12/9): "Filho do braço direito de Dilma atua como lobista".
 
O que estaria acontecendo na grande mídia brasileira?
 
Controle e dinâmica
 
Em abril de 2006, no correr da "crise do mensalão", escrevi neste Observatório [ver "Escândalos midiáticos no tempo e no espaço"] sobre o conceito de "escândalo político midiático" (EPM) desenvolvido pelo professor da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, John B. Thompson, em seu aclamado 'O escândalo político – Poder e visibilidade na era da mídia' (Vozes, 1ª edição, 2002).
 
O momento é oportuno para retomar os ensinamentos de Thompson.
 
Os EPM surgem historicamente no contexto do chamado jornalismo investigativo, combinado com o crescimento da mídia de massa e a disseminação das tecnologias de informação e comunicação. E, sobretudo, no quadro das profundas transformações que ocorreram na natureza do processo político, ainda dependente, em grande parte, da mídia tradicional. Envolve indivíduos ou ações situados dentro de um campo ligado à aquisição e ao exercício do poder político através do uso, dentre outros, do poder simbólico. Fundamentalmente, o exercício do poder político depende do uso do poder simbólico para cultivar e sustentar a crença na legitimidade.
 
O poder simbólico, por sua vez, refere-se à capacidade de intervir no curso dos acontecimentos, de influenciar as ações e crenças de outros e também de criar acontecimentos, através da produção e transmissão de formas simbólicas. Para exercer esse poder, é necessário a utilização de vários tipos de recursos, mas, basicamente, usar a grande mídia, que produz e transmite capital simbólico – vale dizer, controla a visibilidade pública. A reputação, por exemplo, é um aspecto do capital simbólico, atributo de um indivíduo ou de uma instituição. O que está em jogo, portanto, num EPM é o capital simbólico do político, sobretudo sua reputação.
 
Como a grande mídia se tornou a principal arena em que as relações do campo político são criadas, sustentadas e, ocasionalmente, destruídas, a apresentação e repercussão dos EPM não são características secundárias ou acidentais. Ao contrário, são partes constitutivas dos próprios EPM.
 
Escândalo político midiático, portanto, é o evento que implica a revelação, através da mídia, de atividades previamente ocultadas e moralmente desonrosas, desencadeando uma sequência de ocorrências posteriores. O controle e a dinâmica de todo o processo deslocam-se dos atores inicialmente envolvidos para os jornalistas e para a mídia.
 
Jogo de poder
 
Na verdade, a grande mídia ainda detém um enorme poder de legitimar a esfera propriamente política através do tipo de visibilidade pública que a ela oferece. Os atores da esfera política dependem de visibilidade na esfera midiática para se elegerem e/ou se manterem no poder. Através desse poder, próprio da esfera midiática, a grande mídia tenta submeter e controlar o processo político, em particular os processos eleitorais. É aí que surgem os EPM.
 
Não seria exatamente a tentativa de controlar a esfera propriamente política o último recurso que a grande mídia – declaradamente oposicionista pela voz da presidente da ANJ – estaria a exercer na construção de EPM a poucas semanas das eleições?
 
Será que o Brasil de 2010 é o mesmo de 2006, quando tentativa semelhante levou as eleições presidenciais para o segundo turno?
 
O que está realmente em jogo é o poder da mídia tradicional – e, por óbvio, dos grupos dominantes do setor – em tempos de profundas transformações nas comunicações. Em tempos de internet.
 
Quem viver verá.
GGN, 29/09/2014


Globo noticia ação terrorista em Brasília associando hotel a Dirceu


 
Por Cintia Alves



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Jornal GGN - Os produtos jornalísticos da Rede Globo parecem reciclar o expediente adotado no sequestro de Abílio Diniz, que mudou os rumos da eleição de 1989, para noticiar uma "ação terrorista" que acontece nesta segunda (29), em Brasília. O portal G1 e a Globo News publicaram que um sequestro ocorre por motivação política no mesmo hotel que pretendia contratar o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu (PT), condenado na Ação Penal 470. 
De acordo com a polícia, por volta das 8h da manhã um homem com cerca de 30 anos deu entrada no hotel Saint Peter. Ele foi de quarto em quarto apenas no 13º andar e pediu que os hóspedes esvaziassem o edifício. Segundo fontes ouvidas no local, não se trata de roubo ou sequestro com a finalidade de pedir algo em troca, mas sim de "terrorismo".
No início desta tarde, cerca de 300 hóspedes já haviam deixado o local. O sequestrador faz de vítima um dos mensageiros do hotel, que aparece frequentemente na sacada de um quarto, portando um cinto que supostamente contém explosivos. A polícia ainda não confirmou essa informação, mas estima que se de fato a carga for real, ela tem potencial para danificar a estrutura do prédio.
A polícia identificou que o sequestrador tentou uma vaga de vereador no Tocantins pela coligação PP, PTB e PSDB, mas não foi eleito. Segundo informações da Globo News, a corporação avalia que o infrator apresenta desequilíbrio emocional e diz que sua motivação é de ordem política. Em frases desconexas, ele pede a extradição de Cesare Battisti e ampliação da Lei da Ficha Limpa.
A emissora também associou o episódio ao hotel que contrataria Dirceu - algo equivalente a associar um acidente na linha do Metrô paulista ao caso Alstom.




























Caso Diniz


Faltando cinco dias para o primeiro turno das eleições, a grande mídia parece insistir em uma bala de prata contra a vantagem da candidata Dilma Rousseff (PT) nas pesquisas de opinião. A lembrança de Dirceu no sequestro de hoje lembra a cobertura de grandes jornais sobre o sequestro do empresário Abílio Diniz, executivo do grupo Pão de Açúcar, em 1989.
Naquele ano, o caso foi revelado às vésperas do segundo turno das eleições. Fernando Collor de Mello (PRN) e Luís Inácio Lula da Silva (PT) disputavam a Presidência. À época, a grande mídia levantou suspeitas sobre o envolvimento do PT no sequestro de Diniz. Após a vitória de Collor, as acusações foram desmentidas. A investigação apontou que os envolvidos na ação foram obrigados a vestir uma camisa da campanha de Lula.

domingo, 28 de setembro de 2014

A ficha caiu



http://www.cartamaior.com.br/?/Editorial/A-ficha-caiu/31884



Carta Maior, 28/09/2014


A ficha caiu


Por Saul Leblon



Nenhuma frase resume de forma tão incisiva o cavalo de pau ocorrido na política brasileira nos últimos 20 dias –a forma como ele se deu, a intensidade do confronto que o desencadeou e os seus desdobramentos para o futuro - quanto o desabafo da presidenta Dilma Rousseff na última 6ª feira.

Em entrevista a um grupo de blogueiros, ‘sujos, ideológicos’, como a eles se refere o higienismo isento, a candidata explicitou assim o divisor que marcará o seu possível segundo mandato: ‘Terei um embate (político) mais sistemático; não serei mais tão bem comportada; me levaram para um outro caminho, que não era o que eu queria’.

Nenhuma liderança responsável escolhe o caminho do embate sistemático como sua primeira opção.

Um chefe de Estado tem obrigação de esgotar as linhas de menor resistência na consecução de seus compromissos.

A rotina de confrontos carente de uma correlação de forças pertinente, não raro imobiliza a sociedade, asfixia a economia, prejudica, em primeiro lugar, os mais pobres.

A história de Dilma não autoriza ninguém a caracterizá-la como uma mulher desprovida de coragem pessoal e política.

São essas referências que adicionam abrangência superlativa ao desabafo da presidenta e candidata.

Mais que isso.

Sua assertiva ecoa um sentimento coletivo no campo progressista. Inclua-se aí o estado de espírito da ala majoritária do PT, da qual faz parte a principal liderança política do partido e do país: Lula.

Em três mandatos presidenciais sucessivos predominou nesses protagonistas a determinação de restringir o confronto direto com os interesses conservadores na faixa de segurança permitida por uma correlação de forças adversa.

O marcador mais significativa dessa adversidade é a própria abrangência da coalizão de governo. O que antes parecia uma contingência administrável –ainda que a um custo político cada vez mais asfixiante— evidenciou nestas eleições os contornos de um ciclo esgotado.

Três fatores convergiram para essa condensação:

1) o desespero conservador com possibilidade de um quarto ciclo presidencial fora do poder –o que poderá significar a morte do PSDB;

2) a redução da margem de manobra na economia, após seis anos de crise mundial, gerando insatisfação e rupturas – entre as quais alinham-se as manifestações de junho do ano passado, e

3) o surgimento de uma candidatura competitiva, capaz de reabrir as portas do poder ao conservadorismo – e a um revival extremado do modelo neoliberal dos anos 90.


No final de agosto esse conjunto formava um aluvião anti-Dilma.

Era tão denso que expoentes do colunismo conservador ejaculavam precocemente a derrota irreversível do ‘lulopetismo’.

O catalisador do êxtase, a candidata Marina Silva, chegou a abrir 10 pontos de vantagem, então, nas enquetes de 2º turno do Datafolha.

O resto é sabido (leia ‘Uma semana para não esquecer’; nesta pág)

O sinal de alarme ensejou no PT o fulminante arremate de uma inquietação disseminada, mas que aguardava o safanão de uma crise para emergir .

Em um encontro de balanço da campanha em São Paulo, dia 5, coube a Lula sintetizar a lição da qual tampouco não se eximia:

‘Nós ficamos economicistas; não nos faltam obras, mas política
, diagnosticou para prescrever o antídoto: ‘Temos que demarcar o campo de classe dessa disputa: é preciso levar a política à propaganda’.

A partir de então a essência radicalmente neoliberal embutida no programa de Marina Silva passou a ser floculada do espumoso caudal de 242 páginas.

O extrato dessa depuração tem sido exposto à luz do sol em uma narrativa pedagógica, determinada a tipificar um a um seus riscos históricos, estratégicos e sociais.

Pertence à mesma mutação em curso o desabafo feito pela Presidenta Dilma na entrevista aos blogueiros, na 6ª feira passada.

Dilma passou a dar nomes aos bois.

Porém, mais que isso.

Anunciou que num eventual novo governo, essa dimensão do embate político, mitigada pela prioridade administrativa da gestão, passará a desfrutar de espaço nobre.

Pode-se argumentar que se trata apenas de um arroubo dirigido a plateia receptiva.

E que tudo voltará a ser como sempre - na verdade, muito pior - caso as urnas de outubro concedam um quarto mandato presidencial ao PT.

Afinal, a fatalidade de um ‘arrocho doloroso’, ganhe quem ganhar, é o novo bordão do jogral do Brasil aos cacos.

É assim que o conservadorismo se calça, diante da eventual vitória do PT, tentando desde reduzi-lo a um frango desossado da Sadia, que só se equilibra espetado em interditos e ajustes incontornáveis.

Ou não será isso que o editorial do Financial Times adianta neste sábado?

Referência dos mercados internacionais –e das pautas nacionais, ao lado da Economist, o diário londrino afirma que a redução em curso na liquidez mundial, por conta da proximidade da elevação dos juros nos EUA, exigirá ‘uma quase inevitável’ e ‘dolorosa correção em países como Brasil, Turquia e África do Sul’.

Por ‘dolorosa’, entenda-se: choque de juros, arrocho fiscal, redução do poder de compra das famílias assalariadas, privatizações (‘flexibilizar o pré-sal’) etc
Sim, a agenda da frente única do conservadorismo que assessores de Marina e Aécio tem vocalizado às plateias extasiadas de banqueiros e com a qual se pretende depenar o PT num eventual segundo turno em outubro.

A receita vendida pelo conservadorismo talvez fosse inevitável, de fato, se o desabafo de Dilma e de Lula nestas eleições significasse apenas um ponto fora da curva.

Um rompante, e não a trajetória final da ficha que acelerou sua aterrisagem no discernimento do partido nos últimos anos.

O acelerador dessa curva tem um motor turbinado.

Seu combustível é o ponto de exaustão atingido pelas relações entre o partido, seus dirigentes e a mídia conservadora.

Marmorizada de ódio político e desrespeito pedestre, a guerra fria cabocla contra o PT ensejou uma experiência de acuamento até certo ponto nova na existência do partido - ainda que virulenta para saturar um ciclo.

Círculos dirigentes e militantes mais antigos não experimentaram nada parecido antes. Nem mesmo na sua origem, nos anos 70/80, quando operários do ABC se colocaram frontalmente contra o regime militar, em desafio aberto ao poder armado e empresarial.

Sedimentou-se ali, ao contrário, com base em uma cumplicidade que parecia ampla e sólida, a suposição de que haveria da parte da imprensa se não apoio, ao menos respeito com o avanço da luta dos trabalhadores.

Mais que isso: tolerância com a criação de um partido próprio, de recorte socialista ecumênico.

Ancorada na intensidade histórica de uma fase alegre dos consensos democráticos, criou-se assim uma jurisprudência petista.

A mediação com o conjunto da sociedade, embora marcada pela má vontade de chefias e donos de jornais, estava sendo feita a contento pelos meios de comunicação.

Até o 2º governo Lula, o PT nunca incluíra entre as suas prioridades efetivas a de regularizar o sistema de comunicação existente para torná-lo mais plural.

Do mesmo modo, nenhum dirigente histórico deu ao projeto de construção de uma mídia própria, a prioridade política, financeira e mobilizadora devotada, por exemplo, a uma campanha eleitoral.

A proximidade com os jornalistas - muitos dos quais renunciariam a cargos e carreiras para se engajar na construção do partido e nas campanhas eleitorais dos tempos pioneiros - cevou ilusões.

O trânsito fácil com a imprensa sugeria haver espaço a ocupar na caixa de ressonância da grande indústria de notícias.

Um consenso algo ingênuo, algo acomodato exergava uma margem de manobra nas redações; a cota de tolerância não se esgotara.

A derrota para Collor em 1989, quando a Globo manipulou a edição do debate decisivo da campanha, e deu quase dois minutos adicionais ao 'caçador de marajá' no Jornal Nacional, abalou essa inércia.

Mas não construiu uma novo diagnóstico político, forte o suficiente para renovar a agenda em relação ao poder midiático.

A liderança de massa de Lula atingiu seu auge e reverberou no país durante os oito anos que esteve à frente de um governo exitoso no plano social e econômico.

O prestígio esmagador dentro e fora do Brasil empalideceu o cerco midiático diante da obrigatoriedade de se conceder espaço e voz ao Presidente.

O conjunto coagulou o debate petista sobre o papel da comunicação na construção de uma democracia social em um dos países mais desiguais do planeta.

Parecia desnecessário diante dos êxitos econômicos sucessivos que calavam uns e aliciavam outros.

Nesse idílio escaparia a Lula e aos dirigentes petistas a brutal transformação em marcha no interior da mídia e na própria composição das redações.

Ao longo de duas década de polarização entre a agenda afuniladora do neoliberalismo e a da implantação de um Estado social tardio no país, o jornalismo brasileiro sofreria uma mudança qualitativa de pauta e estrutura.


A tentativa de impeachment de Lula em 2005, já no ciclo da chamada crise do 'mensalão' - que culminaria em 12 de novembro de 2013 com a condenação dos dirigentes José Dirceu e Genoíno à prisão - sacudiu a inércia petista com força pela primeira vez.

O espaço de tolerância acalentado ainda por emissários autonomeados, que traziam recados dos donos de jornais e revistas sobre o preço a pagar por uma trégua na escalada golpista, perdeu eco na cúpula do governo.

Lula, a contrapelo dos punhos de renda do petismo, recorreu então ao movimento sindical.

A palavra 'golpe' foi entronizada no discurso da resistência - para horror dos que teimavam em buscar um acordo com o dispositivo midiático conservador.

Numa quadra de clamorosa falência do projeto neoliberal, o tridente udenista da corrupção e a demonização da esquerda como sujeito histórico degenerado, pôs-se a campo ainda como mais força, a partir de então.

Tornou-se a pauta-jogral de um dispositivo midiático reestruturado para esse fim.
Qual?

Fazer do segundo mandato de Lula a evidência de que essa dissonância histórica não seria mais tolerada na democracia tutelada pelo poder do dinheiro.

Instalou-se um termidor antipetista nas redações.

A ilusão na mídia como ambiente democrático permissivo à formação da consciência crítica e progressista da sociedade deixou de existir.

A percepção dessa ruptura e os desdobramentos políticos que ela acarreta cristalizaram-se no linchamento midiático que orientou as togas inebriadas pelos holofotes, na Ação Penal 470.

O que Dilma está dizendo agora, portanto, não é um acidente de percurso.

Está sedimentado nas estocadas de uma espiral virulenta que, como ela mesma diz, ‘me levaram para um outro caminho, que não era o que eu queria’

A ficha da crispação conservadora caiu definitivamente nesta campanha de 2014.

O PT e sua propaganda redescobriram que não se faz política sem definir o adversário, dizer o que ele representa, por que precisa ser derrotado, as perdas e danos de se entregar o país de volta ao poder conservador.

Por enquanto isso é feito na janela que o horário eleitoral abriu ao partido em meio ao monólogo conservador que dá aos dois minutos de Marina uma extensão de horas.
Mas e depois que ela se fechar outra vez?

‘Vou fazer a regulação econômica da mídia’, sacramentou Dilma
na entrevista da 6ª feira aos blogs‘ sujos e ideológicos.

Isso não é pouco.

Não apenas pelo efeito esclarecedor que exerce na opinião pública, hipnotizada pelo jogral do Brasil aos cacos.

O que Dilma está vocalizando é uma agenda, não uma medida solteira.

Se socialismo é levar a democracia às suas últimas consequências, a pluralidade da informação que isso requer não pode ser confundida com a disseminação de tabletas e celulares de última geração entre os brasileiros.

A disjuntiva que se coloca é entre a livre formação do discernimento político da sociedade ou a sua subordinação a um aparato claustrofóbico de difusão, que se avoca o direito de enclausurar a formação da opinião pública brasileira em pleno século XXI.

Não se trata de uma queda de braço ideológica, tangencial à gestão progressista do Estado.

É um problema do desenvolvimento brasileiro.
A presidenta Dilma incorporou a chave da eficiência às prioridades do seu governo.

Com razão: é obrigação progressista zelar pela cuidadosa aplicação dos fundos públicos, erigir um Estado transparente, capacitá-lo a mobilizar recursos e coordenar as ações da dura luta pelo desenvolvimento soberano e justo.

Durante muito tempo, porém, errou-se ao não afrontar as demais intercorrências da agenda do Estado mínimo.

Entre elas a gororoba ideológica construída em torno da lingérie mais reluzente do conservadorismo: o fetiche da autossuficiência da gestão.

Confunde-se a opinião pública ao endossar falsas convergências redentoras, a exemplo do ‘fazer mais com menos’, que omite a verdadeira luta de sabre para dividir a fatura da crise e instaurar o passo seguinte do desenvolvimento. Ao não distinguir uma coisa de outra, corre-se o risco de endossar a tese que pretende equacionar a desordem atual com poções adicionais do veneno que a originou.
O colapso neoliberal trouxe para o colo do governo uma crise da qual a Nação é vítima e não sócia; as forças progressistas são adversárias, não co-autoras.

O nome da crise não é PT, não é gastança, não é Petrobrás, não é desrespeito ao tripé, como quer a constrangedora declamação de Marina Silva.

O nome da crise é capitalismo desregulado, é supremacia financeira, é a desenfreada ferocidade com que os capitais fictícios exigem um mundo plano de fronteiras livres e desimpedidos, por onde possam transitar à caça de fatias reais de uma riqueza, para a qual não se dispõem a contribuir, apenas se apropriar em espirais de bolhas recorrentes.

A dissonância de um Brasil que se propõe a construir um Estado de Bem-estar social tardio, regulado e soberano, precisa ser sufocada para que o fluxo incorpore esse promissor naco da riqueza mundial ao seu circuito.

‘Não há alternativa’, dizia Margareth Thatcher nos anos 70.

Quarenta anos depois e uma colapso da ordem neoliberal que se ombreia à crise de 1929, é o que continuam a dizer Aécio, a doce Marina e a mídia que os ancora.


É o que continua a pontificar o editorial do Financial Times, a vaticinar ‘um arrocho doloroso’ para o Brasil, ganhe quem ganhar as eleições do próximo domingo.

Os desequilíbrios de fato existem. Não se incorpora 60 milhões de ex-miseráveis e pobres ao mercado sem mexer nas placas tectônicas de uma ‘estabilidade capitalista’ alicerçada em uma das mais desiguais estruturas de renda do planeta.
Há duas opções: avançar dar coerência estrutural e política à emergência desse novo ator, ou recuar e devolvê-lo à margem de origem. Custe o que custar.

Será ‘doloroso’ , avisa o Financial Times, sobre aquilo que Aécio, Marina e o colunismo isento vendem como virtude.

Para fazer diferente não basta buscar atalhos na gestão da macroeconomia.

A macroeconomia não é de esquerda, nem de direita.

Quem adiciona coerência à macroeconomia do desenvolvimento é correlação de forças da sociedade em cada época.


Para fazer diferente do que a frente única do conservadorismo apregoa será necessário coordenar as linhas de passagem de um novo ciclo histórico repactuando metas, concessões, prazos, avanços e salvaguardas com o conjunto das forças sociais.

Isso requer uma mídia pluralista para que possa acontecer. Foi essa sucessão de contingências que fez cair, definitivamente, a ficha histórica do PT em plena eleição de 2014.

A consciência desse aggiornamento estratégico talvez seja uma vitória tão importante quanto vencer no próximo domingo. Porque só assim será possível honrar os compromissos com a sociedade nos próximos quatro anos.

A ciberguerra do Ocidente contra a Rússia




http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Ocidente-prepara-se-para-uma-ciberguerra-contra-a-Russia/6/31883



Carta Maior, 28/09/2014
 

A ciberguerra do Ocidente contra a Rússia


Por Eduardo Febbro



Paris - O confronto em curso entre Rússia e Ocidente reativou uma disciplina cujo imaginário foi alimentado pela informática, cinema, literatura, rumores e um punhado de fatos constatados: a ciberguerra. O deslocamento de um conflito de um território para o ciberespaço gera especulações há anos e, em alguns casos, enfrentamentos reais como o ciberataque massivo de que foi alvo a Estônia em 2007, o ataque contra os sistemas de mísseis ar-terra da Síria no mesmo ano, as operações na Geórgia, o permanente fustigamento digital protagonizado por China e Estados Unidos ou a operação (2010) contra o programa nuclear iraniano urdida por Estados Unidos e Israel por meio do vírus Stuxnet. Este dispositivo é o descendente do programa Olympic Games desenvolvido pela NSA norteamericana e pela unidade 8200 de Israel.

A crise com a Rússia acelerou o recurso à ciberguerra. Durante a última cúpula - 4 e 5 de setembro - realizada em plena crise com Moscou, a OTAN reforçou seus padrões de defesa na Europa por meio de um programa chamado "política de ciberdefesa reforçada". Segundo o comandante norteamericano das forças aliadas na Europa, a anexação da Crimeia por parte da Rússia e o posterior conflito que explodiu na Ucrânia demonstraram que Moscou implantou em suas operações militares uma estratégia ciberofensiva que se mostrou muito eficaz. Moscou teria conseguido interromper todas as comunicações eletrônicas entre as tropas ucranianas estacionadas na península e os centros de comando espalhados pelo resto da Ucrânia. Este é o argumento do ocidente para desenvovler uma frente de conflito no ciberespaço.

O documento elaborado pela OTAN sobre a ciberguerra apresenta de fato uma postura ameaçadora. A Aliança Atlântica estendeu ao ciberespaço todas as garantias do Tratado. Isso quer dizer que qualquer ataque contra as redes informáticas de um país membro da OTAN será considerado como um ataque contra todos, ou seja, equivalente a uma agressão clássica. O Ocidente cria assim um ciberespaço "indivisível". A consequência é evidente: se um Estado externo à aliança aparecer como responsável por um ciberataque este será objeto de represálias que podem incluir mesmo os meios clássicos. Com seu recorrente cinismo faminto por confrontações, a OTAN faz o papel de futura vítima como se ela ou seus membros mais poderosos, como os Estados Unidos, nunca tivessem lançados ciberataques contra algum de seus adversários ou espionado a intimidade de cada ser humano do planeta mediante o dispositivo Prisma  montado pela Agência Nacional de Segurança dos EUA (NSA), com a servir colaboração de empresas privadas (Google, Yahoo, Facebook, Microsoft, etc.).

Sorin Ducaru, secretário geral adjunto da OTAN e encarregado dos "desafios emergentes" disse que o organismo se limitará a se defender. Segundo ele, está "excluído lançar operações ciberofensivas. Estas estão sob o domínio de cada país membro". A ciberguerra se converte assim, e agora em nível coletivo, no novo Eldorado dos exércitos. A OTAN já conta com uma infraestrutura, o Cooperative Cyber Defence Centre of Excellence (CCDCOE), situado na Estônia e em plena fase de desenvolvimento e exercícios de invasão de servidores civis, vigilância das redes e ataques reais. Tudo parece pronto para um um grande confronto deslocado para o terreno do ciberespaço. A retórica ocidental está amplamente dominada pela ideia de que essa é a única maneira de se defender do grande inimigo russo.

O general Keith Alexander, ex-diretor da NSA, acusou Moscou de ter invadido há alguns meses o banco JP Morgan para roubar dados sensíveis como uma forma de represália após as sanções financeiras adotadas por Washington contra a Rússia, em função do conflito com a Ucrânia. O primeiro expropriador mundial de dados privados planetários se apresenta agora como um gatinho inocente vítima de um cibertaque organizado por uma potência repentinamente inimiga. O outro grande acusado é a China. Pequim aparece regularmente como responsável por contaminar o ciberespaço com ataques destinados a furtar os segredos da Europa e dos Estados Unidos. No entanto, como demonstram os documentos divulgados por Edward Snowden, os EUA tem olhos e ouvidos implantados em cada casa, incluindo as de seus aliados como França e Alemanha.
Washington espionou dezenas de autoridades alemãs e chegou a grampear o telefone da chanceler Angela Merkel. Em represália, em meados de julho, o chefe dos serviços secretos norteamericanos na Alemanha foi convidado pela chanceler alemã a deixar o território. Em uma entrevista publicada pela revista Wired, Edward Snowden contou que a NSA tinha em seu arsenal uma arma dirigida aos ciberconflitos. Trata-se da MasterMind. Segundo Snowden, este dispositivo é totalmente dedicado à ciberguerra e foi construído para analisar o tráfego na rede, detectar e deter os ciberataques contra os EUA. Snowden, hoje exilado na Rússia, revelou que MasterMind também está dotado de "um aspecto ofensivo automático, sem intervenção humana".

Os analistas militares nem sempre estão de acordo com o significado do conceito de "ciberguerra". Por exemplo, Maxime Pinard, diretor de Ciberestratégia no Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS), observa com pertinência que o termo "ciberguerra" não está sustentado por nenhuma realidade concreta.

Ele ressalta que "certamente há ciberataques, mas não ciberguerra no sentido de um conflito entre, ao menos, dois protagonistas identificados que causam danos humanos e econômicos um contra o outro". O investigador francês também destaca outra incoerência no uso excessivo do termo: "os ciberataques parecem novos quando na realidade só correspondem a técnicas clássicas de sabotagem e perturbação das comunicações do inimigo". Em resumo, uma mera espionagem digital ou a custosa mas simples contaminação de um servidor com um vírus.

Isso não retira a pertinência de outra ideia muito difundida nestes tempos de novas guerras: a corrida armamentista digital. Até agora, seus principais atores eram Estados Unidos e China. No entanto, a inclusão da OTAN e sua "política de ciberdefesa reforçada" agregam um protagonista adicional e aumenta o risco de que, efetivamente, se plasme uma ciberguerra generalizada muito mais aguda do que as ciberestratégias nacionais de defesa e contra-ataque, atualmente em curso.

O contra-almirante Arnaud Coustillière, responsável pela ciberdefesa no Ministério Francês da Defesa, assegura com realismo: "se podemos neutralizar os radares com a arma informática ao invés de um míssil, é muito melhor". O militar francês não crê que possa ocorrer algum dia uma espécie de Hiroshima digital: "estamos tão globalizados que não acredito. No entanto, um ataque catastrófico contra infraestruturais vitais isso sim pode acontecer". Para Maxime Pinard, o resultado destas novas políticas carece de segredos: "nos dirigimos para uma militarização reforçada do ciberespaço com um risco de formatação de um cenário onde os internautas comuns serão as principais vítimas".

Tradução: Louise Antônia Leon