segunda-feira, 30 de junho de 2014

Torcedores e impostores



30/06/2014
 

Quem é que tem educação: a elite branca ou a periferia negra?


E se a periferia negra estive no estádio existiria diferença de comportamento?
Nos jogos do Brasil vimos os estádios lotados da elite brasileira xingando, vaiando, desrespeitando, e quem assistia da TV pensava cadê a torcida incentivando o time, aquela torcida que vemos quando o Corinthias, o Santos o Palmeiras, etc entram em campo, aquela torcida feita de povão que grita pelo seu time mesmo perdendo.
Ficou muito claro nesta Copa que dinheiro não é sinônimo de educação. Aquela educação que vem de berço, do obrigada, do por favor, do respeito, aprendemos nesta Copa que esta, não se aprende nas melhores escolas.
Em pesquisa realizada pelo Datafolha no jogo entre Brasil e Chile neste sábado (28), no Mineirão, 67% dos 693 entrevistados se declararam brancos e 90% pertencem às classes A ou B. Os porcentuais diferem do perfil da população brasileira, em que 41% se declaram pardos – contra 24% presente no estádio – e 6% pretos – no país, são 15%.





​segunda-feira, 30 de junho de 2014

Torcedores e impostores 


Os dois Brasis, o real e o oficial, na torcida pela seleção: qual é o sincero?
(Fotos: Tomaz Silva e Marcello Casal Jr/ABr)



A torcida brasileira que tem assistido aos jogos da seleção nos estádios protagoniza proezas inimagináveis: manda a presidenta da República, uma avó sexagenária, "tomar no c...", vaia o hino nacional do time adversário, fica calada na maior parte do tempo, sai de casa tão empetecada quanto se fosse a uma festa ou ao shopping center, elege como grito de guerra o insuportável "sou brasileiro..." - entre outras abominações.

Como se fosse uma novidade, a Folha informa que a imensa maioria dos torcedores que estiveram no Mineirão e viram o Brasil vencer o Chile nos pênaltis era formada por brancos das classes A e B.
Juntando essas informações, o que se conclui é que o torcedor característico de futebol, o corintiano, o palmeirense, o flamenguista, está assistindo à Copa pela televisão, em casa, nos bares ou nas praças públicas, longe das "arenas", como os novos estádios estão sendo chamados. 
Apesar disso, é esse torcedor quem mais está vivendo a Copa.
Para ele pouco importa se ela vai influenciar ou não a eleição presidencial, como temem muitos dos falsos entusiastas do futebol.
Ele está mesmo preocupado, ele sofre, ele se angustia, com o fato de Felipão insistir em escalar Fred como centroavante ou com a hipótese de Neymar se machucar seriamente ou tomar mais um cartão amarelo.
A Copa do Mundo, pelo menos nas últimas edições, se tornou um megaevento que transcende o âmbito puramente esportivo.
É um hipernegócio, controlado por uma das mais poderosas empresas transnacionais do mundo, a Fifa.
É também um espetáculo de alcance global, graças à televisão.
Seus protagonistas, claro, são os jogadores, coadjuvados por árbitros e comissões técnicas.
E por uma imensa plateia multicolorida e multiétnica, que extravasa uma alegria contagiante e proporciona as imagens de sonho de qualquer diretor artístico.
Nesse imenso painel, os brasileiros compõem a maioria das peças.
Mas para desgraça dos produtores do grande show, a nossa torcida classe A, em vez de atuar como todas as outras, que procuram fazer o seu papel de incentivadoras de suas seleções, tem apenas exibido para as câmeras o seu imenso déficit cultural, com todas as suas implicações naturais - preconceito, falta de educação, grosseria, intolerância, vulgaridade...
Esta é mesmo a Copa das Copas.
Nos gramados ela estabelece de forma definitiva a primazia do ataque sobre a defesa, da técnica sobre a violência, do talento sobre a mediocridade.
Fora deles, realça a necessidade de o Brasil real, esse dos verdadeiros torcedores que não vão às "arenas", mas sentem na alma a dor do gol do adversário, sobrepujar o Brasil oficial, esse que se fantasia de verde e amarelo, como se usar essas cores o redimisse de sua pequenez cívica.

Copa revela a mãe de todas as verdades incômodas




http://www.brasil247.com/pt/247/artigos/145214/Copa-revela-a-m%C3%A3e-de-todas-as-verdades-inc%C3%B4modas-'aqui-jaz-a-grande-m%C3%ADdia'.htm




Brasil 247, 30/06/2014




Copa revela a mãe de todas as verdades incômodas​




Por Washington Araújo



​A essas horas um grego ainda amarga a dor de não fazer seu país avançar. Tudo porque errou seu pênalti. E fica esse ar de desilusão, esses tantos anos de treinamento intensivo, essa construção interminável de sonhos de campeão. Errou o que não podia errar. Das poucas coisas na vida que não há conserto esse é um deles: o pênalti que se perde depois da prorrogação, a distância que separa as oitavas das quartas-de -final de uma Copa do Mundo.
A essas horas, também, a pequenina Costa Rica se sente embalada pelos anjos dos estádios e poderá sonhar com novos desafios, novas vitórias. Venceu. E a história - sempre foi e sempre será assim - continuará sendo escrita pelos vencedores. E a seleção da Costa Rica, que começou desacreditada, zebra consumada, equipe a ser trucidada por qualquer seleção de seu grupo, todas campeãs do mundo, nos ensinou que muitas vezes a primeira coisa a dar errado é isso que chamamos de senso comum.
A nossa cultura perdoa muitas coisas, por exemplo, ouvir todo o repertório de besteirol do Ronaldo Nazário e do Jabor, continuar lendo Veja e dando audiência ao jornalismo da Globo, mas não perdoa quem bate um pênalti decisivo e erra. No sufoco do jogo do Brasil contra um vigoroso Chile (28/6) tivemos jogadores - Hulk e William - que se deram o luxo de bater e errar seus pênaltis. Foi um luxo porque tinham em nosso gol ninguém menos que Julio Cesar. Mas não tinham, absolutamente, direito a esse luxo.
Desperdiçaram oportunidades de ouro em nossa longa e acidentada jornada rumo ao Hexacampeonato. Não tinham o direito de despejar o destino do Brasil em sua Copa na maestria, no tino, na arte, nas mãos e na sorte de nosso Julio Cesar, essa fênix que virou cinzas na despedida do Brasil na Copa da África do Sul (2010) e agora ressuscitou e alçou voo rumo à unanimidade nacional.
Mereceu, Julio Cesar. Huck e William deveriam ficar treinando pênaltis como se fosse dízimas periódicas, e treinar até dormindo, pois nunca saberemos o que nos reservam as próximas 3 partidas em que poderemos vir a jogar. E cada um deles já chega com "menos 1 gol" a justificar.
Esta Copa revelou como nenhum outro evento no país conseguiu até agora o caráter mesquinho, monopolista e partidarizado com que há muito vem atuando nossos principais veículos de comunicação. Perderam de goleada em suas predições de que esta copa seria um rotundo fracasso: de público, de futebol, de infraestrutura. E deixou claras verdades incômodas, há muito suspeitadas e finalmente completamente comprovadas em grande estilo, em um Mundial que é motivo de elogios e regozijo em todo o planeta.
A seguir, destaco algumas dessas verdades incômodas:
Mesmo com toda a grande imprensa jogando contra a Seleção Brasileira, dia a dia, minuto a minuto, mesmo que aquela revista americana impressa no Brasil - Veja, dos Civita - continue fazendo cama de pregos para danar nossa Seleção.
Mesmo tendo de aturar Ronaldo Nazário destilando veneno gordo contra nossos canarinhos e comentaristas da CBN se revezando em ridicularizá-la segundo a segundo.
Mesmo observando o esforço descomunal de um combalido Arnaldo Jabor cavando pênaltis para derrubá-la a torto e à direita.
Mesmo que exista toda uma equipe do UOL a lhes morder os ombros e tendo que aguentar aquela peça publicitária do Banco Itaú com cara de nota de R$ 3,00 agourando nossos craques.
Mesmo que Merval Pereira seja imortalizado por torcer contra o país, assumindo posto antes ocupado por Mãe Dináh no reino das furadas predições, e pareça incansável em seu característico odor nauseabundo de derrotismo ante a pujança nacional.
Mesmo que William Waack teime, desesperado como ele só, e com a boca torna e o indefectível sorriso cínico, em dar cartão vermelho no Jornal da Globo para nossa Seleção.
Mesmo que todos os salgadinhos de quinta categoria, capitaneados por coxinhas requentadas e recalcitrantes, inisistam em prever o desastre do Brasil - se não hoje, amanhã - seja na Copa, na economia, na educação ou na saúde. De tão infelizes e mal resolvidos na vida essa turma substituiu sua titânica pisada de bola do "Não Vai Ter Copa" por um anêmico e fadado ao fracasso "Brasil Não Vai Ser Campeão".
Mesmo com tudo isso, não titubeio e nem duvido bem por milionésimos de segundos que torço, grito, vibro e boto fé no Brasil, e dobro a aposta sempre, em sua seleção e em seu povo.
Nem somos melhores nem piores que qualquer outra das seleções que jogaram em nossas 12 cidades-sedes. Fato mesmo que se impõe é que as seleções ruins que vieram a essa Copa já foram recolhidas às suas casas: Espanha, Inglaterra, Portugal, Itália, Uruguai.
E depois de tudo, que possamos ouvir o apito final seguido por um catártico grito de O CAMPEÃO VOLTOU!​

sexta-feira, 27 de junho de 2014

O direito fundamental de José Genoíno



http://www.istoe.com.br/colunas-e-blogs/colunista/48_PAULO+MOREIRA+LEITE



27/06/2014




O DIREITO FUNDAMENTAL DE JOSÉ GENOINO​


 


Por Paulo Moreira Leite *




A decisão do Supremo Tribunal Federal de negar a prisão domiciliar a José Genoíno merece uma nova reflexão.
Ao negar o pedido, o relator Luiz Roberto Barroso afirmou: “Sou solidario a ele. É um sujeito hipertenso, que está em condições adversas do cárcere. Mas ele não está em circunstâncias mais graves ou menos piores do que os outros.”
Em apoio ao relator, o decano Celso de Mello lembrou que segundo informações da Vara de Execuções Penais do Distrito Federal, cumprem pena 306 hipertensos, 16 cardiopatas, 10 condenados com câncer, 56 com diabetes e 65 com Aids. Nada justifica o tratamento diferenciado".
A discussão colocada por dois dos mais respeitados e cultos integrante da Corte tem grande relevância. Argumentou-se que, em nome da igualdade de tratamento, seria errado atender ao pedido de José Genoíno. Gostaria de debater o argumento da igualdade.
Vivemos num país onde a igualdade entre todos os cidadãos se afirma como um valor essencial da democracia e da Constituição. É bom que seja assim. É um caminho para vencer nossa desigualdade estrutural, matriz de grande parte dos problemas brasileiros.
A Constituição reconhece, também, que os indivíduos têm direitos fundamentais. Um deles é o direito à vida e a à integridade.
Não é porque ocorrem milhares de assassinatos, todos os dias, que uma pessoa não tenha o direito de cobrar proteção do Estado no momento em que lhe apontam um revólver.  
Da mesma forma, não é porque nossos hospitais públicos se apresentem, muitas vezes, numa situação global de calamidade que o cidadão comum não tenha o direito de exigir uma atendimento decente.
E é porque entende que esses direitos fundamentais à vida devem ser respeitados que o judiciário, muitas vezes, obriga o Estado a arcar  a com despesas de tratamentos médicos caríssimos, que nem a rede pública nem  os planos privados – mesmo caríssimos – têm disposição para pagar.
A simples permissão para a venda de planos privados de saúde - cujos custos são deduzidos do imposto de renda, representando uma forma de subsídio - é uma forma de reconhecer esse direito fundamental à vida. 
O direito a vida se desdobra, em nossa Constituição, no artigo 6, que diz que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado.
Você já viu aonde quero chegar e é isso mesmo.
O fato de mais de 400 prisioneiros sob guarda do sistema prisional do Distrito Federal padecerem de doenças graves, sendo tratados internamente, nas condições que todos podem imaginar, em nada diminui o direito fundamental de Genoíno a que se assegure o melhor para sua saúde. Não há como negar que o melhor para ele é fazer o tratamento em casa.
Mesmo porque, como lembrou o procurador Rodrigo Janot, na Papuda não existe plantão noturno nem nos finais de semana - e até uma criança sabe que problemas cardíacos não ocorrem com hora marcada. Se o estresse ajuda a agradar a condição de um cardiopta, é fácil imaginar qual ambiente mais estressante.  
Essa situação em nada diminuía, também, a necessidade do Supremo dar resposta a este caso específico,  que lhe coube analisar na sessão de quarta-feira passada. Embora se possa considerar possível e até necessário que o STF debatesse, naquela mesma tarde, mesmo em véspera de seu recesso, formas de avaliar o atendimento aos demais 400 presos, todos com os mesmos direitos de Genoíno, havia uma questão específica a ser tratada ali.
Entre todos os adoentados da Papuda, era o único sentenciado pelo STF, o que confere um elemento particular de responsabilidade aos juízes encarregados de julgar se deveria ser mantido na prisão ou se poderia tratar-se em casa. Os outros adoentados da Papuda não são ouvidos no STF. 
Ao contrário do que se disse durante a maior parte do julgamento, muitos ministros sublinharam a versão de que o pedido de Genoíno se baseava em laudos de médicos particulares, onde se definia sua condição de paciente “grave,” enquanto um documento oficial, de uma junta médica formada por decisão de Joaquim Barbosa, negava essa condição.
Coube a Ricardo Lewandovski, num momento em que a votação já havia ocorrido, lembrar que o Instituto Médico Legal – o único autorizado a atestar a causa da morte de uma pessoa – definiu a cardiopatia de Genoíno como “grave.” O mesmo faz a versão completa da junta médica da Câmara, assinada pelos doutores do Poder Legislativo.
Ao levantar o argumento da igualdade, empregou-se um valor correto numa situação errada.
Se tivesse acolhido o pedido, o  STF teria, inclusive, aberto um precedente para que outros casos, de outros prisioneiros, menos iguais do que o ex-deputado, ex-presidente do PT e político de prestígio, recebessem mais atenção. O caso de Genoíno teria servido, assim, para melhorar atendimento a saúde dos prisioneiros, da Papuda e de fora dali. Ao recusar o pedido, a mensagem é oposta. Todos os 306 presos hipertensos, 16 cardiopatas, 10 condenados com câncer, 56 com diabetes e 65 com Aids serão mantidos na situação em que se encontram.
De qual valor estamos falando, mesmo?
Estamos falando de direitos humanos – outro nome de direitos fundamentais.  
Num artigo de 1987, quando os brasileiros começavam a recuperar direitos democráticos, o governador Franco Montoro promoveu, em São Paulo, uma política de defesa de direitos humanos junto a polícia estadual, a PM e a Polícia Civil, num esforço para proibir a sobrevivência de práticas ilegais e vergonhosas. Nem se falava, na época, da necessidade de que tivessem um atendimento médico decente. O debate sobre condições de vida no cárcere era visto como coisa de intelectual da USP. A questão, na época, era tolerar ou proibir a tortura.
Analisando o surgimento de um conservadorismo extremista que se insurgia contra todo esforço para garantir os direitos fundamentais de pessoas encarceradas, o sociólogo Antonio Flavio Pierucci escreveu num artigo memorável (“As bases da Nova Direita”) publicado na revista Estudos Ceprab:
“Querer vê-los tendo arrepios é pronunciar as palavras direitos humanos ‘O que o senhor ou a senhora acha dos direitos humanos? É uma política com a qual a senhora concorda?” Diante de uma pergunta dessas, eles e elas se inflamam, se enfurecem. É interessante – e decepcionante – que a associação primeira do sintagma direitos humanos seja com a ideia de “mordomia para presos.’
Entrevistando uma advogada no bairro da Mooca, 40 anos, Pierucci ouviu o seguinte argumento:
“O pior de tudo é que houve uma inversão de valores. O bandido, hoje em dia, é endeusado, embora seja um assassino, estuprador, seja o diabo. Então ele precisa tomar o banhozinho de sol. A comida não está boa? Precisa de champagne francesa. Quer dizer: ele efetivamente não está sendo punido. Ele está vivendo às nossas custas.”


​*Diretor da Sucursal da ISTOÉ em Brasília, é autor de "A Outra História do Mensalão".

quarta-feira, 25 de junho de 2014

E houve Copa: deu até no The New York Times





http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/E-houve-Copa-deu-ate-no-The-New-York-Times/4/31240





Carta Maior, 25/06/2014


E houve Copa: deu até no The New York Times



Por José Carlos Peliano (*)


 


A velha e carcomida mídia brasileira poderia ficar sem mais essa. Estilhaçou outra vez sua imagem na imprensa internacional. Tentou se camuflar de árvore e hoje não passa de um espantalho nos outdoors da cara de pau. Na sua campanha sistemática, antiética e despudorada contra o governo federal tentou enlameá-lo e culpá-lo mais uma vez empurrando a realização da Copa para o ralo e quebrou a cara no espelho.

Desnecessário listar e alinhavar as investidas que a velha mídia utilizou para desfigurar os acontecimentos e eventos que antecederam a abertura e os primeiros dias da Copa no país. Não deram trégua os jornalões da vida brasileira escritos, falados e televisados.

Vale lembrar, porém, que a primeira e monumental burrada foi de início ir contra as manifestações de junho do ano passado. A velha mídia sem exceção culpava diuturnamente os manifestantes como vândalos, irresponsáveis e marginais. A elite branca apoiava enfurecida.
Não é que poucas semanas após perceberam que entraram pelo caminho errado, o mote teria de ser outro. Deram um giro de 180 graus e passaram a engrossar a fileira dos descontentes, desavisados e mal informados. A bandeira era que o governo federal deixava de atender as necessidades básicas da população brasileira e do país investindo somas retumbantes na preparação da Copa de 2014.

As manifestações se diluíram no tempo e continuaram em surtos esporádicos aqui e ali. Mas a manifestação da velha mídia se manteve, ampliou e vendeu uma imagem profundamente depreciativa e arrasada do país aqui mesmo e no exterior. O lema passou a ser, como todos sabemos, não vai haver Copa!

Fizeram de tudo e por tudo para que o lema tivesse efeito e se mostrasse realidade. Tudo virou problema, dificuldade, irresponsabilidade, despreparo e corrupção. Infiltraram-se até pelos gastos sociais vendendo a mentira deslavada de que se gastava mais na Copa do que na educação e saúde. Infelizmente muita gente séria e informada embarcou nessa canoa furada.

Até que chega junho de 2014 e a Copa começa. Davi mais uma vez enfrenta Golias e o derruba com estilingue tupiniquim. A farsa é exposta. Como começa a Copa num país que não se aprontara minimamente adequado para tal? A velha mídia descarada, no entanto, não se dá por vencida, retira apenas a camuflagem e passa a noticiar efusiva o espetáculo do futebol. O mesmo que ela mesma ameaçava de não ter palco garantido.

Mas a farsa não passou desapercebida pela imprensa internacional. Jornais de vários cantos do mundo exaltaram a realização da Copa no Brasil, incluindo as mídias sociais. Passada a primeira semana e quase ao fim a etapa classificatória, os elogios vêm especialmente pela grandeza do evento e adequada organização.

A opinião de um estrangeiro é importante para avaliar o que se viu e se vê aqui no país em relação a Copa. Impressões isentas de alguém de fora, do ramo, capacitado e bem informado ajudam a classificar como vem sendo o transcorrer do maior certame do futebol mundial.

O americano The New York Times semana passada estampou reportagem do jornalista Sam Borden sobre a realização da Copa sem deixar de chamar a atenção sobre a maldição lançada pela velha mídia nacional que acabou por se transformar em pequenos problemas localizados, segundo ele “soluços”.

Previsões apocalípticas de que alguns estádios não estariam totalmente prontos a tempo ou que certamente outros não estariam acabados mesmo. Violentos protestos nas ruas iriam ameaçar torcedores e conturbar praticamente tudo. Greves em aeroportos e metrôs perturbariam a vida de milhares de visitantes.

Essas entre outras previsões de juízo final (literalmente ,“doomsday”), segundo o jornalista, eram preocupações constantes lançadas pela mídia brasileira nos dias anteriores à Copa do Mundo no Brasil.

Passada a primeira semana, no entanto, Borden escreve categoricamente que a situação no maior país da América do Sul é dificilmente desoladora. Para os fãs que se interessam por muitos gols, resultados surpreendentes e futebol com estilo, o torneio tem sido até agora de um sucesso inacreditável. Os jogos encantam os olhos e vêm sendo perfeitos para a transmissão televisiva.

A qualidade técnica dos gramados nos novos estádios foi destacada por um engenheiro inglês ao elogiar a permeabilidade alcançada, especialmente em Manaus e Natal que passam por um pesado período de chuvas.

Os pequenos problemas, os soluços, ficaram por conta de defeitos elétricos localizados, estádios com alguns reparos a fazer e cadeiras incorretamente numeradas. Nenhum deles foram totalmente comprometedores. Coisas que vieram sendo reparadas a cada dia.

Outros soluços como melhoria da segurança em volta dos estádios e uso de fogos de artifício prejudicaram alguns torcedores e a organização do evento tem tomado providências para serem os controles mais rigorosos antecipando dificuldades.

Soluços, no entanto, ocorreram, cita o jornalista, por exemplo, nos Jogos de Socchi na Rússia este ano, quando faltaram hotéis para todos os visitantes ou estavam incompletos para uso. Nos Jogos de Verão de Atenas em 2004 ocorreram greves e problemas de infraestrutura. No Park Olímpico de Londres em 2012 havia uma área ainda em construção logo na abertura da cerimônia.

É cedo ainda para ser feita uma avaliação completa do torneio. Afinal ainda faltam praticamente três semanas. Como dizem que a primeira impressão é a que fica, entretanto, é possível e bastante provável que a Copa continue transcorrendo em clima amistoso saudável mesmo com o calor reclamado por algumas seleções europeias. Mas afinal lá também no verão a temperatura circula entre 30 e 40 graus. E muitas vezes à sombra!


(*) Economista

terça-feira, 24 de junho de 2014

Copa: o Brasil ganhou, a mídia perdeu



http://jornalggn.com.br/noticia/copa-o-brasil-ganhou-a-midia-perdeu



Jornal GGN, ter, 24/06/2014

Copa: o Brasil ganhou, a mídia perdeu


Por Luis Nassif


Já se tem o resultado parcial da Copa: reconhecimento geral - da imprensa nacional e internacional - que é uma Copa bem organizada, com estádios de futebol excepcionais, aeroportos eficientes, sistemas de segurança adequados, logística bem estruturada e a inigualável hospitalidade do povo brasileiro.
Vários jornais (internacionais) já a reconhecem como a maior Copa da história.
Agora, voltem algumas semanas atrás, pouco antes do início da Copa.
A imagem disseminada pela imprensa nacional - era a de um fracasso retumbante. Por uma mera questão política, lançou-se ao mundo a pior imagem possível do Brasil. O maior evento da história do país, aquele que colocou os olhos do mundo sobre o Brasil, que atraiu para cá o turismo do mundo,  foi manchado por uma propaganda negativa absurda. Em vez das belezas do país, da promoção turística, do engrandecimento da alma brasileira, da capacidade de organização do país, os grupos de mídia nacionais espalharam a imagem de um país dominado pelo crime e pela corrupção, sem capacidade de engenharia para construir estádios - justo o país que construiu duas das maiores hidrelétricas do planeta -, com epidemias grassando por todos os poros.
Um dos jornais chegou a afirmar que haveria atentados na Copa, fruto de uma fantasiosa parceria entre os black blocks e o PCC. Outro informou sobre supostas epidemias de dengue em locais de jogo da Copa.
O episódio é exemplar para se mostrar a perda de rumo do jornalismo nacional, a incapacidade de separar a disputa política da noção de interesse nacional. E a falta de consideração para com seu principal produto: a notícia.
Primeiro, cria-se o clima do fracasso.
Criado o consenso, abre-se espaço para toda sorte de oportunismos. É o ex-jogador dizendo-se envergonhado da Copa, é a ex-apresentadora de TV dizendo que viajará na Copa para não passar vergonha.
Tome-se o caso da suposta corrupção da Copa. O que define a maior ou menor corrupção é a capacidade de organização dos órgãos de controle. O insuspeito Ministério Público Federal (MPF) montou um Grupo de Trabalho para fiscalizar cada ato da Copa, juntamente com o Tribunal de Contas da União e a Controladoria Geral da União. O GT do MPF tornou-se um case, por ter permitido economia de quase meio bilhão de reais.
Antes da hora, é fácil afirmar que um estádio não vai ficar pronto, que um aeroporto não dará conta do movimento, que epidemias de dengue (no inverno) atingirão a todos, que os turistas serão assaltados e mortos. Fácil porque são apostas, que não têm como ser conferidas antecipadamente.
Quando o senhor fato se apresenta, todos esses factóides viram pó.
A boa organização da Copa não é uma vitória individual do governo ou da presidente Dilma Rousseff. É de milhares de pessoas, técnicos federais, estaduais e municipais, consultores, membros dos diversos poderes, especialistas em segurança, trânsito, empresas de engenharia, companhias de turismo, hotelaria.
E tudo isso foi jogado no lixo por grupos de mídia, justamente os maiores beneficiários. Eram eles o foco principal de campanhas publicitárias bilionárias, sem terem investido um centavo nas obras. Pelo contrário, jogando diuturnamente contra o sucesso da competição e contra qualquer sentimento de autoestima nacional.

Quanto custa ter uma elite que aposta sempre contra





http://www.cartamaior.com.br/?/Editorial/E-o-Brasil-nao-bebeu-agua-em-meia-cuia-de-queijo-Palmira/31235





Carta Maior, 24/06/2014 


E o Brasil não bebeu água em meia cuia de queijo Palmira


 


Por Saul Leblon



​Os caosnáticos que durante meses  anunciaram  o apocalipse para os 32 dias  em que o país sediaria a Copa do Mundo  devem estar duplamente arrependidos.

Vencido  1/3 do torneio a apreensão cedeu lugar à agradável sensação de que, afinal, com todas as deficiências  sabidas, esse lugar  não é a montanha desordenada de incompetência, corrupção e conflagração  anunciada – incentivada - por seus vocalizadores  desinteressados.

O  cenário de terra arrasada, que faria a autoestima nacional beber  água  num pé da mesa, em meia cuia de queijo Palmira, passa ao largo do que se vê, se ouve e se vive dentro e fora dos estádios.

Sobretudo,  porém, o maior gol contra foi a aposta  de que o fracasso da Copa serviria como credenciamento antecipado para  o conservadorismo ‘consertar o Brasil corroído pelo PT’.

A menos que um acontecimento inesperado  inverta o quadro em curso, a verdade é que estamos diante de um efeito bumerangue  em espiral ascendente. Nem mesmo uma eventual eliminação brasileira do torneio poderá modificá-lo.

O revés não é café pequeno.

Ele  desqualifica  de forma importante o discurso derrotista da turma do Brasil aos cacos.

O caos na Copa era (atenção: ‘é’) acalentando como um precioso passaporte emocional para garantir o livre trânsito do discurso conservador  no imaginário brasileiro, na disputa presidencial de outubro.

O que emerge das ruínas  anunciadas, ao contrário, é outra coisa, na forma de uma pergunta bastante incomoda.

Como dar crédito às avaliações mais abrangentes  -e às propostas ‘mudancistas’-  de quem  não consegue sequer enxergar o país em que vive,  tanto quanto  não consegue  diferenciar um Felipão falso de um verdadeiro?

A verdade é que a emissão conservadora criou um sósia do Brasil, tentou espetá-lo  na alma nacional e agora se tornou refém de seu próprio ardil.

Quanto custa a uma sociedade ter uma elite que,  nas horas decisivas, aposta quase sempre contra  as suas potencialidades?  Seja por interesses unilaterais, seja por incapacidade histórica, mantem-se impermeável  à compreensão do lugar em que vive,  da época em curso e dos seus desafios.

O paradoxo da Copa, que de excelente oportunidade para o Brasil, quase  foi soterrada como um estorvo contagioso ,  encerra, portanto, angulações  mais graves do que apenas o fla-flu eleitoral da superfície.

Só o inexcedível  descompromisso com a sorte da nação e o destino de sua gente poderia menosprezar, como se fez, o  conjunto de  projetos  e possibilidades  associados  ao evento   – que no caso do legado logístico reúne projetos ainda inacabados, mas em curso.

No fundo, trava-se aqui um embate visceral entre lógicas antagônicas embutidas  na disputa histórica entre dois projetos para o país.

Grandes obras e investimentos públicos constituem a melhor maneira de socializar e regular  a curva do investimento na sociedade, impedindo uma oscilação desastrosa ao emprego, ao consumo e ao crescimento.

As grandes obras do  PACs, os projetos em torno  da Copa, o financiamento subsidiado para aquisição de máquinas e equipamentos (PSI), do BNDES, por exemplo  – o maior banco estatal de investimento do mundo foi criado  há 62 anos, em 20 de junho de 1952, por Getúlio Vargas, exatamente com essa finalidade-  são formas de amortecer a tendência errática, intrínseca à incerteza  que cerca  as inversões privadas  no capitalismo em geral. E mais acentuadamente   em nações em luta pelo desenvolvimento.

Um dos grandes gargalos brasileiros , ao contrário do que ruge o jogral ortodoxo, é justamente o  reduzido fôlego fiscal do Estado ( subtraído em parte pelo rentismo), que o  impede de exercer uma coordenação de mercado que  propicie  a curva estável e sustentada do crescimento.
O movimento anti-Copa, ainda que inclua parcelas  bem intencionadas à esquerda, reflete no fundo  o velho antagonismo  entre os que buscam viabilizar o papel do interesse público sobre o erratismo privado, e os que recusam essa prerrogativa ao Estado.

Por que recusam se inclusive seriam beneficiados  por ela?

Porque para  exerce-lo o Estado deve controlar  uma fatia significativa do gasto social. Deve socializar  o comando sobre grandes massas de investimentos,  que lhe permitam coordenar as expectativas da sociedade, sobretudo as do investimento privado.


Isso requer, entre outras providências, desmontar  a linha Maginot do rentismo.
Entrincheirada em taxas de juros sempre mais rentáveis do que a aplicação produtiva
, ela suga o fôlego fiscal do país e inibe o planejamento do interesse público, ademais de fixar um piso elevado para a desigualdade social
, como ensinou Thomas  Piketty.

A cortina de fogo contra a Copa   -contra ‘a gastança’ de um modo geral-   filia-se a essa corrente.

Trata-se  de impedir que  a racionalidade social se imponha sobre o salve-se quem puder característico do ambiente de competição, incerteza  e, em decorrência disso, de obsessão mórbida pela liquidez rentista, que move o capital privado aqui e em todos os lugares.

Ademais dos desequilíbrios  estruturais  irradiados por essa lógica,  a economia brasileira  reúne distorções  específicas que os  acentuam  e reproduzem, como a  segunda taxa de juros  mais elevada do planeta,  câmbio fora do lugar  e livre mobilidade de capitais.

O quão equivocado era o  garrote anti-Copa  se vê agora pelo  desmentido do desastre nas ruas e nos campos.

Mas também nas entrelinhas do noticiário econômico.

O pouco que escapa –somente agora-  da pauta catastrofista serve como ilustração de um benefício  que talvez pudesse ter sido muito superior, caso as expectativas  do país  não tivessem sido garroteadas pela coleira da ortodoxia derrotista.

Abaixo, algumas evidências  de um dinamismo torpedeado  durante meses  pelas previsões de  fiasco da Copa  e de quem apostasse no seu sucesso: 

1) Faturamento médio das empresas de turismo cresceu 7,1% no 1º trimestre –antes mesmo de começar a Copa.  Levantamento do Ministério do Turismo, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostra que a área de turismo receptivo cresceu 14,7%, agências de viagem e parques temáticos, mais 9,6% de faturamento e setor de  hotelaria, mais 9% no período.

2) Mais de  600 mil estrangeiros  vieram  para o Mundial, além de 3,1 milhões de brasileiros que vão se deslocar  para as 12 cidades-sede  dos jogos. A previsão é de que os gastos do conjunto somem R$ 6,7 bilhões (Valor)

3) Bons negócios com a Copa elevaram em 16% os planos de investimento do setor de turismo para o 2º trimestre.

4) Em média, a projeção dos 80 maiores conglomerados de turismo do país é de um crescimento da ordem de 6,5% este ano.

5) Para quem acreditou no fiasco vaticinado pela mídia, o sucesso inesperado do evento trouxe gargalos por falta de capacidade de atendimento. Sintomas: em Brasília,  segundo o jornal Valor, ‘restaurantes do Pontão do Lago Sul  já não têm chope –“os colombianos tomaram tudo", diz um garçom ouvido pelo jornal.  Em Fortaleza, sobraram poucas opções  no cardápio de restaurantes  na avenida Beira Mar, relata o mesmo jornal que engole agora o pessimismo estampado em sua linha editorial por  meses: ‘ Lá, a culpa era dos mexicanos, segundo a garçonete’.

6) A subestimação da demanda atingiu até  a prosaica produção de  brindes, que se deixou contagiar pelo jogral derrotista.  ‘Nos aeroportos de São Paulo e Brasília, por exemplo, produtos como chaveiro do Fuleco, o mascote da Copa, já estão em falta’, admite o mesmo Valor, sem explica o motivo.

7) Fogo de palha? Não é essa a percepção de quem está na linha de frente dos acontecimentos. Hotéis, bares, restaurantes e agências de viagens afirma  que o Mundial proporcionará outros ganhos, nem sempre mensuráveis.: ‘a experiência de receber turistas de todas as partes e a superexposição do país no exterior são alguns desses legados que ficam para as empresas e deverão reverberar por muitos anos’ (Valor).

8) No dia de abertura da Copa, no Itaquerão, na zona leste de São Paulo, a capital paulista tinha 76,6% de suas vagas de hospedagem ocupadas ; 93% dos restaurantes e bares dos bairros Bela Vista, Jardins e Pinheiros festejavam o movimento;  98,7% das mensagens sobre a cidade postadas nas principais redes sociais foram positivas. Durante a partida Brasil e Croácia, foram publicados 12,2 milhões de comentários sobre o jogo somente no Twitter.

9) Em apenas três dias , de 12 a 15 de junho, na abertura da Copa, segundo a Visa, visitantes internacionais movimentaram US$ 27 milhões com seus cartões, alta de 73% em relação ao mesmo período do ano .

10) Por fim, diz Walter Ferreira, assessor da presidência do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur),enquanto a bola rolar, o Brasil concentrará as atenções de 3,6 bilhões de espectadores, quase metade da população mundial.O evento terá o poder de quebrar estereótipos e revelar ao mundo um país moderno, com empresas globais importantes, que investe em ciência de ponta e que tem um povo acolhedor e alegre.  A cena dos jogadores holandeses abraçando brasileiros em Ipanema, por exemplo, ou as inúmeras cenas de confraternização entre os torcedores contagiam o mundo. Este é o nosso maior legado de imagem’, diz Ferreira (Valor).

domingo, 22 de junho de 2014

Dersu Uzala na Copa




Diário do Amazonas, 22/06/2014



DERSU UZALA NA COPA


Por José Ribamar Bessa Freire


       
No futebol “a bola é um reles, um ridículo detalhe” – escreve Nelson Rodrigues, para quem o que interessa é “o ser humano por trás da bola”. O que está em jogo no gramado, portanto,“não é a diversão lúdica, mas a complexidade da existência”. Se for assim, se Nelson tem razão como quer o cronista Joaquim Ferreira dos Santos, então o campeão mundial da Copa já é o Japão, que deu um show de vida lá na Arena Pernambuco contra a Costa do Marfim e, depois, na Arena das Dunas, em Natal, contra a Grécia.
O Japão perdeu um jogo e empatou o outro dentro do campo, mas nas arquibancadas ganhou os dois de 10 x 0. As imagens reproduzidas nas redes sociais não deixam dúvidas. Enquanto torcedores do Brasil e de outros países se retiravam dos estádios, deixando montanhas de lixo, sem sequer olhar para trás, os japoneses recolhiam discretamente garrafas e copos de plástico, papel, bandejinhas de isopor, latas de cervejas e de refrigerantes, canudinhos, restos de alimentos, embalagens usadas, enfim todo lixo produzido por eles.
 
       
Esse gesto civilizatório foi o legado mais eloquente da Copa. Com o exemplo, o japonês ensina ao mundo como tratar com 
respeito e civilidade o espaço público, como se relacionar com o meio ambiente e com os outros habitantes do planeta. A coleta do lixo, feita em sacos com a imagem impressa do sol nascente, foi uma lição de ética e de cidadania. Lembrei cena antológica de rara beleza do filme Dersu Uzala dirigido pelo cineasta japonês Akira Kurosawa, em 1975, baseado no diário de um capitão russo. Na torcida nipônica – diria Nelson Rodrigues – todos eram Dersu Uzala.
 
O chibé repartido
O filme conta a história de uma expedição científica do exército czarista pela bacia do rio Usurri, entre 1902 e 1907, comandada pelo capitão Vladimir Arsenyev, com a finalidade de classificar as espécies existentes nas estepes da Sibéria e realizar trabalhos de topografia. O capitão faz amizade com um caçador nativo, Dersu Uzala, um velho sábio que trata o sol, as estrelas, a água, o fogo, o vento, a neve, as árvores e os animais como pessoas. Tal qual um tcheramoi guarani, ele ouve todas essas “pessoas” que vivem na taiga siberiana – a maior floresta fria do mundo - e conversa com elas.
       
Akira Kurosawa vai mostrando como se tece a amizade do capitão russo com o caçador, que lhe serve de guia não apenas pelas montanhas da Mongólia, mas também pelos sendeiros da vida. Depois de uma tempestade de neve, os dois conseguem se refugiar numa cabana no meio da floresta, onde descansam. No dia seguinte, antes de partirem, Dersu, o homem da floresta, abastece o fogão com lenha, separa um pouco de sal e estoca alimentos não perecíveis na cabana. Divide assim o pouco que tem para surpresa do capitão russo, o homem da cidade, que lhe diz:
- Dersu, isso é um desperdício. É inútil deixar mantimentos aqui, nós nunca mais voltaremos a esse lugar.
       
Quase todo semestre passo esse filme em sala de aula e todas as vezes me comove a cena, quando o caçador, então, explica que não é para eles dois, mas para uma pessoa qualquer, um eventual viajante, desconhecido, que chegue ali cansado e com frio, em busca de abrigo, de calor e de alimento. Compartilhar o pão não necessariamente para 
retribuir o que eles tinham encontrado, mas pelo prazer da partilha.    
       
O capitão russo, um homem de ciência, civilizado, com escolaridade, fica no meio do tiroteio, perplexo e dividido entre, de um lado, o princípio da “farinha pouca meu pirão primeiro” que ele traz do mundo urbano e, de outro, o preceito do pirão compartilhado, que é único sinal humano de vida, como canta o poeta Aníbal Beça num haicai: “Apenas num gesto / o homem é capaz de vida - / chibé repartido”."
Cena do filme Derzu Uzalá
Não vai haver lixo
A ética da solidariedade, do desprendimento, do pensar no outro está presente tanto no comportamento do velho caçador desescolarizado, que vive no mundo da oralidade e que detém os conhecimentos da vida, quanto na coleta silenciosa do lixo realizada pelos torcedores nipônicos.
       
O cineasta japonês Akira Kurosawa rodou as cenas de Dersu Uzala em 1974, em condições adversas, depois de haver tentado o suicídio três anos antes, cortando a própria garganta e os pulsos numa forte crise de depressão. Estava desencantado com o ser humano. Nesse contexto, o filme teve o efeito daquele poema de Allen Ginsberg: uma florzinha solitária desabrochando em cima de um monte de merda. É uma reconciliação com a vida, um canto de esperança, que desperta sentimento similar ao provocado pelas imagens dos japoneses coletando o lixo no estádio.
- Eu sou bra-si-lei-ro, com mui-to or-gu-lho, com mui-to a-moooor – grita a nossa torcida embalada para a guerra. Resta saber – isso não é explicitado - do que é que sentimos orgulho! Numa sociedade patriarcal como a brasileira, parasitária, tatuada por quatro séculos de escravidão, estamos acostumados a emporcalhar tudo, ordenando que garis limpem nossa sujeira. Nossas ruas com bueiros entupidos e os banheiros e salas de aula de nossas universidades públicas são testemunhas disso. Lá, o exército do “pessoal de limpeza” trava diariamente uma batalha perdida, registrando o rotundo fracasso da escola.
       
- Somos milhões em ação. Todos juntos, vamos pra frente, Brasil. Salve a seleção! De repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão!
       
Sem patriotadas, o lema dos japoneses, talvez muito mais significativo do que “não vai haver copa”, foi o silencioso “não vai haver lixo”. A corrente nipônica pra frente nos deu uma lição, que já rendeu os primeiros frutos. Na Fifa Fun Fest segunda-feira, em Copacabana, no Rio, turistas alemães, espelhados no exemplo vindo do Oriente, não apenas recolheram o lixo da praia, mas incentivaram outros frequentadores a ajudá-los.
       
Esse gesto de extrema delicadeza e refinamento, embora solitário, mostra que civilização não é abrir estradas, construir usinas, erguer pontes e viadutos, fabricar aviões, automóveis e robôs, clonar seres vivos. É saber se relacionar com o outro: gente, planta, animal, meio ambiente. É a qualidade dos gestos que torna a condição humana possível. Enquanto houver alguém juntando o lixo e nos deixando envergonhados de nossa imundície, o mundo não está totalmente perdido. Uma florzinha brota no esterco.
       
Foi um ato singelo, mas que renova nossas esperanças na espécie humana e no futuro do planeta. A bola, efetivamente, é um reles detalhe. Torcida japonesa, por despertar o Dersu Uzala que existe dentro de cada um de nós, 
domô arigatô gozaimasu

A Nova York dos excluídos



 
 
 

22/06/2014



A Nova York dos excluídos


Por Isabel De Luca / Correspondente



​Pobreza. Ryan ‘Red’ e Shelly MacMahon. Duas semanas após a foto com a mulher, ‘Red’ morreu - Divulgação


 
 
NOVA YORK — O número de sem-teto em Nova York atingiu, este ano, o maior nível desde a Grande Depressão nos anos 1930. Segundo as últimas estatísticas federais, a população sem moradia aumentou 13% em comparação com o ano passado, apesar da suposta recuperação da economia — e enquanto a média nacional só faz diminuir. A tendência cresce sobretudo entre famílias e virou um dos maiores desafios do prefeito Bill de Blasio, que fez da habitação acessível um dos pontos centrais do seu discurso de campanha, para comandar uma cidade onde os aluguéis não param de subir.
Os nova-iorquinos que passam a noite em abrigos ou nas ruas chegaram a 64.060, de acordo com o relatório anual do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano (HUD, na sigla em inglês), que compila dados de três mil cidades americanas.
Los Angeles teve aumento maior: lá, os desabrigados cresceram 27%, embora o total ainda seja menor que o de Nova York. No resto do país, o número caiu 4% desde 2012: hoje são 610.042.
— A maior parte dos EUA mudou a tática de reagir ao problema, e está funcionando — explica o professor de Políticas Sociais da Universidade da Pensilvânia Dennis P. Culhane, autor do relatório do HUD. — O foco tem sido no realojamento imediato, muitas vezes na forma de mediação de conflitos, mas também com ajuda financeira. O modelo de botar num abrigo e esperar até que se consiga encontrar uma moradia, ou que o cidadão consiga juntar dinheiro para sair, não é o novo modelo que emerge no país. Mas é o de Nova York.
Na cidade mais rica do mundo, a crise é resultado sobretudo do aumento no número de famílias que já não podem pagar aluguel. O último censo registrou um declínio no número de apartamentos acessíveis em Nova York, enquanto a renda da classe média baixa só faz cair. Para Culhane, parte do problema ainda pode ser creditado à crise econômica:
Há desemprego excessivo, afetando a capacidade de pagar o aluguel. Há mais jovens adultos e suas famílias com pais ou avós. Isso cria um ambiente estressante que pode levar ao despejo. É o que acontece em dois terços dos casos. A razão mais comum que os novos sem-teto reportam é conflito familiar na casa superlotada.
Em Nova York, as famílias já representam 75% da população dos abrigos. Há menos sem-teto nas ruas do que há uma década, mas a lotação nos dormitórios é recorde — 52 mil, sendo 22 mil crianças. Relatório divulgado em maio pela ONG Coalizão para os Desabrigados aponta outro recorde: o tempo médio que uma família permanece num abrigo atingiu 14,5 meses.


EXPOSIÇÃO SOBRE O DRAMA
O Departamento de Serviços para Desabrigados disponibiliza diariamente dados sobre os abrigos. Na última quarta-feira, eram 30.540 adultos e 23.227 crianças. O número de sem-teto que pernoitam em refúgios municipais é, hoje, 73% maior do que em janeiro de 2002, quando o ex-prefeito Michael Bloomberg tomou posse. Ele tentou driblar a questão com uma série de políticas, mas o resultado foi a superlotação dos dormitórios públicos.
— Prefiro dormir na rua do que num abrigo — relata Elliot, um sem-teto de 52 anos que costuma passar as tardes na esquina da Rua 72 com a Broadway. — A comida é pavorosa. Os banheiros são imundos. Há ratos e baratas por todo canto.
De Blasio prometeu que reverteria o quadro com moradias públicas e subsídios para aluguel. Em maio, ele anunciou um programa de US$ 66 milhões, mas a proposta depende da aprovação do estado, que arcaria com parte dos custos.
— A criação de moradias acessíveis deve ajudar a reduzir o número de desabrigados, ou em vias de serem despejados. Mas desenvolver moradias acessíveis leva tempo. E mesmo que muitas unidades sejam criadas, a demanda ainda será maior que a oferta — ressalta Culhane. — Qualquer subsídio de habitação é importante, e deve reduzir o número de famílias em crise. Mas também leva tempo para impactar o número de desabrigados.
As estatísticas são sentidas nas ruas por nova-iorquinos como o fotógrafo Andres Serrano, autor da série “Residentes de Nova York”, até a semana passada nas paredes da estação de metrô West 4, no West Village, e que prossegue em outros pontos do bairro, como a LaGuardia Place. Ele mostra retratos em grande escala de 85 moradores de rua — entre eles Ryan ‘Red’, de 27 anos, que posou com a mulher, Shelly,e morreu de complicações no fígado duas semanas depois. O trabalho foi encomendado pela ONG More Art, que promove ainda o programa Engajando Artistas: nos próximos meses, 15 deles ministrarão workshops com desabrigados.
— Percebi o aumento da quantidade de sem-teto na cidade em outubro passado, quando vi um número sem precedentes de pessoas atrás de esmola nas ruas. Foi quando comecei a comprar as placas que elas usavam para pedir dinheiro. Adquiri 200, que transformei numa coleção e no vídeo “Sinal dos tempos” — conta Serrano, que voltou para clicar os mesmos desabrigados ao mergulhar na nova série. — Dizem que (o ex-prefeito Rudolph) Giuliani limpou as ruas, mas Bloomberg nos deixou com uma população sem-teto gigantesca.

sábado, 21 de junho de 2014

Abutres, coveiros e goiabas




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Carta Maior,  21/06/2014
 

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Abutres, coveiros e goiabas

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PorFlávio Aguiar


A campanha nacional e internacional contra o Brasil e os brasileiros disseminou três tipos de detratores do nosso país: abutres, coveiros e goiabas.


1. Os abutres

São os mais ideológicos de todos. No plano internacional têm sido puxados por The Economist e Financial Times. Para eles o Brasil se assemelha a uma valiosa cariniça a ser saqueada. O valor da carniça aumentou muito desde as descobertas na camada atlântica do pré-sal. Muitos deles mantém uma pretensa elegância, muito própria para quem gosta de usar ternos de grife no trabalho. Seu estilo preferido é o prosaico analítico, com direito, vez por outra, a certos sarcasmos pesados, que eles vêem como mera ironia, como a de comparar a nossa presidenta a Groucho Marx. Adoram elogiar o México e a Aliança do Pacífico, como “respostas” ao Brasil e o Mercosul. No fundo, no fundo, o que querem é garantir o máximo possível de renda para o capital rentista e a parte do leão das riquezas brasileiras, passadas, presentes e futuras para ele. Às vezes animam gente mais grosseira, como no caso das vaias VIP, no Itaquerão. Mas aí começamos a entrar no segundo grupo.


2. Os coveiros

De um modo geral, são aqueles detratores que, no fundo, bem no fundo, acham que nasceram no país, na latitude e na longitude erradas, além do fuso horário trocado. Latitude errada: nasceram no hemisfério sul. Longitude errada e fuso horário trocado: a hora da nossa capital não é a mesma de Washington, nem de Londres, nem de Paris. Grosso modo, dividem-se em dois grupos. O primeiro simplesmente detesta o país em que nasceu. Não suporta olhar pela janela e ver bananeiras ao invés de pine trees. Detesta até ver palmeiras ao invés de palm trees. São os detratores de sempre, os que se ufanam da Europa e dos Estados Unidos e que pensam que o nosso povo é desqualificado para ser um povo. Sua abrangência é nacional, mas também aparecem alguns no plano internacional. Ouvi durante seminário recente aqui em Berlim que o Brasil é um país que não tem cultura, só tem música e samba. Não sei exatamente o que a pessoa em questão, que não era brasileira, entendia por “cultura”, “música” e “samba”, mas sei muito bem o que ela entendia por ”Brasil”: um bando de gente nu por fora e por dentro, mais ou menos como os primeiros europeus viam os índios quando chegaram para conquistá-los e dizimá-los. São e serão os coveiros de sempre. O segundo grupo pegou carona na campanha dos abutres. Gosta de falar mal do Brasil de agora, este que aí está, com pleno emprego e melhora na repartição de renda. Quer dar a volta no relógio e no calendário, nos ajustar de novo ao tempo em que pobre era miserável e miserável não era nada. Acha que pode garantir de novo os aeroportos só para si. Mas é um grupo que gosta de falar também em generalidades. Se dentro do Brasil, usa o pronome nós (“nós somos corruptos”, “nós somos violentos”, “nós somos ineficientes”, etc.), mas é um “nós” que tem o valor de “eles”, pois só vale da boca para fora.
É uma verdadeira proeza gramatical. Pois o distinto coveiro deste grupo se apresenta, explícita ou implicitamente, como uma exceção. Os estilos preferidos variam: vão do insulto grosseiro à lamentação sutil. Os coveiros deste grupo costumam ter um alvo preciso, que copiam dos abutres: no momento atual, a eleição de outubro. Já os coveiros do primeiro grupo não têm alvo preciso, a não ser o de fazer compras em Miami (alguns) ou passear de bonde ou ônibus nas capitais europeias enquanto faz campanha contra corredores de ônibus nas cidades brasileiras.


3. Os goiabas

Este é um grupo mais variegado. Seu estilo varia entre a euforia e a lamentação. Mas são plagiadores profissionais. Copiam sem restrição tudo o que lhes é servido pelos abutres e os coveiros. Repetem entusiasticamente: “o gigante acordou em junho do ano passado”. Ou chorosamente: “a Copa do Mundo no Brasil tirou dinheiro das escolas e dos hospitais”. E repetem firmes outras condenações peremptórias, como “a de que os estádios ficarão necessariamente ociosos depois da Copa”. São muito numerosos, barulhentos, tanto dentro como fora do país. Também repetem-se muito entre si mesmos, achando que estão sendo originais. Gostam de dizer que estão “mostrando o verdadeiro Brasil” ao nos detratar como um país imóvel, que não tem entrada nem saída.

Os grupos ficaram martelando – mais os coveiros, os goiabas e, mas com a reza em voz baixa a seu favor vinda dos abutres internacionais e também com as vezes a reza em voz alta dos abutres nacionais – que a Copa não ia dar certo, que seria um fracasso, que os aeroportos iam entrar em colapso, que as cidades (e o metrô de S. Paulo no dia da abertura) iriam parar, etc.

Deram com os burros n’água. Cavaram a própria cova e esqueceram de levar uma escada de saída. Ainda esperam que “algo”, alguma catástrofe, qualquer coisa, aconteça até o final da Copa. Depois deste final, vão tentar uma de duas: se o Brasil ganhar a Copa, vão dizer que o nosso povo é um bando de babacas que só sabem correr atrás da bola quando vêem uma. Se o Brasil perder, vão insistir na ideia de que o governo jogou dinheiro fora. Vamos ver o que vai acontecer.

Antes de encerrar, quero esclarecer que “abutres”, “coveiros”, “goiabas” e até “burros n’água” são apenas metáforas literárias, que não deve ser lidas literalmente. Nada tenho contra os abutres que, como os urubus, ajudam a manter a limpeza no seus espaços; nem contra a operosa classe dos coveiros, tão socialmente valiosos como qualquer outra profissão laboriosa; muito menos contra as goiabas, frutas deliciosas como tantas outras; e certamente na da contra os pacientes burros da vida real, que nada têm de burros. Burros, neste último sentido, apesar de alguns se acharem espertalhões, são os “abutres”, os “coveiros”, e os “goiabas”.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Os 10 maiores micos da Copa do Mundo do Brasil





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Carta Maior,  20/06/2014


Os 10 maiores micos da Copa do Mundo do Brasil



Por Najla Passos



​A Copa do Mundo do Brasil ainda não passou da primeira fase, mas já são fartas as gafes, foras e barrigadas do mundial, especialmente fora do campo.

E, curiosamente, elas nada têm a ver com as previsões das “cartomantes do apocalipse” que alardeavam que o país não seria capaz de organizar o evento e receber bem os turistas estrangeiros. Muito pelo contrário. 

Os estádios ficaram prontos, os aeroportos estão funcionando, as manifestações perderam força, os gringos estão encantados com a receptividade brasileira e a imprensa estrangeira já fala em “Copa das Copas”. 

Confira, então, os principais micos do mundial... pelo menos até agora!


1 - O fracasso do #NãoVaiTerCopa

Mesmo com o apoio da direita conservadora, da esquerda radicalizada, da mídia monopolista e dos black blocs, o movimento #NãoVaiTerCopa se revelou uma grande falácia. As categorias de trabalhadores que aproveitam a visibilidade do evento para reivindicar suas pautas históricas de forma pacífica preferiram apostar na hashtag #NaCopaTemLuta, bem menos antipática e alarmista. E os que continuaram a torcer contra o evento e o país, por motivações eleitoreiras ou ideológicas, amargam o fracasso: políticos perdem credibilidade, veículos de imprensa, audiência e o empresariado, dinheiro!


2 – A vênus platinada ladeira abaixo 

Desde os protestos de junho de 2013, a TV Globo vem amargando uma rejeição crescente da população. E se apostava no #NãoVaiTerCopa para enfraquecer o governo, acabou foi vendo sua própria audiência desabar. Uma pesquisa publicada pela coluna Outro Canal, da Folha de S. Paulo, com base em dados do Ibope, mostra que no jogo de abertura da Copa de 2006, na Alemanha, a audiência da Globo foi de 65,7 pontos. No primeiro jogo da Copa de 2010, na África do Sul, caiu para 45,2 pontos. Já na estreia do Brasil na Copa, neste ano, despencou para 37,5 pontos.


3 – #CalaABocaGalvão

Principal ícone da TV Globo, o narrador esportivo Galvão Bueno é o homem mais bem pago da televisão brasileira, com salário mensal de R$ 5 milhões. Mas, tal como o veículo que paga seu salário, está com o prestígio cada vez mais baixo. Criticar suas narrações virou febre entre os fãs do bom futebol. E a própria seleção brasileira optou por assistir os jogos da copa pela concorrente, a TV Band. O movimento #CalaABocaGalvão ganhou ainda mais força! O #ForaGlobo também!


4 – A enquadrada na The Economist 

A revista britânica The Economista, que vem liderando o ranking da imprensa “gringa” que torce contra o sucesso do Brasil, acabou enquadrada por seus leitores. A reportagem "Traffic and tempers", publicada no último dia 10, exaltando os problemas de mobilidade de São Paulo às vésperas de receber o mundial, foi rechaçada por leitores dos EUA, Japão, Holanda, Inglaterra e Argentina, dentre vários outros. Em contraposição aos argumentos da revista, esses leitores relataram problemas muito semelhantes nos seus países e exaltaram as qualidades brasileiras, em especial a hospitalidade do povo.


5 – O assassinato da semiótica

Guru da direita brasileira, o colunista da revista Veja, Rodrigo Constantino, provocou risos com o texto “O logo vermelho da Copa”, em que acusa o PT de usar a logomarca oficial do mundial da Fifa para fazer propaganda subliminar do comunismo. Virou chacota, claro. O correspondente do Los Angeles Times, Vincent Bevins, postou em seu Twitter: “Oh Deus. Colunista brasileiro defendendo que o vermelho 2014 na logo da Copa do Mundo é obviamente uma propaganda socialista”.  Seus leitores se divertiram usando a mesma lógica para apontar outros pretensos ícones comunistas, como a Coca-Cola (lol)!


6 – A entrevista com o “falso” Felipão

Ex-diretor da Veja e repórter experiente, Mário Sérgio Conti achou que tivesse tirado a sorte grande ao encontrar o técnico da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari, em um voo comercial, após o empate com o México. Escreveu uma matéria e a vendeu para os jornais Folha de S. Paulo e O Globo, que a publicaram com destaque. O entrevistado, porém, era o ator Wladimir Palomo, que interpreta Felipão no programa humorístico Zorra Total. No final da conversa, Palomo chegou a passar seu cartão à Conti, onde está escrito: “Wladimir Palomo - sósia de Felipão – eventos”. Mas, tão confiante que estava no seu “furo de reportagem”, o jornalista achou que era uma “brincadeirinha” do técnico...


7 – A “morte do pai” do jogador marfinense

O jogador da costa do Marfim, Serey Die, caiu no choro quando o hino do seu país soou no estádio Mané Garrincha, em Brasília. Imediatamente, a imprensa do Brasil e do mundo passou a noticiar que o pai dele havia morrido poucas horas antes. A comoção vias redes sociais foi intensa. O jogador, porém, desmentiu a notícia assim que pode. Seu pai havia morrido, de fato. Mas há dez anos. As lágrimas se deveram a outros fatores. "Também pensei no meu pai, mas é por tudo que vivi e por ter conseguido chegar a uma copa do mundo”, explicou.


8 – “Vai pra casa, Renan!”

Cheio de boas intenções, o estudante Renan Baldi, 16 anos, escolheu uma forma bastante condenável de reivindicar mais saúde e educação para o país: cobriu o rosto e se juntou aos black block paulistas para depredar patrimônio público na estreia do mundial. Foi retirado do meio do protesto pelo pai, que encantou o país ao reafirmar seu amor pelo filho, mas condenar sua postura violenta e antidemocrática. A hashtag #VaiPraCasaRenan fez história nas redes sociais!



9 – O fiasco do “padrão Fifa”

Pelos menos 40 voluntários da Copa em Brasília passaram mal após consumir as refeições servidas pela Fifa, no sábado (14), um dia antes do estádio Mané Garrincha estrear no mundial com a partida entre Suíça e Equador. Depois disso, não apareceu mais nenhum manifestante desavisado para pedir saúde e educação “padrão Fifa” no país!


10 – Sou “coxinha” e passo recibo!

Enquanto o Brasil e o mundo criticavam a falta de educação da “elite branca” que xingou a presidenta Dilma no Itaquerão, a empresária Isabela Raposeiras decidiu protestar pela causa oposta: publicou no seu facebook um post contra o preconceito e à discriminação dirigidos ao que ela chamou de “minoria de brasileiros que descente da elite branco-europeia”. “Não sentirei vergonha pelas minhas conquistas, pelo meu status social, pela minha pele branca”, afirmou.  Virou, automaticamente, a musa da “elite coxinha”. 

Exoesquele​to deu um chute no traseiro dos detratores do Brasil



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Carta Maior,   20/06/2014

Exoesqueleto do Professor Nicolelis deu um chute no traseiro dos detratores do Brasil

 
Por Antonio Lassance


 

​​Dizem os mais espirituosos que, no jogo de abertura da Copa, Brasil x Croácia, quando o lateral Marcelo (tricolor) viu a bola e o goleiro Júlio César (flamenguista) à sua frente, não resitiu e pensou: "quer saber, isso aqui é Fla-Flu" - e mandou a bola para dentro do gol brasileiro.

A piada é ótima porque explora o absurdo de uma situação improvável. Improvável?

Torcer contra o Brasil, por razões que vêm de outros carnavais, é algo mais comum do que se imagina.

Há, de tudo, um pouco. Comemorar o gol da  Croácia é o de menos. Dizer que #NaoVaiTerCopa e queimar nossa bandeira em praça pública mostraram-se atos isolados, que acabaram surtindo efeito contrário.

Torcida do contra, para valer mesmo, foi aquela feita pelo representante oficial de um grande banco privado brasileiro, feita em Davos (Suíça) e alhures, que declarou enfaticamente torcer para que o país fosse rebaixado pelas agências de classificação de risco - aquelas mesmas que não viram o elefante na sala de estar do capitalismo na megacrise que explodiu em 2008.
De vez em quando, torcer contra o Brasil chega ao limite do ridículo e faz vítimas improváveis.

O mais recente alvo desse tipo de babaquice foi o respeitado neurocientista Miguel Nicolelis - respeitado principalmente lá fora, pois, aqui dentro, sobram detratores.
Nicolelis se apresenta nas redes sociais como cientista e "apaixonado pelo Brasil". Revela, porém, seu defeito de ser palmeirense - ainda assim, uma razão irrelevante para se torcer contra Nicolelis.

Este brasileiro de quem me ufano lidera pesquisas pioneiras que se dedicam a fazer com que pessoas que perderam seus movimentos voltem a andar, a correr, a jogar bola, a ter uma vida com menos limitações. Seu principal projeto tem um sugestivo e emocionante nome: "Andar de novo".

Sua mágica é juntar neurociência, computação e robótica. A combinação foi representada no exoesqueleto levado a campo, na abertura da Copa, para ajudar o paraplégico Juliano Pinto a dar um chute que, simbolicamente, foi o pontapé inicial de muitos avanços.
Mas nada disso mostrou-se suficiente para evitar que Nicolelis fosse alvo dos ataques dos calunistas de plantão, que o acusaram de midiático, perdulário com o dinheiro público, farsante e de criar algo que pode ter futuro uso militar - claro, como a pólvora, o avião, os alimentos enlatados, o satélite, o computador, o telefone celular.

Acredite, Nicolelis foi acusado de "nacionalista" e também de ser um novo Santos Dumont, pejorativamente, por se dizer inventor de algo já inventado - sim, há quem, por aqui, prefira acreditar na lenda de que quem inventou o avião foram os irmãos Wright, aqueles que fabricaram um planador que só decolava catapultado, que teve um voo documentado por uma foto desfocada e de escassas testemunhas.
Até hoje, ninguém conseguiu fazer uma réplica do aeroplano dos irmãos Wright que conseguisse voar, ao contrário do voo perfeito da réplica do 14-Bis, em seu centenário (2006).
A maledicência contra Nicolelis lembra o destino de outro gigante da Ciência do Brasil, Carlos Chagas (1878-1934).
A tripanossomíase americana, popularmente conhecida como Doença de Chagas, em homenagem ao cientista, era um verdadeiro flagelo de várias regiões mais pobres de países de clima tropical.

Chagas descobriu o agente transmissor da doença, descreveu seu ambiente de propagação, seu ciclo evolutivo e, mais importante, salvou muitas vidas.

Como o professor Nicolelis, Chagas era um apaixonado pelo Brasil. Seu filho, Carlos Chagas Filho, também grande cientista, conta em seu livro de memórias que uma das mais marcantes recomendações que recebeu do pai foi a de que conhecesse o Brasil - que fosse para o interior do País, visitasse as localidades mais distantes e pobres. Isso era ciência para os Chagas.

Carlos Chagas, o pai, foi indicado ao Prêmio Nobel e sua descoberta tinha razões de sobra para que ele fosse laureado.

Curiosamente, a principal oposição à indicação de Chagas não vinha da comissão do Nobel, mas de alguns de seus compatriotas do Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos (hoje, Fundação Oswaldo Cruz) e da Academia Nacional de Medicina.

A oposição dos "colegas", que disputavam influência no Instituto, contra o herdeiro natural de Oswaldo Cruz, ia ao ponto de se negar a existência da doença e de se levantar dúvidas sobre a seriedade do trabalho de Chagas.
Essas desavenças chegaram aos ouvidos da comissão do Nobel, que, por via das dúvidas, deixou o ano de 1921 sem a premiação da área para a qual Chagas estava indicado.
Nicolelis, com Santos Dumont e Carlos Chagas, está em boa companhia.
Ao fim e ao cabo, não só os calunistas de Nicolelis, mas a própria Fifa, que desprezou o experimento e foi uma das principais críticas da Copa do Mundo no Brasil, receberam um chute no traseiro, para usar a expressão preferida do cartola Jérôme Valcke.

Foi um chute no traseiro com estilo, VIP, dado de dentro de um exoesqueleto por alguém que quer andar de novo.


(*) Antonio Lassance é cientista político. Texto publicado originalmente no Blog da Editora Boitempo