sábado, 17 de dezembro de 2011

Quem bate os tambores de guerra?

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Montbläat, Ed 415

Quem bate os tambores de guerra contra o Irã?

 
Terry Jones (*)
 

No século 14 houve duas pandemias. Uma foi a Peste Negra; a outra foi a comercialização da guerra. Mercenários sempre houve, mas no reinado de Eduardo III converteram-se em principal sustentáculo do
exército inglês nos primeiros 20 anos do que seria a Guerra dos 100 Anos.
Então, quando Eduardo assinou o tratado de Brétigny em 1360 e disse aos soldados que parassem de guerrear e voltassem para casa, muitos deles não tinham casa para onde voltar. Estavam habituados a guerrear e da guerra tiravam o próprio sustento. Então, aqueles homens organizaram-se em exércitos freelance, não por acaso batizados de “livres empresas” (free
companies), e avançaram pela França, pilhando, matando e estuprando.
Um desses exércitos ficou conhecido como “A Grande Empresa” (The Great Company). Conforme estimativas conhecidas, reunia 16 mil soldados, maior que qualquer dos então existentes exércitos nacionais.
Atacou até o papa, em Avignon, prendeu-o e exigiu resgate. O papa cometeu o erro de pagar aos mercenários grandes quantidades de dinheiro vivo, o que só os estimulou e prosseguir nos malfeitos. Também sugeriu que se mudassem para a Itália, onde seus arquiinimigos, os Visconti, governavam Milão. Foi o que fizeram, sob a bandeira do Marquês de Monferrato, também subsidiado pelo papa.
Ali o pesadelo começou. Enormes exércitos privados puseram-se a varrer a Europa, desastre que só foi menor que a Peste Negra. Foi como se o gênio houvesse escapado da garrafa e ninguém conseguia metê-lo lá, de volta. A guerra, de repente, estava convertida em negócio lucrativo; as cidades italianas viram-se empobrecer – todo o dinheiro que os contribuintes pagavam era usado para comprar os serviços das livres empresas. E, dado que os que lucravam com a guerra naturalmente ansiavam por continuar a fazê-lo, e do mesmo modo, a guerra tornou-se eterna, infindável.
Corra o filme para o futuro, 650 anos adiante, mais ou menos. Os EUA, no governo de George W Bush, decidiu privatizar a invasão do Iraque, empregando “fornecedores” privados de serviços de guerra, como a empresa Blackwater, hoje rebatizada Xe Services. Em 2003, a Blackwater conseguiu um contrato sem licitação, de 27 milhões de dólares, para garantir a segurança de Paul Bremer, então presidente da Autoridade Provisória da Coalizão. Desde então, vendendo proteção a servidores públicos em zonas de conflito desde 2004, a empresa já recebeu mais de 320 milhões de dólares. E em 2011 o governo Obama contratou serviços da Xe, pelos quais terá pago, até dezembro em curso, 250 milhões de dólares por serviços de segurança no Afeganistão. Essa é apenas uma das várias empresas que lucram com a guerra.
Em 2000, o Projeto para o Novo Século publicou um relatório, “Rebuilding America's Defenses” (Reconstruindo as Defesas dos EUA), cujo objetivo declarado é aumentar os gastos da Defesa, de 3% para 3,5% ou 3,8% do PIB dos EUA. De fato, esses gastos já chegam hoje a 4,7% do PIB dos EUA. Na Grã-Bretanha, gastamos, na Defesa, cerca de 57 bilhões por ano, 2,5% do PIB.
Assim como os cidadãos contribuintes das cidades-estado italianas medievais, estamos vendo nosso dinheiro ser drenado para o negócio da guerra. Empresas responsáveis têm de gerar lucros para remunerar os acionistas. No século 14, os acionistas das livres empresas eram os próprios soldados. Se a empresa não estivesse contratada por alguém para fazer guerra contra algum outro, os acionistas viam sumir os dividendos. Por isso, cuidavam, eles mesmos, de criar mercados nos quais seus negócios continuassem a render lucros.
A Empresa Branca (White Company) de Sir John Hawkwood podia oferecer seus serviços ao papa ou à cidade de Florença. Se a oferta não interessasse a algum desses, Hawkwood imediatamente oferecia os mesmos serviços aos seus respectivos inimigos. Como Francis Stonor Saunders escreve, em seu maravilhoso Hawkwood – Diabolical Englishman: “As empresas tinham, unicamente, o valor negativo de manter o equilíbrio do poder militar entre as cidades”. Exatamente como a Guerra Fria.
Há vinte anos, numa livraria, passei a mão numa revista da indústria de armas. “Graças a Deus, Saddam existe” – era o título do editorial. Explicava que, desde o colapso do bloco soviético e o fim da Guerra Fria, as pastas de contratos da indústria de armas andaram vazias. Mas naquele momento, havia afinal um inimigo, e a indústria voltava a sonhar com melhores tempos. A invasão do Iraque foi inventada em torno de uma mentira: Saddam jamais teve armas de destruição em massa; mas a Defesa carecia de inimigo; e os políticos rapidamente forneceram-lhe um. Hoje, os mesmos tambores de guerra, encorajados pelo ataque à embaixada britânica semana passada, voltam a bater, clamando por ataque contra o Irã.
Seymour Hersh escreve na revista New Yorker: “Todo o urânio baixo enriquecido que o Irã produz é conhecido, legal e legítimo”. O relatório recente da Agência Internacional de Energia Atômica, que provocou onda de fúria contra ambições nucleares dos iranianos – continua Hersh – não contém sequer uma linha que prove que o Irã estaria desenvolvendo armas nucleares.
No século 14, quem vivia em simbiose com os militares era a igreja. Hoje, são os políticos. O governo dos EUA gastou espantosíssimos 687 bilhões de dólares na ‘defesa’, em 2010. Pensem em tudo que se poderia fazer, se o mesmo dinheiro fosse aplicado em hospitais, escolas, ou para pagar hipotecas extorsivas, de famílias despejadas que hoje vivem na rua.
O ex-presidente Dwight Eisenhower dos EUA aproveitou a oportunidade de um discurso de despedida, em 1961, para alertar os cidadãos norteamericanos contra o risco de admitir relacionamento muito íntimo entre os políticos e a indústria da defesa. “Essa conjunção, quando há um imenso establishment militar e grande indústria de armas, é novidade na experiência dos norte-americanos” – disse ele. – “Nos conselhos do governo, temos de nos prevenir conta o risco de que venham a acumular excessiva influência. O potencial para que cresça muito um poder desastroso e deslocado está aí, existe e continuará a existir”.
Existe mesmo. O gênio, outra vez, escapou da garrafa. 

 
(*) Jornalista – The Gardian (Inglaterra)

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