terça-feira, 7 de maio de 2013

Bolsa Família: mais de 1,6 milhão de casas abriram mão do benefício

http://oglobo.globo.com/pais/e-covardia-nao-necessitar-ficar-recebendo-diz-ex-beneficiaria-8314367


O Globo.com, 7/05/13


Rosana não quer carteira assinada por temer perder Bolsa Família
Foto: André Coelho / O Globo
Rosana não quer carteira assinada por temer perder Bolsa FamíliaAndré Coelho / O Globo

 
CAMPO FORMOSO (BA), TIMBIRAS (MA) e FORMOSA (GO) - Em quase uma década, 1,69 milhão de famílias de beneficiários do Bolsa Família saíram espontaneamente do programa, depois de declarar que tinham renda familiar acima do limite permitido, que é de R$ 140 mensais por pessoa. O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome diz desconhecer, porém, quantas dessas pessoas de fato saíram porque conseguiram emprego e passaram a ganhar mais.
O secretário nacional de Renda de Cidadania, Luís Henrique de Paiva, enfatiza que esses 1,69 milhão de beneficiários prestaram informações voluntariamente, durante a atualização cadastral, feita a cada dois anos pelas prefeituras. Segundo ele, o governo não sabe é se as pessoas passaram a ter mais renda ou ocorreu uma diminuição do número de integrantes da família, o que fez crescer a renda per capita.


— O Brasil ainda não tem um Big Brother para saber, caso a caso, o que aconteceu — diz Paiva.
Em relação ao universo atual de 13,8 milhões de famílias contempladas — totalizando 50 milhões de pessoas —, os beneficiários que deixaram o programa por informar renda maior que a permitida correspondem a 12%.
Em outra frente, a fiscalização excluiu 483 mil beneficiários flagrados com renda maior do que a permitida. O balanço cobre um período de quase dez anos, desde a criação do Bolsa Família, em outubro de 2003, até fevereiro de 2013. Ao visitar famílias contempladas, O GLOBO constatou que não falta gente com medo de perder o benefício. Uma pergunta ouvida com frequência quando os repórteres batiam à porta das famílias sintetiza esse estado de espírito: “É para cortar?”, indagavam os moradores.
— Estou até assustada. Daqui a pouco vão me prender por causa de um dinheirinho desse — foi logo dizendo a diarista Rosana Nascimento Oliveira, de 35 anos, que ganha R$ 172 por mês.
Mãe de três filhos adolescentes, Rosana trabalha três vezes por semana, limpando residências e lavando roupas, em Formosa, Goiás. Diz que começou aos 12 anos, como babá, depois que o pai morreu. Ela cobra R$ 30 por diária.
Rosana teme que um emprego com carteira assinada a impeça de receber o Bolsa Família. Ela está desinformada, pois o único critério levado em conta pelo programa é a renda familiar per capita, obtida em emprego formal ou informal.
— Eu nem procuro serviço fichado, com medo de perder esse dinheirinho. Diz que a gente não pode trabalhar. E esse dinheirinho é uma salvação. A hora que eu não tiver mais precisando, faço questão (de sair do programa). Mas, hoje, é muito útil para mim — afirmou a diarista.
A empregada doméstica Doraci Pinto de Melo, de 44 anos, foi outra que ficou com um pé atrás ao receber a equipe do GLOBO, junto com uma assistente social da prefeitura de Formosa.
Como O GLOBO revelou no domingo, 522 mil beneficiários permanecem na folha de pagamento desde o início do programa, o equivalente a 45% do total contemplado logo no mês de estreia, em outubro de 2003. É o caso de Rosana e Doraci. Os filhos de quem tem o benefício já cresceram, constituíram família e hoje ganham o próprio repasse.



‘É covardia não necessitar e ficar recebendo’, diz ex-beneficiária

Demétrio Weber, Enviado Especial



Selma fez primeira-dama de Formosa chorar
Foto: André Coelho / O Globo
Selma fez primeira-dama de Formosa chorarAndré Coelho / O Globo

 
FORMOSA (GO) — A diarista Selma Patrícia da Silva, de 42 anos, conta que já foi beneficiária de programas de transferência de renda do governo, mas voluntariamente abriu mão depois que melhorou de vida. Selma diz ter recebido dinheiro do Auxílio Gás, do Bolsa Escola e do Bolsa Família na época em que ela e o marido faziam bicos como doméstica e pedreiro para sustentar os cinco filhos. Após construir a casa onde vive, em Formosa, a diarista decidiu devolver o cartão.
Pensei assim: da mesma forma que serviu para os meus filhos, vai ajudar outras pessoas. Acho muita covardia a pessoa não necessitar e ficar recebendo. Entreguei o cartão na mão da primeira-dama (do município), que começou a chorar — relembra Selma.


Assistentes sociais da prefeitura conheceram Selma recentemente, quando ela foi solicitar benefício do Bolsa Família para a filha Vanessa, de 19 anos, mãe de um menino de 3 anos e uma menina de 1.
— É para os meus netos. Quero que minha filha depois também faça o que eu fiz — diz Selma.
Ela e o marido, hoje empregado numa construtora com carteira assinada, ajudam a filha dando fraldas e leite. Além de trabalhar como faxineira, Selma fez cursos de artesanato e manicure nos últimos anos. Ela costura bonecas e adereços de pano, que vende em feiras e na vizinhança.


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